Enquete 321- Transumanismo

Transumanismo nasceu em 1957 por obra de Julian Sorell Huxkey (1887-1975). É um movimento dedicado a aumentar a capacidade física, intelectual e psicológica  das pessoas além da sustentada pela carga genética, fatores da evolução e relações com o ambiente, objetivando transcender as limitações atuais da condição humana. A aceleração atual do progresso em tecnologia como poder da computação, internet e genoma reacendeu o interesse pelo tema.

O transumanismo deve ser considerado uma prioridade atual?

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Enquete 320- Moralmente admissível?

Mesmo indivíduo é paciente e voluntário de uma pesquisa.

Na posição de paciente, ele é estimulado a ter protagonismo, participar ativamente no vai-e-vem de resoluções.

Na posição de voluntário de pesquisa, ele não exerce protagonismo, pois há um protocolo a que se propõe a ser uma fonte de dados.

Você acha moralmente admissível?

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Enquete 319- Identidade de gênero e banheiro

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Crédito: http://www.usatoday.com/story/news/politics/2016/05/13/what-does-department-of-education-say-about-transgender-bathrooms/84323146/

A Bioética é fórum para debates acerca de necessidades de indivíduos que não se identificam com comportamentos esperados do sexo biológico – Transgênero.

Um dos itens de apreciação é  o constrangimento  de pessoas nascidas homens que apresentam uma identidade de gênero feminina, em relação a locais que apresentam seleção do gênero, como banheiros frequentados pelo publico.

Recentemente, o governo americano lançou a recomendação para escolas em geral permitirem que estudantes transgêneros usem o banheiro que corresponda a sua identidade de gênero. A medida logo ganhou adeptos e opositores.

Hospitais no Brasil deveriam considerar esta iniciativa?

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Enquete 318- Fármacos. Licença para matar? (2)

Setembro de 2015: “… Anunciamos que a Hospira, líder mundial em drogas injetáveis… faz parte agora da Pfizer…”.  http://www.pfizer.com/news/press-release/press-release-detail/pfizer_completes_acquisition_of_hospira

Maio de 2016: “… A  Pfizer  produz  com o obejtivo de contribuir para a vida portanto, opõe-se ao mal uso de fármacos para execuções por injeção letal em instituições prisionais…”.  http://www.bioedge.org/bioethics/pfizer-to-stop-supplying-drugs-for-executions/11872

A decisão deveria ser estendida para o uso de drogas no suicídio assistido?

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239- inteligências selecionadas, seleções de pensamentos e especialidades selecionáveis

A profissão de médico favorece a adesão à teoria das inteligências múltiplas. De fato, é plural a habilidade em pensar e realizar tudo que se insere nos sentidos da Medicina. As diversificadas realidades da prática médica demandam competências articuladas, o que Howard Gardner (nascido em 1943), o idealizador da teoria, se referiu como: “estruturas da mente distintas e relativamente independentes umas das outras e que podem ser modeladas e combinadas numa multiplicidade de maneiras adaptativas”.

A história da beira do leito é uma narrativa de combinações nunca esgotadas de necessidades de saúde. As transformações são regidas por composições infinitas de anatomias, etiologias e fisiopatologias incidentes caso a caso, o que vale dizer, muitas possibilidades para um único corpo humano.

É de se notar, pois, que somente o trabalho de múltiplas estruturas da mente humana é capaz de bem sustentar geração, expansão e aplicação dos necessários e heterogêneos conhecimentos técnico-científicos e habilidades humanas na área da Saúde.

Ao longo da carreira de médico, oportunidades ligadas ao que costuma ser mencionado como aptidão, talento ou vocação surgem e/ou são garimpadas para satisfação de módulos de inteligência e processamento de funções específicas, pois a beira do leito é local provocativo de 1001 habilidades profissionais.

A teoria das Inteligências Múltiplas, que entende que o Quociente de Inteligência (QI)- Wilhelm Stern, 1871-1938- traz uma visão reducionista, reconhece a individualidade de inteligências lógica-matemática, visual, intrapessoal, interpessoal, linguística. O conhecido eu sou bom nisso e péssimo naquilo, você é bom naquilo e péssimo nisso.

Não é difícil reconhecermos rapidamente vários colegas com destaques no âmbito desta classificação. De fato, médicos conectam-se aos pacientes com atitudes sensorial, lógica e linguística, manifestam domínios de empatia e simpatia, reagem a mutabilidades e inconstâncias subentrantes individualizando-se em grande parte  em conformidade com maiores ou menores facilidades proporcionadas pelas expressões das citadas inteligências.

