CBio 27- Formação Médica e Vocação de ser Médico

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Dr. Chin An Lin

Hospital das Clínicas FMUSP 

O advento e o estabelecimento da Medicina Baseada em Evidência como uma ferramenta de constante atualização trouxeram avanços importantes na prática médica. Além de padronizar a conduta, a prática baseada em evidências criou uma rotina de sempre buscara melhor conduta com os menores efeitos adversos, na forma de “guideline” ou protocolos que são resultados de muitos estudos clínicos e muitas metaanálises e revisões sistemáticas.

Na busca por uma conduta mais atualizada, os médicos em formação e os gestores em saúde, além dos gestores de educação médica têm incentivado a prática baseada em evidências científicas, protocolos e consensos de sociedades de especialidades médicas como a única meta a ser alcançada. Dessa forma, o bom profissional médico é aquele que sabe e está familiarizado com as mais recentes atualizações de terapêutica e não mais aquele que é empático, aquele que escuta o paciente e aquele que respeita a autonomia do paciente.

Preza-se mais a parte cognitiva e ignora-se a parte, talvez mais importante da formação e prática médicas: a parte não cognitiva que está baseada na prática vocacional da medicina.

Desde os tempos memoriais, o médico, por ter pouco arsenal terapêutico, mais confortava o paciente que sofria do que lhe administrava medicações que realmente fizesse diferença. Com o passar do tempo, ao ser capacitado tecnicamente, com opções terapêuticas e tecnologia para fazer diagnóstico, paulatinamente, a parte cognitiva passou a ser a parte mais importante na formação médica.

De posse dessa capacitação técnica, o médico passa a gerenciar as condições acerca da saúde do paciente como um agente de plenos poderes e acaba por não dialogar o paciente de forma a permitir que o maior interessado possa participar do processo, na tomada de decisão sobre diagnóstico, terapêutica e prognóstico. O não consentimento do paciente a respeito de tomada de decisão unilateral do médico traz um verdadeiro desafio ao médico, visto que na sua formação, essas questões que não envolvem o treinamento cognitivo não são debatidas e discutidas com profundidade.

Nos consensos de diagnóstico e tratamento tão minuciosamente elaborados pelas sociedades de especialidades, não há nenhum item sobre o não consentimento do paciente. Assim o médico de hoje não sabe lidar com esta situação, pois não está prevista nos “guidelines”.

É urgente que voltemos para a parte não cognitiva da formação do médico. A parte cognitiva se adquire de forma natural, ao expor o estudante em formação médica aos estudos curriculares. Já a parte cognitiva é essencialmente formativa. O estudante em formação necessita ser imerso em um ambiente de aprendizagem onde ele aprenda a tolerar frustrações, respeitar autonomia e seja preparado a ouvir e aceitar o não consentimento do paciente em relação ao plano proposto tanto da terapêutica quanto do diagnóstico.

O médico vocacionado para cuidar do paciente precisa saber ouvir o paciente, precisa aprender a negociar e não impor, precisa aceitar o não consentimento do paciente.

 

CBio26- Um bem ou um não mal?

RS

Rachel Sztajn

Advogada

Professora da Faculdade de Direito da USP

Artigo de JAMA Pediatrics https://jamanetwork.com/journals/jamapediatrics/fullarticle/2648194   indaga o que fazer diante da divergente posição entre médicos e pais da criança Charlie Gold diagnosticada com patologia mitocondrial, internada em hospital inglês. É que diante da falta de perspectiva de cura, os médicos propunham a ortotanásia enquanto os pais insistiam em submeter o filho a tratamento experimental em instituição norte-americana.

A abordagem do texto contrapõe princípios de bioética, o hipocrático de não fazer o mal versus o que se denomina melhores interesses de pacientes. A particularidade deste caso específico envolve, de um lado pediatras, profissionais da saúde que costumam incorporar em suas decisões a experiência da prática da medicina, e de outro o interesse dos pais de incapaz (incompetente – 11 meses) na tomada de decisão quanto ao futuro do paciente e seu melhor interesse.

A divergência foi levado ao Judiciário inglês e a decisão foi a de não se transferir a criança para que fosse submetida a tratamento experimental que, segundo a decisão, não atenderia ao melhor interesse do paciente.

