151- Agradando o paciente, desagradando a Ética. Em três atos.

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Médico tem sentimentos. Médico tem compromisso com a Ética. Sentimentos são pessoais. Ética é profissional e apresenta mudanças periódicas.

Eu, por exemplo, estou na obediência à quarta versão  do Código de Ética Médica desde a formatura (1967-1984, 1984-1988, 1988-2009, 2009-…). Já a disposição para sentir a relação médico-paciente persiste inalterada.

Há uns bons anos, o InCor conta com uma Oficina de Bioética. Um dos métodos é o Teatro. Jovens profissionais da saúde e funcionários representam circunstâncias de conflito sem script pré-definido, apenas com a definição da situação em que o médico é “bombardeado” por questionamentos e por insatisfações. Um pedagógico interativo com a platéia acontece após os 15 minutos de atuação.

O objetivo é que os partícipes criem um estado intrapessoal e interpessoal que contribua para a melhor compreensão dos fatores intervenientes em  conflitos da beira do leito e para o  precioso desenvolvimento da comunicação dialógica com fundamentação na Bioética.

Os 3 atos abaixo têm a finalidade de ilustrar a inter-relação social, ética e legal que orbita no poder da caneta e do carimbo do médico e seus desdobramentos.

 Ato 1

Cenário: Corredor do hospital

    Personagens: Paciente e médico

– Doutor, eu sou o José Manoel, primo do Antonio da Internação. É que eu faltei ao serviço e me disseram que se eu levar um atestado médico, eles abonam a falta… É uma caridade doutor, as crianças, são quatro, uma escadinha, precisam comer e, ultimante, está tudo tão difícil… O patrão não entende… O Antonio disse que o senhor era uma pessoa muito boa.

–  Ele disse…

– E também que ele tinha certeza que o senhor iria me ajudar e a minha família, que iria fazer esta caridade.

-Ah!…Qual foi o dia, José Manoel?

– É… na verdade, doutor, foram 5 dias… passei muito mal… o senhor sabe como é, o senhor estudou. 

O médico entra no Consultório, o paciente fica em pé na porta olhando para dentro.

– Aqui está o atestado, pus que foi  uma forte gripe, mas só desta vez, se quiser outro atestado, venha aqui enquanto estiver doente, para examiná-lo.

– Não sei como lhe agradecer, doutor, que os seus pacientes tenham muita saúde.

-É, José Manoel, você não está sabendo mesmo… Muita saúde…

-O que foi doutor?

Nada, nada. Passe bem… Para não precisar de atestado.

 

Médico entra no consultório com os holofotes apagando lentamente

Não se percebe o pano fechando depois Continue lendo

150- Quebra-cabeça na Saúde. Encaixes não admitem band-aids

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O quebra-cabeça do panorama atual da Política de Saúde brasileira é daqueles de caixa enorme com centenas de peças. As Representações Médicas esforçam-se para colaborar nos encaixes.

Os brasileiros estão lendo e ouvindo, ultimamente, posicionamentos de divergência a respeito da educação médica, exercício profissional e financiamento da Saúde.

O denominador comum da preocupação de entidades médicas nacionais é a qualidade dos cuidados com a saúde de mais de 200 milhões de pessoas distribuídas por mais de 8,5 milhões de Km² e sujeitas a distintas regionalidades da relação recurso humano-recurso material-população.

É sabido que iluminar a aparência e sombrear o por dentro  alerta para possibilidade de Mais resultar menos.

Mais médicos, Mais especialistas, Mais Faculdades de Medicina, Mais imposto emitem mensagem de (+) quantidade em meio a um vale de lágrimas que ecoa (-) qualidade ao se refletir em montanhas de realidades da Saúde.

