396- Bioética e disciplinaridades

interdisciplinaridade

Crédito: http://www.diabetes.org.br/publico/ideias-e-comentarios/1260-a-realidade-do-diabetes-a-interdisciplinaridade-como-caminho

Pentágono-300x225.jpgTodo atendimento às necessidades de saúde de um paciente tem suas peculiaridades. Elas estão associadas, essencialmente, ao modo com que se dão as interações entre cinco componentes atuantes na beira do leito: Medicina (ciências da saúde), médico (profissional da saúde), paciente/familiar, instituição de saúde e sistema de saúde (Pentágono da Beira do leito).

As influências recíprocas exigem um pluralismo epistemológico à beira do leito. Muitos saberes podem ser convocados para sustentar as inter-relações, nexos e vínculos tanto entre campos do conhecimento das ciências da saúde – Medicina, Biologia, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Nutrição, Terapia Ocupacional, Odontologia-,  quanto além delas – Ética, Direito, Filosofia, Comunicação, Economia, Teologia, Matemática, Antropologia, Engenharia, Literatura, etc…

Assim, podemos figurar que a beira do leito precisa ajustar vários recortes de saber que estão organizados em disciplinas para melhor desenvolvimento e ensino segundo o rigor de regras e de métodos que lhes são mais adequados. Mas, a fragmentação do saber ao mesmo tempo que concorre para a expansão, a reflexão teórica e o aprendizado, prejudica a sua aplicação em nível social, a ênfase na resolução de problemas. Por isso, a beira do leito dos seres humanos que cuidam de seres humanos envolvendo circunstâncias biológicas e aspectos sócio-econômicos-emocionais com ampla diversificação caso a caso não se sustenta com única disciplina, referida, por exemplo a um CID principal. Por mais que seja uma beira do leito de um paciente que está sendo cuidado por uma doença do coração, o ser humano abriga outros órgãos exigentes de atenção pelas ciências da saúde e, inserido na sociedade, demanda aspectos da cidadania, vale dizer um intercâmbio de um conjunto  variável de recortes do conhecimento científico e não científico.

A beira do leito do século XXI está longe do conhecimento baseado na tradição  que vigorou até o século XVII, obtido por meio da contemplação, do êxtase e da revelação de caráter divino, que se perpetuava numa oralidade passada de mestre para discípulo bem como supera o racionalismo (matéria e espírito) que se sustenta em pensamentos ligados à razão discursiva, como faculdade cognitiva maior, conforme influência aristotélica. De fato, a partir do século passado, especialmente, o empirismo – base na experiência e que afasta o valor de apreciações inatas sobre o que é sensível ao ser humano- domina. Uma das tribunas é a Medicina baseada em evidências que desvaloriza conhecimentos não obtidos de modo sistematizado, colocando-lhes a etiqueta Achologia, um termo exagerado, pois inclui a vivência inquestionável de profissionais.

A beira do leito contemporânea ao requerer integração entre as ciências e as humanidades admite  a convivência atualizada do empirismo – representado pelas diretrizes clínicas, por exemplo-, com o racionalismo – pensamentos inteligentes não necessariamente reprodutíveis em experimentos, por exemplo- e com a tradição – o misticismo de cada um, por exemplo -, cada relação médico-paciente  tendo seu nível de combinação.

Nesta religação em que pitadas de ceticismo, reducionismo, criticismo, mecanicismo, materialismo podem exercer influências, as disciplinas têm sido direcionadas para a convivência em serviço, o que resultou numa inclusão de prefixos ao termo disciplinaridade. Num primeiro momento, deu-se a multidisciplinaridade, no âmbito do ensino pela inclusão de um bloco com várias disciplinas num currículo, cada qual com seus objetivos isolados e sem cooperação e,  no âmbito de trabalho, a pluridisciplinaridade com a justaposição de áreas do conhecimento próximas com  troca de informações que não é profunda e não provoca modificações essenciais em cada disciplina eventualmente envolvida. Funciona como monólogos justapostos (colírio prescrito pelo Oftalmologista, pomada prescrita pelo Dermatologista). A seguir, uma visão de contraposição à hiper-especialização favoreceu a realização de intercâmbios entre as disciplinas, a interdisciplinaridade, cooperação com coordenação, uma tendência à reunião das ilhas do saber num arquipélago compartilhando conceitos, dialogando e produzindo novos saberes.

Contudo, a condição humana é plural e complexa, suscita mais de um nível de realidade, vários níveis de percepção. Na beira do leito de nossos dias não cabem o formalismo excessivo, a rigidez de definições e o excesso de objetividade com exclusão do sujeito, de modo que o oposto de uma verdade profunda pode ser outra verdade profunda, ou seja, verdades devem ser configuradas como conhecimentos provisórios e dinâmicos. Desta maneira, a lógica clássica do terceiro excluído (A difere de não A e inexiste algo ao mesmo tempo A e não A) deu lugar à noção de possibilidade de um terceiro termo T que é ao mesmo tempo A e não-A, inspirado pelos estudos da física quântica, sugerindo que opostos podem ser complementares. Por tudo isso, nasceu a concepção da transdisciplinaridade, que retira fronteiras sólidas entre as disciplinas, coloca o conhecimento entre e além das mesmas, objetivando uma unidade do conhecimento que dê melhor compreensão da complexidade pela tolerância ao desconhecido, ao imprevisível e ao inesperado. Entendemos que na prática, a beira do leito admite uma interdisciplinaridade com tendência aà multidisciplinaridade e uma interdisciplinaridade com tendência à transdisciplinaridade.