Em face da decisão os autores comparam o “princípio do melhor interesse” com o bioético/hipocrático  de “não fazer o mal’, entendendo que este, não fazer o mal,  fundamentaria melhor a decisão judicial, intervenção do Estado na esfera privada das pessoas.

Ainda que se aceite a existência de padrões que possam justificar a invocação do melhor interesse do paciente, é preciso ter presente que cada pessoa fará escolha que não necessariamente será idêntica a de outra(s), mesmo que pertencentes a um mesmo grupo. Ressalve-se, aqui, a questão religiosa como fator de igualdade na tomada de decisões que envolvam vida ainda que sem qualidade.

No caso de paciente incapaz, a avaliação compete aos pais e, supõe-se, agiriam de forma altruísta, visando a preservar a qualidade de vida ao invocarem o melhor interesse do paciente. O que se esquece é que, por vezes, a decisão dos pais é influenciada por outros valores: de um lado a preservação da espécie e a gratidão que esperam, em momento futuro, por terem atuado no “melhor interesse” dos filhos; de outro o egoísmo que vem mascarado sob o viés da responsabilidade pelos menores e, por vezes, até maiores de idade.

Ao recorrer ao princípio da não maleficência, a intervenção do Estado se explica pela preponderância do interesse geral, saúde pública, bem-estar social e, tem como meta, evitar que os pais impeçam procedimentos curativos.  Ainda uma vez, ressalte-se a questão de transfusão de sangue envolvendo Testemunhas de Jeová, em que preceitos religiosos inviabilizam certos procedimentos médicos.

Assim, argumentam os autores, o princípio da não maleficência, e não o do melhor interesse, deveria pautar as intervenções judiciais nas situações de divergência insanável, entre médicos e pais de menores. Isto sem considerar a questão da alocação dos recursos escassos quando se está frente a tratamentos fúteis que apenas visam a prolongar a vida, sem perspectiva de cura.

Ao invocarem o sofrimento dos pais em consequência de uma decisão equivocada, contrária à dos profissionais de saúde, os autores, entendem que o princípio da não maleficência atua de forma mais compreensível do que o de melhor interesse e que a dualidade de valores ressalta a importância da ética, notadamente quando envolve a vida e sua qualidade, de crianças, menores e incapazes.

Pensando a judicialização da saúde no Brasil, tendo a considerar que nosso Judiciário optaria por atender ao desejo dos pais e, independente de família dispor de recursos para custear a remoção da criança para os Estados Unidos da América, o argumento do melhor interesse seria acolhido.

A presunção de que os pais, por terem a guarda dos filhos, têm o dever de buscar o que lhes (pais) pareça melhor para preservar a vida da criança afastaria, de imediato, eventual egoísmo parental adotando-se o altruísmo como fator central de embasamento do pedido judicial.

Cabe à bioética, mais do que ao ordenamento jurídico, pensar estruturas que componham interesses individuais e coletivos sempre que isto envolver recursos escassos mas, sobretudo, em face de terapias ainda em fase de pesquisa o que potencializa riscos de insucesso.

CBio 25- Autonomia precisa ser referida à Medicina (Parte 2)

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Janice Caron Nazareth

Cardiologista

Presidente do CoBi  do Hospital  Alemão Oswaldo Cruz

 

No passado, médicos eram considerados verdadeiros deuses, tanto por deterem conhecimento muito acima da população em geral, como pela magia em torno de suas figuras e atuação. Desse modo, as decisões, em relação aos tratamentos, eram de sua total escolha, de modo paternal e unilateral.

 Vários fatores contribuem para que, hoje, muitos médicos hesitem nas tomadas de decisões, protelando-as ou delegando-as para pacientes e familiares:

  1. O vasto conhecimento decorrente dos meios de comunicação permite o acesso dos leigos aos mecanismos e tratamentos das doenças, sem lhes dar o domínio total dos mesmos, assim como os coloca às claras com seus direitos;
  2. A autonomia, embora muito diferente nos diversos países, tem sido mais observada;
  3. O avanço científico tornou muitos médicos mais frios e distantes do cuidado propriamente dito, carecendo de compaixão;
  4. As diretrizes são, muitas vezes, seguidas de maneira irracional e usadas pelos planos de saúde como pressão sobre a classe médica, cuja imagem já vem chamuscada  pela proliferação de profissionais mal preparados;
  5. Advogados incitam a população a processos contra médicos, trazendo à tona reais erros médicos, mas, também, outros infundados, acuando nossa classe.