A análise crítica das missões exercidas pelo médico na beira do leito, desde intenção até aplicação contribui para reduzir o valor de uma crítica à teoria das Inteligências Múltiplas levantada por Linda Susanne Gottfredson (nascida em 1947) para quem Gardner confundiu inteligências com traços de personalidade. O certo é o que a beira do leito quer é um acolhimento de um ser médico, um ser moral, um ser profissional, um ser humano do modo mais eficiente que inteligências e personalidades consigam proporcionar.

É facilmente reconhecível que é utilizando possibilidades distinguíveis das suas inteligências que clínicos, cirurgiões, intervencionistas de modo geral, especialistas em exames de imagem, pesquisadores, gestores, etc… lidam com mais ou menos (inclui nenhuma) fluidez com cada área de atuação, com a relação médico-paciente-Medicina, com atividades assistenciais, didáticas e de pesquisa, com recepção e difusão do conhecimento, com associações de classe, com ligações fora da Medicina, etc… etc… Esta linha conceitual explica porque é clássico supor que um bom clínico não seria um bom cirurgião (carência de coordenação motora, por exemplo), admitir que a gestão é para um contingente especial (responsabilidades de organização e economia acima da clínica), engrandecer no patologista o interesse por detalhamentos de fato esclarecedores (valorizar a parte submersa do iceberg).

Assim, o apuro das competências para o enfrentamento dos desafios das necessidades de saúde conforme demonstrado na beira do leito constitui contraponto à teoria das inteligências gerais da supracitada Linda Susanne Gottfredson, para quem um indivíduo hábil num setor tende a ser hábil também nos outros. Mais uma consideração a favor da frase inicial deste artigo:  A profissão de médico favorece a adesão à teoria das inteligências múltiplas.

É admissível, pois, que o gatilho diferenciador das 1001 habilidades do médico não seja exatamente, o treinamento diferente. As nuances deste é que são acionadas pelas especificidades da “estrutura da mente”. Não faltam exemplos de jovens que  a priori entusiasmados por uma especialidade encontram a posteriori outra que lhes seduz: “você nasceu e viverá para mim”.

É  da história de vida dos médicos que os estímulos para a seleção das trilhas do estudante de Medicina recém-ingresso na Faculdade até a escolha da modalidade de Residência especializadora que o exercício das especialidades médicas carrega vontades – desejos+movimentos- fortemente associadas a peculiaridades de inteligência. As expressões de competências materializam-se como um poder que necessita ser preservado e expandido. É comum observar médicos que se aposentam no papel, reduzem atividades, mas não aposentam as inteligências, assim conservando o poder do ser médico. É o fantasma da demência que mais assusta a inteligência do manter-se médico.

No encadeamento inteligências selecionadas promovem seleções de pensamentos e determinam especialidades selecionáveis, o poder do especialista somente se torna representativo quando embasado em evidências científicas. Caso contrário, ele corre o risco de representar uma inteligência “vazia” e uma atuação dissociada de preceitos éticos. É perante o conhecimento validado, pois, que a tríade inteligência-pensamento-especialidade trabalha com impossíveis neutralidades sobre o valor técnico-científico das evidências- cada médico lapida suas preferências de utilidade-, ajustando verdades  disponíveis caso a caso, segundo um  juízo clínico com o máximo de imparcialidade sobre benefício e segurança.

A exuberante diversificação de métodos causada pelo progresso da Medicina foi determinando, ao longo do século XX, utilizações dos painéis de inteligências individuais mais afinadas com os domínios teóricos e práticos da conciliação entre clássico e inovação. A consequente explosão de (sub)especialidades alinhou-se a uma incômoda fragmentação da visão de enfermidade de um ser humano. Cada árvore tornou-se mais estudada, é verdade, a floresta, contudo, apequenou-se no senso clínico. Criou-se um desafio para a articulação dos painéis individuais de inteligências na beira do leito.