O quebra-cabeça é verde-amarelo. Ocupar-se dele inclui viva memória histórica sobre brasilidades. Dois séculos já se passaram desde o marco histórico da criação da primeira Faculdade de Medicina na Bahia. Já o Ministério da Saúde nasceu em 1930 sob a denominação de  Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública. Foi em 1957  que a Lei 3268 criou o Conselho Federal e os Conselhos Regionais de Medicina, os órgãos supervisores da ética profissional em toda a República e ao mesmo tempo, julgadores e disciplinadores da classe médica, cabendo-lhes zelar e trabalhar por todos os meios ao seu alcance, pelo perfeito desempenho ético da medicina e pelo prestígio e bom conceito da profissão e dos que a exerçam legalmente. Vinte anos após, o Decreto  80281 da Presidência da República  oficializou a Residência em Medicina no Brasil como modalidade do ensino de pós-graduação destinada a médicos, sob a forma de curso de especialização, caracterizada por treinamento em serviço, em regime de dedicação exclusiva, funcionando em Instituições de saúde, universitárias ou não, sob a orientação de profissionais médicos de elevada qualificação ética e profissional. O artigo 196 da Constituição brasileira de 1988 reza que Saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação.

É sabido que iluminar a aparência e sombrear o por dentro traz a possibilidade de Mais (número) significar menos (aptidão). Mais médicos, Mais especialistas, Mais Faculdades de Medicina, Mais imposto emitem mensagem de (+) quantidade em meio a um vale de lágrimas que tem ecoado (-) qualidade, após ser refletida nas montanhas de realidades conhecidas, amplamente comentadas. Qualquer hiperativismo criativo é passível de comprometer a boa relação risco-benefício da inovação. Ele exige Mais Mais ângulos de discussão, Mais Mais comunicação sobre entrelinhas, Mais Mais conexões com o mundo real. Afinal, Pensar não paga imposto – ou este dito popular sucumbe à recessão?

Quando alguém declara que Medicina é coisa séria, como tantas outras áreas do saber, ninguém discorda. Não há Medicina sem médico, então, ser médico é coisa séria. Não há Medicina com médico sem outras categorias profissionais, então a presença de outras categorias profissionais é coisa séria. Não há Medicina com recursos humanos adequados sem infraestrutura, então infra-estrutura é coisa séria. Não há Medicina sem financiamento, então financiamento é coisa séria.

É na Residência Médica onde o recém-médico, tendo invariavelmente no bolso os 3 C –  caneta, carimbo e celular-  começa a ganhar a exata dimensão da seriedade de que uma só andorinha séria não faz verão sério. É a atuação movimentada e supervisionada que clarifica para o Residente de Medicina a métrica do distanciamento entre estar de posse de um número de CRM e realizar-se médico como gostaria de ser.

Da beira do leito, por exemplo, conjunturas relevantes reverberadas sobre a tríade planejar-comunicar-acompanhar incluem:

a) Não faltam becos, ruelas escuras e labirintos no caminho entre o livro de Medicina e o paciente de carne e osso.

Tysonb) Olho clínico tradicional e olho tecnológico moderno precisam convergir para um ultramoderno olho ciclópico do médico.

c) Diretrizes e protocolos de atendimento são bússolas, nunca algemas. Inexiste duplicidade de impressão digital. Continue lendo

149- Bioética. Reflexões sem contra-indicação e sem adversidade

Felicidade é ter o que fazer. Este pensamento é atribuído a Aristóteles (384 ac-322 ac).

Médicos – e profissionais da saúde de modo geral- têm muito o que fazer, sempre. Se se sentem profissionalmente felizes, cada um deve responder.

O que posso afirmar é que a Bioética contribui para o bem-estar profissional, sem nenhuma pretensão de  encaminhamento a qualquer expressão do Nirvana.

Pois o médico sem a Bioética é capenga. Já a Bioética sem o médico é cega.  A Medicina sem a Bioética é surda. Já a Bioética sem Medicina é sem paladar.

Médico e paciente caminham juntos e enxergam-se corretamente quando atos e palavras mostram-se correspondentes. Medicina e Bioética ouvem-se e se degustam corretamente quando conceitos e princípios mostram-se correspondentes.

Errar a mão e ignorar a prática do consentimento são pecados maiores da beira do leito. As placas de advertência são nítidas: Cautela e Humildade.

Cautela para puxar o arco, mas não soltar a flecha. Uma prudência ligada ao Princípio da Autonomia e balizada pelo consentimento livre e esclarecido.