O ideal é que todos os pacientes, assim como familiares próximos ou responsáveis, sejam orientados sobre as opções terapêuticas, de forma que possam ter a real compreensão das implicações que cada uma traz, com análise dos benefícios reais. Da mesma forma, o médico deverá ter em mente os desejos do paciente, respeitando  suas determinações, vontades e sentimentos, que podem ser  totalmente distintos conforme  sua trajetória e momento de vida, suas  crenças e experiências prévias.

No tema Autonomia precisa ser referida à Medicina é essencial destacar como mensagem de vital importância que  é  dever do médico de ponderar as informações fornecidas por pacientes e familiares, devolver-lhes todos os dados técnicos necessários, para, só então, e  junto a eles, tomar uma “decisão compartilhada”. 

 

 

CBio 24- Consentimento pelo paciente e prática clínica na vida real

 

IMG_7962Antonio Mendes Neto

 

Sou médico há 36 anos e acompanho todos os movimentos da prática médica ao longo destes anos.

Acredito que a questão da obrigatoriedade de consentimento pelo paciente está ainda muito ligada aos trabalhos clínicos, levados a termo por instituições universitárias, governamentais ou da indústria privada.

No dia a dia da assistência, creio que a questão  da  obrigatoriedade é, em sua maioria, deixada de lado.

Óbvio que, quando estamos diante de pessoas com maior grau de esclarecimento a respeito de sua situação de saúde, cada vez mais nos deparamos com a manifestação da opção pessoal das mesmas em relação aos métodos de diagnóstico e de tratamento. Algumas vezes até, contrariando aquilo que é a nossa recomendação baseada sempre na literatura médica ou na experiência adquirida ao longo dos anos.

Hoje, com o advento da internet e dos sites de busca, muitas vezes os pacientes já chegam  com informações, frequentemente mal compreendidas a respeito de sua saúde.

Nas pessoas com menor grau de instrução ou mesmo naquelas com pouco conhecimento da doença para a qual o tratamento ou exame é necessário, a figura paternalista e/ou imperialista do médico ainda prevalece.

Na minha prática diária, em relação ao tratamento farmacológico, a principal demanda dos pacientes para a aceitação da orientação é pelo custo da medicação, sendo que ela foi exacerbada com a implementação do programa do governo federal chamado de “farmácia popular”. Em função dela, muitas vezes temos que fazer alterações na prescrição, baseado na solicitação dos pacientes para  se utilizarem daqueles fármacos selecionados, mesmo que em algumas situações eles não se encaixem adequadamente no perfil de necessidade do doente.

A situação do consentimento pelo paciente é de forma mais adequadamente utilizada no dia-a-dia, quando há a necessidade de um exame diagnóstico invasivo ou de um procedimento cirúrgico. Na maioria destes casos, o aceite do paciente é extremamente necessário e, inclusive, com ou sem o aval de familiares. Mesmo assim, em grande número de situações a imposição da conduta pelo médico é o que prevalece e eu diria, tal atitude é aceita pelos pacientes.

CBio23- Acidente de trabalho e risco de contaminação de profissionais que atuem em instituições hospitalares

RSRachel Sztajn
Professora de Direito e membro da Comissão de Bioética do HCFMUSP

Justiça do Trabalho condena hospital ao pagamento de danos morais e materiais à família de técnica de enfermagem, que trabalhava na instituição, e que veio a falecer em 2009, por ter contraído o vírus H1N1, ou seja, por acidente de trabalho http://economia.ig.com.br/2017-10-27/hospital-indenizacao.html.

O acordão do TST bem o evidencia: havia vínculo laboral entre a falecida e a instituição hospitalar e o evento morte, segundo a família da falecida, resultou de descuido, negligência, da instituição que não teria adotado medidas de prevenção em face do surto do vírus H1N1. Diante de tal evento, argumentou-se, em virtude da gravidez, a técnica de enfermagem deveria ter sido transferida para outro setor do hospital em que houvesse menor risco de contaminação.

Esse argumento mostra que a família sabia, assim como deveria saber a técnica de enfermagem, que o ambiente hospitalar não é, exatamente, área infensa a riscos.