O início da diversificação do ser médico por binômios específicos de inteligência-pensamento-especialidade foi tímido. Muitos formadores de opinião conservadores manifestaram oposições conceituais e desconfianças práticas a respeito do valor das especialidades nas primeiras décadas do século XX. Com o tempo, o instituto das inter-consultas formais ou informais foi se consolidando, especialmente nos hospitais de ensino ligados a Universidades e organizados em distintos Serviços de disciplinas, além da crescente conscientização sobre as vantagens da pesquisa clínica. Todavia, as inter-consultas não garantiram num primeiro momento o diálogo sobre os diferentes núcleos de saber, ou seja, a interdisciplinaridade de fato. Elas mais representavam uma reunião de monólogos presente na estratégia de conduta. Assim como colírio não tinha nada a ver com pomada, a atuação especializada sobre um órgão fazia-se com “cegueiras” sobre efeitos colaterais no conjunto do corpo humano.

Cabendo na figura da precedência do ovo ou da galinha na história recente da Medicina, subsequentes juízos críticos sobre a eficiência na beira do leito foram trazendo reconhecimento do potencial de danos das opiniões de especialistas soltas, descoordenadas. Mais recentemente, as chances do indesejável cresceram pelas dificuldades de preservação de um timing clínico vantajoso dependentes do sistema de saúde. Solicitam-se exames – incluo exame como inter-consulta a uma especialidade- que por demorarem para ser coordenados pelo solicitante traz o risco de prejudicar o ritmo da tomada de decisão e assim deixar escapar melhores oportunidades de contenção e de resolução clínicas.

A anestesia é emblema antigo da afirmação que o poder de uma especialidade afirma-se na perfeita conjunção temporal e espacial com outras. O pensamento crítico, assim, expande-se além do conhecimento “intra-muros” da especialidade, estimula o desenvolvimento de ajustes de aplicação das modalidades de inteligência, o que faz crescer o poder das mesmas na medida em que a interdisciplinaridade faz sentir a imprescindibilidade da complementariedade de estruturas da mente.

Dando um passo largo para os dias de hoje e guardando analogia com os clássicos times de profissionais da saúde para aplicação terapêutica, chega-se à edificação do valor de um time de médicos para tomadas de decisão. A vontade de bem posicionar a contribuição de sua especialidade-inteligência para a construção do diagnóstico e para apreciação da relação benefício clínico-segurança biológica e a conjunção de objetividade e transparência trazem vários benefícios que podem ser resumidos como ascensão profissional coletiva.

Os intercâmbios de conhecimentos entre os partícipes do time no processo de tomada de decisão auxiliam a cada um entender um pouco mais de mais especialidades, conhecer  melhor as facilidades e as dificuldades vividas pelas mesmas, ou seja, eles fazem pegar carona em inteligências mais aquinhoadas do que as próprias no caminho da integração em “tempo real”.

Para terminar,  desejo expressar uma preocupação de natureza ética com o exagero de utilização de “outras superioridades de especialidades-inteligências em relação a nossas”, sob a forma da chamada Medicina defensiva. Inteligências de imagem, numéricas e demais mais aptas para avaliação de certas peculiaridades clínicas são solicitadas a se manifestar com o objetivo de endossar a já bastante composição de inteligência do clínico para o caso.  O dispendioso “consórcio” de inteligências mobilizado além do razoável não se articula com o Princípio fundamental IV do Código de Ética Médica vigente – Ao médico cabe zelar e trabalhar pelo perfeito desempenho ético da Medicina, bem como pelo prestígio e bom conceito da profissão.    

Enquete 317- Fármacos. Licença para matar? (1)

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Crédito: http://www.megacurioso.com.br/policia/39873-voce-sabe-como-funciona-a-injecao-letal-.htm

Setembro de 2015: “… Anunciamos que a Hospira, líder mundial em drogas injetáveis… faz parte agora da Pfizer…”.   http://www.pfizer.com/news/press-release/press-release-detail/pfizer_completes_acquisition_of_hospira

Maio de 2016: “… A  Pfizer  produz  com o objetivo de contribuir para a vida portanto, opõe-se ao mal uso de fármacos para execuções por injeção letal em instituições prisionais…”.  http://www.bioedge.org/bioethics/pfizer-to-stop-supplying-drugs-for-executions/11872

Você entende que a Pfizer age corretamente?

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238- Comprometimento do paciente é remédio

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Crédito:http://pt.dreamstime.com/imagem-de-stock-royalty-free-personage-3d-e-s%C3%ADmbolo-da-nega%C3%A7%C3%A3o-image9428456

O médico  ajusta o estado da arte da Medicina com a devida prudência à individualidade no processo de tomada de decisão. Obtido o consentimento sinal verde do paciente, o zelo com o decidido é imperativo. O sucesso é variável em função do caráter biológico dos focos de atenção às necessidades de saúde do paciente.