Humildade para reconhecer que Herrar é Umano. Que existe o mau dia da decisão imprudente ou da realização negligente. Que danos requerem reparações, tanto no sentido da reversão dos mesmos, quanto no de ressarcimentos. E que a mesma beira do leito onde o erro profissional acontece é a mais  pedagógica sala de aula para a reciclagem no sentido do acerto. Lembremos Confúcio (551ac-479ac): “… Podemos lamentar que a rosa tem espinhos, mas podemos nos alegrar porque o espinho tem rosas…”

Errado é não aprender com os próprios erros. Certo é aprender com os próprios erros. Certíssimo é aprender  com os erros dos outros.

Pentágono

Pentágono dos cuidados com a saúde

A Bioética da Beira do leito entende que as boas práticas dependem da mais harmoniosa integração do Pentágono dos cuidados com a saúde (Quadro). Facilita corrigir antes do equívoco concretizado. Faculta reparar ainda no “rascunho mental”.

Vale lembrar que assim como a Natureza tem as gigantescas diversidades da Floresta, do Deserto e dos Polos Gelados, todos com formas de vida, a beira do leito também é plural. Há o paciente sonho de livro, há o paciente hipocondríaco. Há o médico super pós-graduado, há o médico recém-graduado numa Escola com infra-estrutura de papel. Há a Medicina das Evidências, há a Medicina do Achismo. Há a Instituição de Saúde referência, há a Instituição de Saúde ambivalência. Há o Sistema de saúde focado na universalidade, há o Sistema de Saúde focado na mensalidade.

As combinações sustentam o seguinte Penta decálogo sobre a concepção que a arte de viver passa pela ciência médica:

  1. Ciência tem evidências. Ética tem justificativas coerentes.
  2. Ser médico só pode ser compreendido olhando para trás, mas só pode acontecer olhando para a frente.
  3. A beira do leito revalida constantemente o diploma do médico.
  4. O bom médico já começa a tratar o paciente quando presta atenção na anamnese.
  5. Se o exame de imagem está atrapalhando, experimente fazer o exame físico.
  6. Uma sempre certeza arrisca-se ao erro. Sempre.
  7. O médico que bem ensina, ensina o aluno a duvidar do que está aprendendo.
  8. Quebre o segredo da doença do paciente, nunca quebre o sigilo profissional sobre o paciente.
  9. Direcione o foco da atenção para o bem do paciente, desfoque dos bens do paciente.
  10. Saber discorrer 3 minutos sobre um tema não significa sentir-se conhecedor a ponto de sustentar prescrições.
  11. Um exagerado foco em estatística pode não combinar com a individualidade do caso.
  12. Um predomínio da gestão hospitalar pode resultar em carência de leitos para gravidades.
  13. Paciente mal intencionado faz de cada solução um problema ético.
  14. Todo paciente deseja ter o médico ao seu lado, mas nem todo paciente deseja estar ao lado do médico.
  15. Há familiar que pretende o paciente um boneco de ventríloquo para se expressar com viés manipulador.

Seja feliz!

 

148-É fácil…Difícil será… Você deve conhecer muitas composições

378-facil-dificilDireções opostas. Hoje a emoção de uma promessa. Amanhã a realidade  do descumprimento.avestruz1

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Garfield

Sentidos de culatra. Hoje a acomodação, a fuga do ideal, a palavra impensada. Amanhã a chegada dolorosa do que não se evitou, do que não se quis enxergar.

Médicos acumulam experiências a respeito de dissociações temporais do aqui agora. Conhecem   comportamentos de paciente que se enquadram na lição: faça o que eu digo hoje, não o que eu farei amanhã, com adendos sobre forças maiores que levam ao esforço menor.

Em questões de Prevenção na Saúde, há a gôndola do tabaco, há a gôndola do alimento pró-placa aterosclerótica, há a gôndola do sedentarismo, há a gôndola dos alertas científicos  sobre maus hábitos. A motivação para selecionar o que se colocará no carrinho do bem-estar é influenciada pela disposição de momento e pela preocupação com o futuro, ora harmoniosas, ora dicotômicas.

A Bioética da Beira do leito valoriza o impacto dos embates entre desejo humano e razão científica e incorpora a noção da instabilidade de movimentos e de contramovimentos sob influência do estado afetivo. Como cardiologista testemunhei uma série de situações onde eventos graves não se tornaram chaves eliminadoras das algemas do tabaco, do alimento pró-placa aterosclerótica, do sedentarismo, evidenciando que a simplicidade da recomendação transformadora do médico colide com a complexidade de padrões de comportamento do paciente.