Teria a técnica de enfermagem solicitado sua transferência para setor menos propenso a contágios? Se o fez, teria a instituição negado o pedido? Se as respostas forem afirmativas, seja do ponto de vista jurídico, seja do ético, houve assunção do risco de contágio pela instituição.

Outros fatos deveriam ter sido analisados como, por exemplo, outras pessoas foram contaminadas à época, na mesma instituição/setor? Houve divulgação de medidas preventivas que deveriam ser observadas pelos profissionais que atuavam no local em relação ao vírus?

Respostas negativas serviriam de suporte para o recurso que o TRT da 17ª. região – (ES) -, que considerou não estar demonstrado nexo de causalidade entre a atividade desenvolvida e a contaminação. Com isso entendeu-se que faltariam provas por parte do hospital que juntara o prontuário médico

Admita-se que o prontuário espelha o quadro clínico e terapêuticas adotadas mas, dificilmente indica a origem de uma contaminação por vírus, portanto, a “prova” poder ser considerada insuficiente.

Nessa linha o TST, ao não aceitar os argumentos da instituição de saúde, de que à época enfrentava-se uma pandemia de H1N, o que era de conhecimento geral, segundo voto do Ministro Relator, tendo invocado relação de causalidade – trabalho no hospital e contaminação – deveria ter demonstrado, isto é provado, que não houvera negligência, imprudência ou imperícia dos administradores da instituição e que não havia notícia de outros casos ligados à instituição. Prova diabólica de dificílima demonstração? Não parece que seja o caso

De sua parte a técnica de enfermagem, dado o exercício de atividades em instituição de saúde, em que o ambiente pode amplificar riscos de contágio, nada obstante medidas preventivas sejam adotadas, deveria saber disso e, portanto, afastar-se, notadamente em situações de pandemia, de riscos contaminação.

Comuns relatos de profissionais de saúde contaminados em virtude da realização de procedimentos – cirurgião que se fere com o bisturi que está utilizando -.  Tal resultado, igualmente acidente de trabalho, pode ser imputado ao hospital? Parece-me que não.

Configurado o acidente – morte da técnica de enfermagem, a família aciona o hospital na Justiça do Trabalho e obtém reparação a título de danos morais e materiais em seu benefício.

Estar-se-á em face de valoração da vida humana? Os pagamentos mensais configuram alimentos? O prazo de 39 anos refere-se à expectativa de vida da técnica de enfermagem? Parece-me que sim.

Teria havido algum viés protecionista da Justiça que, por óbvio, não pode ressucitar a técnica de enfermagem, sem considerar que, exatamente por atuar em hospital, tem corresponsabilidade pela adoção de medidas preventivas?

Talvez mais preocupantes sejam os efeitos de segunda ordem decorrentes desse tipo de decisão que, ao aumentarem os riscos do exercício de uma atividade socialmente relevante, venham a estimular o aumento de custos mediante adoção exagerada de medidas de precaução para evitar, ou no mínimo, provar que não havia negligência, imprudência ou imperícia de sua parte. Esses custos recairão sobre a sociedade pelo aumento de despesas.

Por derradeiro, como garantir-se que, ainda que a técnica fosse transferida para outro setor hospitalar, não haveria contaminação? Os vírus têm maus hábitos: disseminam-se não apenas por contato direto entre pessoas.

 

CBio 22- Jovem mata irmão tetraplégico por piedade. Ele deve ser condenado?

 

ernesto-lippmannDr. Ernesto Lippmann
Advogado

 

Um dos casos jurídicos mais interessantes dos últimos anos foi o do assassinato de um tetraplégico pelo seu irmão, por piedade e a pedido da vítima.

De acordo com o delegado Marcos Fuentes, Roberto desafiou o irmão a disputar um racha entre moto e carro. Geraldo acabou capotando o automóvel que dirigia. “Ele culpava o irmão e dizia que era obrigação dele matá-lo”, afirmou Fuentes. Segundo ele, a vítima vivia dizendo “nem me matar eu consigo!”.  http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2810201122.htm

Os irmãos cogitaram forjar um suicídio com um veneno, mas desistiram, porque Geraldo não teria como fazer isso sozinho. Eles, então, decidiram fazer com que o assassinato se parecesse com um roubo seguido de morte. No sábado, o sobrinho de Oliveira, de 15 anos, acionou os PMs e avisou os familiares de que um ladrão roubou R$ 800 e matou Geraldo.