Perante insucesso, em seu amplo espectro, uma pergunta imediata é: Houve erro profissional?  É questão  levantada mais comumente em situação em que o atendimento exige recursos materiais e humanos nas dependências de um hospital, proximidade multiprofissional e competências interdisciplinares. Os passos diagnósticos e terapêuticos são guiados e supervisionados de uma maneira que costuma valer-se de uma postura de permissão e obediência do paciente que se entende embutida no processo de consentimento. Recorde-se que a beira do leito faz uma distinção entre as palavras sinônimos consentimento- possibilidade de dizer sim ou não – e permissão- improbabilidade de dizer não.

O erro profissional pode ser mentalizado como uma doença – com etiopatogenia, diagnóstico, tratamento e prognóstico que inclui óbito numa alta posição no ranking de causa-mortis. http://www.bmj.com/content/353/bmj.i2139

Nesta mesma linha de pensamento, o grau do comprometimento do paciente pode ser mentalizado como um remédio. Aplicar-se-ia com mais conveniência para o atendimento ambulatorial. Alto comprometimento do paciente equivaleria à utilidade e à eficácia da chamada classe I de recomendação da Medicina. Poder-se-ia dizer que o sucesso almejado depende fortemente da vontade do paciente  em cumprir  o consentido na frente do médico tendo a consciência de ser o cuidador de si mesmo longe de uma estrutura de apoio  como a hospitalar.

Evidentemente, a coordenação médica e os retornos para reanálises e reorientações ficam extremamente facilitados e beneficiados pelo comprometimento do paciente com a estratégia traçada e consentida.

Cogitar sobre comprometimento do paciente como remédio redutor de danos – inclusive  óbito- para o mesmo traz a interessante apreciação: a ausência danosa é passível de um juízo de erro profissional. Implicaria em dois cenários: o da orientação pelo médico e o da aplicação pelo paciente.

Comecemos pela segunda conjuntura. Até que ponto o médico deve ser arrolado porque o paciente não cumpriu a “lição de casa”. É análise que encerra altíssimo grau de subjetivismo. Há o descumprimento consciente da desconformidade e há aquele que se perde no terreno movediço das dificuldades cognitivas que entrava o alcance dos objetivos e abstém do alerta para as adversidades.  É situação onde fica sempre no ar a dúvida se o paciente foi de fato bem esclarecido ou se as recomendações desconsideraram desejos e preferências do paciente e até mesmo impossibilidades de aplicação.

Estas incertezas constituem ganchos para a primeira conjuntura. Conhecê-los traz lições: a) o silêncio sobre o valor do comprometimento é imprudente; b) a eficiência no esclarecimento para o paciente dos intervenientes para a tomada de decisão a ser consentida, idealmente, não deve resultar refém de um tempo predeterminado para  diálogo; c) todo esforço para compatibilizar recomendação consentida e aderência é bem-vindo; d) o registro em prontuário sobre as várias nuances do consentimento é salvaguarda contra acusações de má-fé pelo paciente do tipo não “fui informado”.

A Bioética constitui fórum competente para discussões sobre os re-enfoques da Medicina sob os pontos de vista do paciente e o real engajamento do mesmo nas condutas legitimadas por ajustes assim centrados. Elas auxiliam a firmar eticidade às pontes entre autonomia e paternalismo fraco (aquele que insiste mas não coage) e reconhecer quando se atinge a fronteira de um indesejável paternalismo forte.

 

Enquete 316- Profetismo de Potter?

potter45Em 1972, um ano após a publicação do livro Uma Ponte para o Futuro, marco da bioética contemporânea, Van Rensselaer Potter (1911-2001) declarou numa Conferência sobre Responsabilidade social dos cientistas:

“…  Entramos numa nova era em que a ciência e a tecnologia terão a capacidade de destruir a viabilidade da Terra, caso sejam mal utilizadas. Eu rejeito fortemente a realização da pesquisa como um fim em si mesma e não assume as responsabilidades pelas consequências. Tendências desastrosas cientistas-dependentes podem estar em franco andamento. Há necessidade do desenvolvimento de um novo senso  de responsabilidade entre os cientistas, espontâneo e propenso ao diálogo com não cientistas.  A questão é como subsequentes imperativos da ciência  poderão conviver com os valores tradicionais da ciência…”. 