Em questões de Terapêutica, a Bioética da Beira do leito insere o reconhecimento dos costumes magnetizados pelo imediatismo e repelentes do melhor prognóstico, que participam das tomadas de decisão. Não faltam cenários onde a preferência por simplificação de conduta apega-se fortemente ao velho conceito osleriano (William Bart Osler-1849-1919) da Medicina como ciência da incerteza e arte da probabilidade. A individualidade de preferências está contemplada pela predisposição da Bioética de evitar aposições de qualquer rótulo indelével de CERTO ou de ERRADO  https://bioamigo.com.br/?p=4798.

Há muitos exemplos da contraposição  É fácil… Difícil Será… Relaciono abaixo 10 delas, representantes do descompasso entre presente e futuro, que se ajusta ao conceito de acrasia –disposição débil do caráter que prejudica que um desejo fundamentado na razão sobre um benefício movimente-se para a vontade da realização. https://bioamigo.com.br/?p=3347

  1. É fácil privilegiar o prazer de uma tragada de cigarro. Difícil será  tragar os desprazeres das consequências  da queima da saúde.
  2. É fácil prometer o cumprimento regular de atividade física. Difícil será bloquear a “sabotagem” dos dias: a do escaldante hoje, a do rigoroso inverno amanhã e a do insone de ontem.
  3. É fácil criticar o médico pelo insucesso do tratamento. Difícil será admitir a própria displicência com as recomendações.
  4. É fácil achar um clone do Dr. Google que explique o sintoma de melhor agrado pela negação de importância. Difícil será frustar-se com o diagnóstico realista do médico.
  5. É fácil decidir, enquanto sadio, que irá preferir não ser intubado ou levado para uma UTI. Difícil será manter mesmo pensamento  padecendo do sofrimento antes apenas imaginado.
  6. É fácil ler a bula para bem saber o que estará tomando. Difícil será fazer o uso depois do pânico pela possibilidade de adversidade que soa atemorizante.
  7. É fácil solicitar ao médico que antecipe a alta hospitalar. Difícil será ver-se rapidamente de volta pela má evolução associada à alta precoce.
  8. É fácil desmarcar uma consulta médica com hora marcada. Difícil será enfrentar minutos de fila no PS procurado pouco tempo depois pelo agravamento do sintoma.
  9. É fácil pressionar o médico para que solicite uma série de exames sem nenhuma indicação clínica. Difícil será conviver com as incertezas de certos achados subclínicos.
  10. É fácil convencer o médico a prescrever um tranquilizante para dormir. Difícil será acordar para certas realidades incômodas causadoras da insônia.

A Bioética da Beira do leito enfatiza que juízos sobre o vínculo interpessoal entre médico e paciente não devem ignorar o determinante intrapessoal de decisões anti-saúde do paciente do qual ele não pode se eximir de responsabilidades. Por outro lado, a Bioética da Beira do leito dispõe-se à permanente reflexão a respeito de amparos éticos em prol, não somente da efetiva disposição da sociedade para a prática das orientações para benefício à saúde validadas pela técnico-ciência da Medicina, como também do alívio do peso destruidor da fraqueza da natureza humana sobre o empenho pretendido. 

147- Doutor, “ouça” a minha linguagem corporal

ABAAABqrQAC-7macqO colega me contava que estava aprendendo como o corpo fala. O filho de 6 anos, de mãos dadas e atento, levantou a cabeça, encarou-o e complementou com a naturalidade da criança: “… É só abrir a boca, papai”.

Serão precisos alguns anos para que o jovem entenda o valor da comunicação extra-verbal. Se ele se tornar médico, então, terá lições diárias transformadas em instrumento de trabalho. A Bioética da Beira do leito reconhece a utilidade e a eficácia da expertise em interpretação de mensagens “caladas”. Elas são emitidas pelo paciente, habitualmente, de modo não conscientizado. Não é incomum certa dissociação entre o afirmativo/negativo da palavra vocalizada e o que gestos refletem.