O caso levantou suspeitas da polícia porque a vítima não teria como reagir, justamente por ser tetraplégica. Além disso, diz a polícia, causou estranheza o fato de o sobrinho não ter sofrido agressão.

O irmão foi preso temporariamente  por homicídio doloso, mas teve a prisão revogada. O crime, por lei seria  agravada por duas circunstâncias: primeiro porque era irmão da vítima e segundo porque a vítima era enferma. “Aí se vê uma ironia da Legislação: a mesma motivação que ele tinha para fazer o que fez, ou seja, ele amava o irmão e não suportava ver ele naquela situação de enfermidade, são as mesmas circunstâncias que agravam a pena dele”, disse o advogado.

Desde o início do julgamento o advogado de defesa, Edmundo Canavezzi, disse acreditar que a sentença seria favorável ao réu. “Eu espero pelo perdão judicial e que ele seja absolvido da conduta pela qual ele tomou. Roberto já foi perdoado pela família, que faz questão que ele seja absolvido. Esse é peso que ele vai carregar pelo resto da vida”, disse seu advogado.

O júri popular de Rio Claro (SP) absolveu Roberto Rodrigues de Oliveira. Seu defensor, Edmundo Canavezzi, disse que já esperava pela sentença favorável. “Roberto foi perdoado pela família e esse peso ele vai carregar pelo resto da vida. Os jurados acolheram a minha tese de que não se poderia esperar dele outra atitude senão àquela a qual ele adotou”, disse o defensor.[3]

O irmão assim se justificou:  “Eu nunca pensaria em tirar a vida do meu irmão, mas ele pediu muito, era muito infeliz. Ele afetou o meu psicológico e eu acabei fazendo a vontade dele. Isso ainda me deixa abalado, por isso não quero falar sobre isso. Quero tentar seguir.” http://g1.globo.com/sp/sao-carlos-regiao/noticia/2015/10/juri-absolve-homem-que-matou-irmao-tetraplegico-tiros-pedido-da-vitima-rio-claro.html

E, como podemos entender isto do ponto de vista jurídico? Afinal o homicídio, ou o suicídio assistido, mesmo piedoso, e sendo feito à pedido da vítima não é reconhecido pela lei brasileira, não havendo margem, para do ponto de vista jurídico, para se absolver quem o pratica.

Certamente o júri entendeu várias das considerações feitas pela defesa, como a de que se tratava de um homem trabalhador, que convivia harmoniosamente na Sociedade local. Com certeza, se tratava de uma situação difícil, afinal, como cuidar de alguém tão próximo, que dizia não mais ter interesse pela vida?  Como aguentar as súplicas de alguém que dizia querer se matar, mas que sequer podia fazer algo para isto? O que fazer com este irmão, condená-lo a uma longa pena de prisão seria o veredito mais justo?  Ele já não teria sofrido o suficiente?

Foi o que entenderam os jurados, e decidiram pela absolvição, ou seja, que o irmão não deveria ser punido pelo homicídio, mas o júri pode julgar contrariamente à lei? Sim, aqui vai um detalhe curioso e interessante do sistema legal brasileiro!  O Júri é o único Tribunal Brasileiro autorizado a julgar como lhe parecer mais justo, ainda que isto contrarie a Lei.

A Constituição Federal em seu Artigo 5º, inciso XXXVIII afirma que é reconhecida a instituição do júri,  com a organização que lhe der a lei, assegurados:

a) a plenitude de defesa;

b) o sigilo das votações;

c) a soberania dos veredictos ;

d) a competência para o julgamento dos crimes dolosos contra a vida;

Assim, são inerentes à idéia do júri deque seja constituído mediante a representação popular, aberta a todos os cidadãos idôneos, independentemente de seu grau de instrução ou riqueza, a serem escolhidos mediante sorteio.

E os jurados “decidem pela sua íntima convicção, servindo as provas legais não de normas de agir, mas de meio de convencer (…); decidem de fato e não de direito, pois o juízo do povo, tendo-se em vista apenas a integridade de caráter e critério, só deve conhecer de questões para as quais bastem tais qualidades. Para os problemas de direito a lei põe, a seu lado, o juiz togado” (F. Whitaker, “Júri”, 1923, p. 9/10), ou seja, os jurados julgam pela visão social que a sociedade tem do crime, e pela emoção ou, na síntese do meu falecido amigo Paulo José da Costa, em sua biografia: “o júri é um tribunal do coração” (Defesas que fiz no júri p. 62).