A Bioética da Beira do leito, particularmente em sua missão de atuar em conflitos no âmbito do Pentágono da Beira do leito pretendendo uma organização de trabalho polivalente para apoio à resolução concreta da questão e/ou à ampliação dos pontos de vista passíveis de serem considerados perante as peculiaridades,  tem a inter(trans)disciplinaridade como um valor maior.

Enquete 652- Dignidade

Há contraposição sobre o conceito de dignidade. Uns entendem que  se limita ao respeito à pessoa e a sua autonomia. Outros ampliam e  associam ao compartilhamento de normas que conferem mesmo status social a todas as pessoas, que apenas o respeito à autonomia não evita tratamento como baixo status social.

Na sua opinião, dignidade

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Enquete 651- Genes pró-divórcio?

Estudo traz evidências que fatores genéticos participam de uma transmissão inter-geração do divórcio. É sugerido que traços da personalidade transmitidos por genes tenham impacto negativo no relacionamento de um casamento https://www.eurekalert.org/pub_releases/2017-10/vcu-wdd100417.php

Se a conclusão for confirmada por outros estudos, deveria fazer parte de exame pré-nupcial?

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395- Inovação tecnológica não é tudo (Parte 4)

É importante ter em mente o significado moral de ficarmos reféns da alta tecnologia inovadora e sedutora que aprisiona – com certo autoritarismo- e  arrisca desagregar o tradicional vigor do raciocínio clínico. É comum o pensamento que o novo é melhor, que é para frente que a ciência caminha, que a tecnologia supera-se a cada dia. Todavia, há nítida tensão entre quaisquer projeções coletivas do bem tecnológico e a condição humana do caráter, personalidade e temperamento individuais que atua com iniciativa ou de modo reator, especialmente na área da Saúde. É cenário onde a educação, o treinamento e o acolhimento tradicionais não podem ser dispensados porque máquinas ou dispositivos de última geração são disponibilizados e tendem a dominar o contexto da atenção às necessidades do paciente. Mais acesso tecnologia requer mais suporte às humanidades, assim como atuação da inteligência artificial exige aperfeiçoamento da inteligência natural para não ficar indevidamente dominada.

O bom conceitual da ciência não necessariamente soa bom para um ser humano que conjuga objetivos, desejos, preferências e valores. Você é examinado por um scanner, recebe um laudo de anormalidades, é solicitado a se submeter a processos de reversão, sujeita-se a benefícios que não podem isentar-se de malefícios em prol da qualidade de vida e de sobrevida.   Acontece que não estamos pessoalmente e socialmente preparados para o timing de tais procedimentos, de evidente combate à doença, especialmente os invasivos e mutiladores,  quando nos sentimos plenamente saudáveis para a ideia de interferências na sequência da vida pessoal e profissional nunca imaginadas. O caráter social da Medicina é preocupação da Bioética!

Uma célula degenerada de algum órgão acabada de entrar na circulação sanguínea, uma imagem diminuta preocupante identificada por uma terrível poder resolutivo de uma máquina, certa árvore genética subvertem as sustentações sobre A Clínica é soberana. Desenvolvem-se condutas que podem ser consideradas como terapêutica preventiva, agregando ao conceito que  cuidar no início favorece o prognóstico, mas sem uma certeza sobre o fato que este início é mais inicial do que aquele a que estamos habituados. Iremos retirar mamas e próstatas isentas de indicação tradicional após uma certa idade em função do risco genético de tumor? Quem assim consentir deverá retirar o apêndice também  pela mesma via das dúvidas? O pensamento que mesmo rio não faz correr mesma água e depende de nascentes para sobreviver assim aplicado ao progresso da Medicina entusiasma a Bioética.

Assim como Hipócrates instigou os cidadãos a ter novos modos de pensar, a organização social da condição humana- lembrando que o Brasil é pluri-étnico e multicultural- terá que lidar com novos modos de aplicar e receber Medicina, idealmente expressando equidade, beneficência, segurança, respeito à autonomia da pessoa, sensível à ética da virtude e com bom entendimento sobre as contraposições entre visão deontológica e consequencialista (utilitarista). Como sabemos que a prática se distancia desta idealidade, precisamos da Bioética!