A mesa que separa médico e paciente marca território. Atendimentos ambulatoriais costumam entremear-se de movimentos posturais de “invasão”. Eles expressam intenções de adesão-conciliabilidade ou de violação-hostilidade. Dão circulação à atmosfera humana que envolve o face a face.

O antropólogo estadunidense Edward Twitchell Hall Jr (1914-2009) estabeleceu 4 zonas de relacionamento humano (quadro). Um ato médico utiliza mais comumente o íntimo – exame físico, por exemplo- e o pessoal – anamnese, por exemplo. http://www.csiss.org/classics/content/13reguaProxemica
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HM20- O passado de fontes não médicas da Medicina (Parte II)

A parte I https://bioamigo.com.br/?p=4884 deixou evidente o desequilíbrio entre a baixa disponibilidade pelo médico e o alto crédito da sociedade a respeito da eficiência dos recursos para cuidar do doente ao longo de  séculos. A autoridade de médico estava muito mais centrada na sua atitude presencial de acolhimento ao paciente do que nos instrumentos técnicos para influenciar expressivamente a história natural das moléstias.

Nesta segunda parte, apresentamos algumas curiosidades sobre o desenvolvimento de benefícios terapêuticos a partir do acaso, do inconformismo com uma declaração de mau prognóstico e da simbiose de um povo com bens naturais. Continue lendo

HM19- O passado de fontes não médicas da Medicina (Parte I)

Acostumamo-nos a associar perspectivas de progresso da Medicina a médicos e cientistas. Uma atividade reformuladora exigente de evidências científicas. Pois, observações do cotidiano permanecem em questão enquanto pesquisas bem planejadas e eticamente realizadas não dão respostas confiáveis a respeito de benefícios e de malefícios. A inexistência da validação levanta hipóteses da prática de imprudência em tomadas de decisão.

É notório que a formatação do raciocínio clínico na beira do leito está apoiada atualmente numa plataforma globalizada da Medicina com credibilidade construída com fundamentos da Medicina Baseada em Evidências e da Medicina Translacional e, claro, fortemente moldada pelas Diretrizes expedidas por Sociedades de especialidade.

É assim que acontece há algumas décadas. O que é classificado como útil e eficaz compõe matéria prima qualificada pela eticidade das boas práticas na beira do leito.

Quem recém embarca no comboio da Medicina com destino ao sucesso costuma achar que os veículos sempre foram desta maneira. Como não foram, vale recuar no tempo e repercutir palavras do século XIX. Elas dão nitidez à paulatina transformação ocorrida a respeito da incorporação de inovações em Medicina. O texto abaixo foi escrito em 1883 por Oliver Wendell Holmes (1809-1894), o médico da Harvard Medical School que atingiu o posto de Reitor, identificou a causa da Febre puerperal e introduziu o microscópio na educação médica. A fonte de consulta foi o livro Medicine and Man (Signet Science Library Books, 1958), escrito por Lord Peter Ritchie Calder (1906-1982), especialista em temas científicos que foi representante do Reino Unido na UNESCO. Continue lendo

146- Bioética útil para leigos

Neste momento onde Ética é palavra de ordem no Brasil, você que é leigo em Medicina e se interessa por assuntos médicos, saiba: A Bioética tem alto valor para a cidadania de modo geral e de modo particular para ajudá-lo a se posicionar frente ao profissional da saúde e tomar decisões sobre o próprio bem-estar, inclusive, para orientar familiares e amigos.

Em poucas palavras, a Bioética trabalha para conciliar os deveres dos profissionais de saúde- médico, enfermeiro, fisioterapeuta, farmacêutico, psicólogo e demais- com o modo pelo qual você quer viver a sua vida, especialmente frente aos desejos de se manter saudável e de se recuperar de uma doença. A Bioética preocupa-se com a correta combinação de autoridade e de liberdade. Continue lendo

145-O médico não credenciado e a catraca do hospital

O Código de Ética Médica vigente estabelece um decálogo de Direitos do médico.

Destaco o artigo VI- É direito do médico internar e assistir seus pacientes em hospitais privados e públicos com caráter filantrópico ou não, ainda que não faça parte do seu corpo clínico, respeitadas as normas técnicas aprovadas pelo Conselho Regional de Medicina da pertinente jurisdição.