Consequentemente, o Juiz de Direito apenas orienta os jurados para as implicações de seus votos, pois no júri, o Juiz não julga, mas apenas “traduz” para a linguagem jurídica as atenuantes, agravantes e exclusões decididos pelos jurados, cabendo-lhe também a redação da sentença e a direção dos atos do julgamento.

Assim, a decisão surge mediante a simples resposta dos jurados nos quesitos preparados pelo juiz. Deste modo, ao contrário da sentença judicial, tais respostas não necessitam ser motivadas, bastando o simples “sim” ou “não”.

Deste modo com base no princípio da soberania dos veredictos previsto na Constituição Federal, “O Juiz, ao proferir a sentença de pronúncia, deve limitar-se única e exclusivamente  a apontar indícios e provas do crime e de sua autoria, deixando a cargo do Tribunal do Júri o exame aprofundado da matéria, pois tratando-se de crimes dolosos contra a vida, a incursão sobre o mérito da causa importa em indevida invasão de competência que a Constituição reservou ao julgador leigo (TJ-SP julgado publicado na  Revista dos Tribunais 753/580). Sendo que há julgados que reconhecem  que podem os jurados, “precisamente pela ausência institucional de fundamentação, decidir mais com apoio na ética social do que propriamente no direito estrito” (TJ-SP julgado publicado na  Revista dos Tribunais 669/299).

Deste modo, perante o sistema legal, a decisão é perfeitamente aceitável, e podem os jurados julgarem contrariamente à lei, com base na sua consciência, entenderem que o réu não mereça ir para a prisão, em face das circunstâncias do caso concreto.

Acredito que este é um caso interessante, que deve merecer reflexão, e que devemos pensar qual o grau de pena que é cabível no caso do homicídio piedoso, ou seja daquele que é feito por razões humanitárias,  a pedido daquele que está sofrendo, mas não tem condições de executar a sua própria morte, seja devido a uma limitação física decorrente da tetraplegia, seja devido a uma condição de terminalidade.

CBio21-Dois Anos do Programa Mais Médicos

RAJ

 DR. RENATO AZEVEDO JÚNIOR
Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo
Diretor primeiro-secretário e ex- Presidente

 

Ao celebrar dois anos do Programa Mais Médicos, a Presidente Dilma Roussef se vangloriou da iniciativa. Disse que, ao aproximar o Brasil de Cuba, melhorou a saúde dos brasileiros.
Até hoje médicos que se formaram no exterior, cubanos ou não, estão fora da norma utilizada no Brasil e no mundo, de revalidação dos diplomas de alguma forma. Não há nenhuma avaliação da qualidade e competência destes médicos. Portanto, os brasileiros são atendidos pelos mesmos em esquema de roleta russa: podem até achar alguém capacitado, contudo, sempre há o risco de cair em mãos incapazes, o que significa perigo de morte, quando o tema é saúde.
O contrato entre Brasil e Cuba para fornecimento de médicos é obscuro, quase secreto. É feito por meio da Organização Pan Americana da Saúde (OPAS) ou por uma empresa cubana de intermediação de mão-de-obra? Por que é que estes médicos recebem menos do que os outros, tendo retido 75% dos seus ganhos pelo governo cubano? Por que as restrições contratuais impostas a estes médicos, tais como impedir sua mobilidade no Brasil, mantê-los sob vigilância, reter sua família em Cuba, proibir relações amorosas com brasileiros, ao arrepio das leis e da Constituição brasileiras? Por que o não cumprimento das leis trabalhistas brasileiras?