É excitante pensar em termos de curto prazo numa precisão da Medicina máquina calculadora em que cada paciente chega com um manual de uso personalizado, pá-pum e tudo solucionado. Preencher lacunas do despreparo do projeto ser humano para rechaçar causas e mecanismos de doença, muitas geradas por ele mesmo- auto-imunes, induzidas pelo desencadeamento de inflamação,  é objetivo, sem dúvida, de todos os pesquisadores. Para a tradução das conclusões na beira do leito, para o acompanhamento pari-passu de uma técnico-ciência que não tem compromisso em si com a pluralidade da condição humana e que cada vez mais revela informações privilegiadas, íntimas e sigilosas – que alguém pode preferir não saber ainda mais se for suposição de risco, como predisposição a uma determinada doença grave-  ou  permite manejos genéticos espetaculares, é conveniente contar com a Bioética!

 Precisamos distinguir com sabedoria o que seja máquina do saber e  estrutura de sabedoria, por isso Alô Bioética!

394- Inovação tecnológica não é tudo (Parte 3)

A implementação tecnológica acelerada em Medicina observada neste início de século XXI e devidamente validada almeja informações fidedignas sobre o binômio doente-doença que incluem imagens “anatomopatológicas” e dados do sangue para que se tornem patognomônicos e, assim, serem utilizados como certezas baseadas em evidências. O uso clínico da genética entusiasma investimentos para o desenvolvimento da Medicina personalizada. Novos modos de pensar Medicina motivam exercícios de futurologia com credibilidade que provocam desejos para já o presente e, até, uma expressão de tolerância para o que ainda se faz. Uma nova comunhão de interesses no âmbito da relação médico-paciente interessa a Bioética!

Mais detalhamento, mais precisão diagnóstica, mais evidências de benefícios em vantagem sobre malefícios tendem ao desenvolvimento de um pensamento de Medicina caminhando no sentido de uma ciência exata. Todavia, 26 séculos de Medicina não permitem esquecer da espiral ascendente onde cada  novidade suscita novos desafios, sustenta objetivos primários originais, porém por mais que se aproxime de certezas científicas no geral, a exatidão individual tem que lidar com a contraposição do caráter humano plural. A relação médico-paciente-sistema de saúde inclui reações biológicas e aplicações políticas peculiares. As incursões no subclínico, na prevenção e na terapêutica inédita, modificam o conceito de A Clínica é soberana para O paciente é soberano. Com ele, amplia-se o conceito de achado no sentido de uma procura ativa. Ademais, geram-se impactos complexos sobre a relação qualidade de vida/sobrevida individual e significado de responsabilidades sociais, estruturais e econômicas. Nele,  robustece-se o valor do direito à autonomia do paciente frente aos vieses de paternalismo das aparelhagens, dos métodos um pouco mais beneficentes, mas não resolutivos  e da interação com inteligência artificial que traz previsibilidades de novas instrumentalizações para os velhos diagnósticos fisiopatológico, etiopatogênico, clínico e anatômico. Aumenta a vigilância sobre o comportamento das  dualidades benefício/malefício e superioridade/não inferioridade da fase clínica de pesquisas na  chamada fase de mercado. Choques entre evidência tecnológica e destaques da condição humana suscitam a participação da Bioética!

Enquete 650- Infração ética?

Paciente idoso, capaz, sem acompanhante na consulta recusa-se a prosseguir na investigação diagnóstica julgada necessária pelo médico pela suspeita de doença grave com mau prognóstico na evolução natural. O médico resolve se comunicar com a filha do paciente, que é sua cliente, para alertar-lá da situação.

O médico praticou uma infração ética ao expor a situação do idoso à filha sem o consentimento do paciente?

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Enquete 648- Aprimoramento moral por método biológico

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Crédito: https://blogs.scientificamerican.com/observations/moral-enhancement-is-science-fiction-not-science-fact/

Aprimoramento moral, tanto natural (educação) quanto por aplicação mediante solicitação voluntária de meios biomédicos – farmacológicos ou genéticos- para elevar o valor moral de ações.  Um objetivo apresentados pelos  propositores do aprimoramento biomédico é  evitar não somente a ameaça de extinção humana como formas de totalitarismo.

https://www.researchgate.net/profile/Vojin_Rakic2/publication/308517195_Confronting_Existential_Risks_With_Voluntary_Moral_Bioenhancement/links/57e566a708aed7fe46631ca6.pdf

Intervenções sobre inibidores seletivos de recaptação da serotonina estão sendo considerados importantes para o aprimoramento moral de pessoas com comportamentos impulsivos agressivos  anti-sociais. Supõe-se que a serotonina tenha a capacidade de  modular  a aversão de pessoas ao dano.

Estudo publicado no Nature  concluiu que a elevação de níveis de ocitocina no cérebro aumenta a confiança e a cooperação social.

Você crê na segurança de uma intervenção desta natureza?

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Enquete 647- Criança tem a competência?

Novo endereço do blog

https://bioamigo.com.br

O estado de Victoria, na Austrália, inovou permitindo que crianças de qualquer idade  façam uma diretiva  sobre cuidados avançados de suporte à vida, incluindo diálise e quimioterapia, que será obedecido pelos médicos, gerando controvérsias em torno do consentimento habitualmente realizado pelo responsável legal https://theconversation.com/children-can-decide-their-medical-treatments-under-victorias-unique-advance-directive-laws-83356.

Você entende que crianças têm competência para tais decisões?

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