Confesso que não testemunhei nenhum caso de um paciente internado em nome e assistido por colega fora do universo de funcionário do Hospital das Clínicas/Faculdade de Medicina da USP, ao longo de 45 anos. Pesquisarei melhor e voltarei a este tópico específico.

O que desejo compartilhar com o bioamigo é a experiência recente que tive em 2 hospitais. Em ambos, o paciente estava internado em nome de outro colega – que me autorizou por telefone a participar do atendimento-, de modo que o comentário refere-se  ao ritual de passar peal catraca de entrada. Porque depois, é a nossa consciência profissional que consente com o percurso, obviamente, sacramentada pela aposição do carimbo…

Hospital A- Dirigi-me à Recepção, identifiquei-me com a Carteira de médico e fui assim registrado. Não  me perguntaram de qual paciente iria cuidar. Recebi um crachá de médico visitante com o qual pude transpor a catraca. Nos demais 5 dias, chegava na recepção, informava o número do CRM e rapidamente recebia o crachá  respeitador do direito VI do médico.

Hospital B- Dia 1: Cheguei pela Portaria ligada ao estacionamento. Dirigi-me à recepção  e mostrei a Carteira de médico. O recepcionista chamou por telefone alguém da administração que me indagou se eu iria  manipular prontuário. Ante a resposta positiva, solicitou-me preencher um formulário com dados pessoais e profissionais, providenciou um xerox da Carteira de médico e, enfim, autorizou-me a receber o crachá “abre-te sésamo” da catraca e da presença no posto de enfermagem, quarto do paciente, etc…

Até aqui, verifica-se o cuidado desejável de ambas as Diretorias Clínicas, com diferenças aceitáveis. Por enquanto… Evidentemente, os abusos determinam salvaguardas ao uso. Todos nós sabemos que o exercício ilegal da Medicina ronda hospitais.

O que representou excessivo e até de certa forma constrangedor foi o que aconteceu nos dias 2 a 4 do Hospital B. No dia 2, eu cheguei por outra recepção, informei o  número de CRM e adiantei que já fora “qualificado” no dia anterior.  A resposta foi incisiva: “… O senhor precisa se dirigir ao Receptivo médico, uma sala a 30 metros dali …”. Fui. Fiquei sabendo que aquele formulário de ontem dá validade por 24 horas. Respondi que este período ainda não se completara no relógio. “Consertou-se” para cada dia. Eu preenchi, então, o mesmo formulário novamente, após o que o atendente teclou bastante e disse que precisava também do nome do paciente. Uma vez terminado o registro, que eu voltasse à recepção para pegar o crachá. Fiz os 30 metros de volta  e me apresentei novamente, após uma fila de 2 pessoas, apenas… O recepcionista disse-me que não recebera ainda a informação e, gentilmente, ligou para o Receptivo médico. Confirmado que eu falava a verdade, obtive o crachá. A passagem pela catraca aconteceu com um sentimento de competidor triunfante.

Pareceu-me mais rápido e eficiente cumprir do que discutir pontos de vista com quem obedecia ordens, ou mesmo entrar em contato com o Diretor Clínico, como fiz certa vez em que a Portaria do hospital insistia em não permitir a entrada sem o necessário credenciamento, dando vida ao sistema: “… O computador não me permite…”. “Já experiente”, nos dias 3 e 4, após repetir ipsis literis os caminhos dos dias anteriores – apresentar a Carteira de médico, preencher à mão o mesmo formulário, informar o nome do paciente-, eu acresci uma colaborativa prevenção ao retrabalho dos funcionários, solicitei no Receptivo médico que já informasse a nobre autorização à Recepção.

Como habitual, a promulgação de uma lei requer a sua regulamentação para ajustes necessários a sua prática.  Numa distância de poucos Km, contudo, o cumprimento de um direito do médico percebi que ele é realizado com peculiaridades locais. Enquanto pequenas, poderiam até estar dentro de uma lógica admissível. Mas a questão é: O que é que um Hospital  vai fazer com 4 papéis iguais referentes ao ingresso sequente de mesmo médico para mesmo paciente? Qual é o racional de um rito com validade diária? Não seriam suficientes o registro inicial e os complementos diários de tão-somente comparecimento, como faz o Hospital A?