O termo “intercambista” foi criado pela própria Lei dos Mais Médicos a fim de burlar as leis trabalhistas. Como intercambistas eles são médicos “em programa de aperfeiçoamento” (conforme o texto da Lei) e, portanto, recebem “bolsa de estudos” e não salários. Como tal, deveriam contar com a presença de tutores e supervisores, o que não ocorre em inúmeros locais e nem mesmo se sabe se tais tutores e supervisores existem.
Se for verdade que todos os municípios do Brasil hoje possuem médicos (número não verificável e duvidoso), é mais verdade ainda que municípios permanecem sem condições de trabalho adequadas, sem outros profissionais de saúde, sem mecanismos de referência e contra-referência hospitalares e laboratoriais e outras precariedades. Ou seja, os problemas da Saúde Pública brasileira continuam os mesmos.
A afirmação que o programa atende 63 milhões de pessoas, repetido à exaustão pelo Governo Federal como forma de propaganda, está sujeita a uma verificação isenta e independente, até pelo tamanho absurdo do número apresentado.
O anúncio da criação de novas vagas de Residência Médica esconde que a maioria será para o programa Saúde da Família e que, nas outras especialidades, o médico residente terá de cumprir, obrigatoriamente, 1 a 2 anos no programa. Fatalmente haverá impacto negativo na formação de especialistas no País.
O Programa Mais Especialidades ainda é uma incógnita, pois até o momento, mesmo questionado, o Ministério da Saúde não explicitou nem detalhou o que será este programa.
Persiste a marcha da insensatez da abertura desenfreada de novas escolas de Medicina no Brasil, sem nenhuma garantia de qualidade.
Em nenhum momento a Presidente se referiu ao subfinanciamento do SUS por parte do Governo Federal e muito menos aos recentes cortes orçamentários que penalizaram ainda mais a Saúde Pública brasileira, este sim o principal problema do SUS.
Aumentar o financiamento do SUS por parte do Governo Federal, com 10% da Receita Bruta da União exclusivo para o Sistema, com reorganização da gestão, principalmente dos Recursos Humanos, criar a Carreira de Estado para os médicos, fornecendo condições de trabalho para uma assistência médica de qualidade deveriam ser propostas para solução efetiva.
O resto, credite-se à demagogia.

CBio20-Transgênicos: o risco percebido e o risco real

Paulo-pequeno

 

PROF. DR. PAULO PAES DE ANDRADE

Universidade Federal de Pernambuco

 

Quando, numa roda de conhecidos, perguntamos a opinião de qualquer um sobre os transgênicos, a resposta é sempre inesperada: dependendo da formação acadêmica, politização, uso das redes sociais e muitos outros fatores, o cidadão vai ter uma resposta muito diferente. De fato, não há unanimidade entre os brasileiros.

A discussão sobre os transgênicos nunca decolou seriamente no país. Hoje ela está polarizada entre os que se opõem veementemente e os que concordam com a adoção da biotecnologia agrícola. O foco exclusivo nas plantas transgênicas mostra o primeiro elemento que forma (e deforma) a opinião de cada um sobre a questão: o medo instintivo que temos de novidades quando se trata de comida. É evidente que a biotecnologia permeia nossa vida, desde a insulina até enzimas para sabão em pó, tudo proveniente da biotecnologia e ninguém questiona. Mas quando se trata de milho ou soja (e, em breve, feijão), quase todos têm uma opinião a dar.

A percepção da segurança dos transgênicos como alimentos deriva, portanto, do nosso receio de novidades alimentares, mas também das informações que recolhemos da mídia, de nossos grupos sociais e, claro do alinhamento que temos com nossos like-minded (ou nossos parceiros de opinião). Somos “bichos sociais” e nossa opinião é muito mais a opinião do grupo a que pertencemos ou queremos pertencer do que a nossa, derivada da indispensável meditação e de aprofundamento no tema. Continue lendo

CBio18-O vigor da Bioética parceira da Deontologia Médica

Dr. Carlos Alberto Pereira Rosa

Dr. CARLOS ALBERTO PESSOA ROSA

 

Eu atendi um paciente jovem, 28 anos, saudável, com pneumonia lobar, adquirida na comunidade e sem complicações. Ao orientá-lo quanto à necessidade de prescrever antibiótico, ele me interrompeu  e disse que estava no consultório a pedido de seu médico, homeopata, de São Paulo, que lhe solicitara passar em consulta comigo, por confiar em meu diagnóstico, para depois medicá-lo, evitando, assim, sua saída da cidade.

Quais opções eu teria para resposta ao solicitado?

1.      Poderia não aceitar a situação. O enfermo não apresentava risco iminente de morte, poderia muito bem deslocar-se para São Paulo e passar em consulta com o colega levando o estudo radiológico;

2.      Poderia aceitar a situação parcialmente. Enviaria um relatório ao colega quanto ao diagnóstico, sem mais comprometimento;

3.      Poderia aceitar a situação, aviar o tratamento alopático e marcar retorno para o enfermo, independentemente de ele seguir ou não o prescrito;

4.      Poderia aceitar a situação, entrar em contato com o colega e acompanhar a evolução, informando-o da condição de seu paciente, caso assim optasse. Continue lendo

CBio17-Câncer: melhor maneira de morrer?

 

jcnDra. JANICE CARON NAZARETH

O médico Richard Smith, ex-editor do British Journal of Medicine, criou certo alvoroço na Inglaterra ao afirmar, em janeiro de 2015, que o câncer é a opção mais digna de morte. Segundo ele: “…A morte por câncer é a melhor. Você pode dizer adeus, refletir sobre sua vida, deixar últimas mensagens, talvez visitar lugares especiais pela última vez, ouvir suas músicas favoritas, ler poemas queridos, e preparar, de acordo com suas crenças, o encontro com seu criador, ou desfrutar esquecimento eterno…”.

 Oliver Sacks, escritor e neurologista, em artigo recente no NY Times, avisou  a todos que deverá morrer em breve, por câncer no fígado: “… Não posso negar que estou com medo. Mas meu sentimento predominante é de gratidão. Eu amei e fui amado; doei muito e retribuí; li e viajei e refleti e escrevi. Eu tive uma boa relação com o mundo, a relação especial de escritores e leitores. Acima de tudo, eu fui uma criatura sensível, um  animal  pensante neste planeta maravilhoso, e isso já é um enorme privilégio e aventura…”

 Recentemente, perdemos o Dr. Wagner Felipe de Souza Weidebach (Waguito)- 1961-2015-, reumatologista e intensivista, colega fantástico, que trabalhou muitos anos nos hospitais Sírio Libanês e Oswaldo Cruz. Ele fora operado de câncer de intestino há 5 anos, com metástases há 3 anos, período em  que se submeteu a vários tratamentos com má resposta e progressão inexorável da doença, com várias internações, inclusive em UTI, decidindo, junto de seu oncologista, por tratamento paliativo.

Waguito foi fiel ao que conversávamos quando muito mais jovens e totalmente saudáveis: trabalhou até 15 dias antes da morte, quando fechou seu consultório e se despediu da secretária, colegas, pacientes, tomou as medidas administrativas necessárias, optando por ficar em casa enquanto possível,  visitado por seu oncologista e amigo regularmente.

Após esse período, já com dor e falta de ar insuportáveis, internou-se para a sedação final, não sem antes rever seus momentos de amor com a família e de dar orientações preciosas aos jovens filhos, e, até, de enviar, como de costume fazia desde os tempos de namoro, rosas vermelhas à sua esposa.

À missa de sétimo dia, com igreja repleta, a família falou sobre sua experiência privilegiada. Disse um colega: “…Nunca se queixava, apesar das dores constantes, de  seus males e suas possibilidades, e falava naturalmente sobre as condutas a serem tomadas. Um grande ensinamento para todos a sua volta…”

É fácil entender o alvoroço em torno da “melhor morte por câncer”, em uma sociedade que privilegia o belo artificial, o conforto e a matéria, na qual o contato humano, principalmente espiritual, é deixado para planos secundários, estimulando, como primeiro plano, convívios supérfluos e sensações de falso prazer, muito distantes daquelas que o desenvolvimento espiritual proporciona, uma sociedade onde o chorar e o sentir dor passaram não só a serem  amenizados, mas totalmente impossíveis de serem tolerados.

Se perguntasse a meus amigos e pacientes sobre a maneira como gostariam de morrer, todos diriam que subitamente e, de preferência, dormindo, e confesso que também compartilhava dessa opinião, pois a achava fácil, tranquila, sem sofrimento e uma verdadeira bênção para quem se vai.

Hoje, porém, após participar de várias experiências com pacientes e amigos em fim de vida, não só em câncer, mas outras doenças que preservam a mente, pude ver essa realidade, colocada em artigos pelos colegas Smith e Sacks, e em atitude pelo colega Waguito: precioso esse tempo de rever sua vida, de se reconciliar com pessoas e situações antes não solucionadas, de ensinar àqueles que ficam a dignidade da aceitação do inevitável, de poder se despedir e  agradecer pelas coisas boas por que passou.

Difícil, sim, mas de uma riqueza sem par!