Pela Ética, eu omiti nomes de hospital.  Bioamigos talvez passem por situações incompreensíveis análogas. Da minha parte, enviei um e.mail “colaborativo” para a Diretoria do Hospital B. É uma sugestão para a mais adequada conciliação entre o Direito do Médico e a utilidade da catraca hospitalar.

144-Lembre-se de não se esquecer da memória

brainA boa memória profissional é imprescindível  para atuação do médico. Desde tempos imemoriais!

Geração após geração, o médico usa e abusa da memória. Ele precisa confiar na própria para vários atos. A memória do paciente  qualifica a anamnese.

Todavia, atitudes de “máxima confiança” na memória são sempre passíveis de questionamento. A sociedade  convive com  a dúvida do credor sobre como se comportará a memória do devedor e com a situação curiosa do sentimento que, embora repetido, é auto-registrado como sua primeira vez.

Apreciações sobre o cotidiano dos médicos, quer em nível de gestão, quer em demanda ética e/ou legal, confirmam o risco de deslizes causados por cascas de banana jogadas no caminho pela memória. Assim erros cognitivos, eles resultam em evitáveis  insucessos diagnósticos e terapêuticos. Outro escorregão é o indevido uso da memória que revela sigilo profissional.

Há o paciente que conta o presente e o passado mórbido com a chamada memória de elefante. Há o paciente que pouco se recorda da sua história clínica. Há o paciente que, intencionalmente, torna a boa memória uma fonte de mentiras, pois só mente quem sabe a verdade. Há o paciente para quem a memória lhe é desleal no resgate dos fatos, ele não diz uma verdade mas não está mentindo, ou seja, está sendo sincero em relação ao que lhe vem à mente, embora equivocado.

Por sua vez, o médico coleciona várias modalidades de uso da memória, associadas ao conhecimento e às habilidades, sendo que especialidades valorizam certas peculiaridades.  Há a memória visual do facies e da inspeção dermatológica. Há a memória auditiva para ruídos cardíacos e pulmonares. Há a memória que permite a lembrança fácil de síndromes e de epônimos.

O médico precisa ter cuidado para não ser “traído pela memória”. Por isso, o visão de facilidade do prontuário do paciente e do vademecum (vem comigo) com suas roupagens na moda da época, atualmente, expressas no registro eletrônico e em aplicativo fácil à mão e aos olhos.

Não há dúvida que a continuidade do exercício profissional  à beira do leito influencia a qualidade da memória do médico. A repetição amiúde contribui para a excelência da transmissão da memória para a ponta dos dedos e para a ponta da língua. É imensurável o quanto o especialista costuma esquecer do que aprendeu desde estudante de Medicina no trajeto do aprofundamento seletivo que prioriza a sua “capacidade de gigabites” para armazenamento.

A lei 3268/57 que dispõe sobre os Conselhos de Medicina não  liga inscrição e especialidade. Em tese, médicos regulares no Conselho Regional podem praticar qualquer ato médico validado. Evidentemente, cada um deve ter a responsabilidade de saber seus limites da memória atualizada para praticar, inclusive a de reconhecer o que jamais a memória teve oportunidade de contato para fixação.

É notório o quanto vagos na memória profissional “minimamente necessária” determinados, quer pela má formação profissional, quer pela desatualização progressiva, são etiopatogenias da infração ao artigo capital do Código de Ética Médica vigente: É vedado ao médico causar dano ao paciente, por ação ou omissão, caracterizável como imperícia, imprudência ou negligência. Parágrafo único. A responsabilidade médica é sempre pessoal e não pode ser presumida (Art. 1º, Capítulo III, Responsabilidade Profissional). 

A Bioética concebeu-se  em meio ao amadurecimento  do sentimento de indignação provocado pela memória histórica sobre uma Medicina eticamente reprovável.

Esta “genética” é essência da Bioética da Beira do leito como referencial para o juízo do médico- e  do profissional da saúde de modo geral. A memória sobre efeitos da relação intenção de benefício-risco de malefício é patrimônio “tombado” pelo Progresso da Medicina.

A Bioética da Beira do leito estimula a difusão da mensagem amigável sobre o vigor da memória como instrumento de trabalho: Lembre-se de não se esquecer da memória!