Passadas cerca de quatro décadas, pode-se dizer que o alerta de Potter ressoou na comunidade científica brasileira?

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Enquete 315- Aja herro…!

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Crédito: http://www.bmj.com/content/353/bmj.i2139

Artigo recém publicado informa que  considerando o erro profissional envolvendo o médico como uma doença, ele ocuparia a terceira causa mais frequente de morte.

O conceito de erro profissional envolvendo o médico fundamentou-se em ato não intencional, por omissão ou comissão, falha na completude da ação intencionada, falha no planejamento e desvio do processo de cuidado causando ou não dano ao paciente.

O artigo conclui que deficiências na elaboração do Certificado de Óbito impedem mais acurado reconhecimento  dos erros e, portanto, dificultam a adoção de medidas corretivas.

O que é mais importante?

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237- Misologia não cabe na beira do leito

misoUma das tradições do médico é não praticar a misologia. De fato, ódio ao raciocínio e à lógica não cabe no seu profissionalismo. O incalculável potencial da Medicina não pode tornar-se realidade benéfica para o paciente sem o raciocínio clínico do médico. Parece óbvio. Mas há um alerta sobre sinais de desmotivação para concatenações nos padrões contemporâneos de realização na beira do leito. A pressão pelo sucesso gera tensões de execução que, não infrequente, são instadas ao alívio por reducionismos na vitalidade e na abrangência do pensamento.

Em tempos de tanto apoio à prática médica por sistematizações  em texto, obtenção de números indicativos de anormalidades e percepções anatomopatológicas transcutâneas ou percutâneas por imagem, é enganoso relegar a utilidade do raciocínio clínico ao segundo plano, pois, assim acontecendo, compromete a imprescindível visão clínica de conjunto.

Pensar e repensar é tarefa que beneficia a deliberação. Por meio do pensamento crítico dá-se ênfase à própria experiência no processo de atenção à saúde do paciente, resulta fazer-se de fato presente, humanamente presente na beira do leito. Assim, o pensamento que dá legitimidade a uma abordagem técnico-científica para satisfazer racionalmente as peculiaridades das necessidades daquele paciente participa da essência profissional e o poder do raciocínio viabiliza a vivência do passado como guia da habilidade do presente.

O ato de valorizar o raciocínio e a lógica sustenta a cultura profissional pessoal, o que significa mostrar-se médico de fato interativo, interposto entre a Medicina e o paciente. Pois, se é verdade que a compreensão do estado da arte em Medicina molda a experiência, é certo que vivenciar as múltiplas variantes ditadas pela condição humana – doente e doença- atribui conteúdo e valor a qualquer forma de aquisição do conhecimento.

O desafio é trabalhar com verdades afuniladas para a mais provável utilidade e eficácia sem colocar de lado o raciocínio clínico. Um embate entre a força do coletivo e o vigor do individual. Uma necessidade de conciliação entre dois bom para: o admissível bom para uma doença e o desejável bom para aquele doente.

Não basta seguir algoritmos como passos seguros rumo à eficiência. Precisões e matematizações seduzem, contudo, para distinguir o que é uso e o que é abuso é capital exercitar mente aguçada e órgãos dos sentidos treinados. É da prudência evitar que generalizações do bom provoquem inadvertidos males particulares. É distintivo no ser médico ético funcionar qual enxadrista que aprende a mentalizar jogadas à frente, as dele e as do adversário, evidentemente, conhecendo a “literatura” e  fortemente adestrado para conduzir-se  perante variantes, até inéditas.

Para frequentar a beira do leito, o estudante de Medicina precisa adquirir uma bagagem pesada de conhecimento. Parte será descartada no caminho, mas parte será matéria prima do atendimento via raciocínio clínico. É fundamental que manchetes de diretrizes não sejam consideradas o bastante para a recomendação. Uns entendem que mesmo manchetes são fontes suficientes para uma tomada de decisão, contudo, creio que desqualifica o ser médico e, inclusive, compromete a eticidade.

Vire e mexe ocorre-me a importância de destacar como os encontros amiúde com diretrizes clínicas e a ânsia pela próxima atualização tendem a provocar certas amnésias sobre aprendizados teóricos e práticos. Lidar com diretrizes clínicas é dinamismo que combate a monotonia de ensinamentos e elimina o obsoleto e o desnecessário? Admito. Uma limpeza nas gavetas da mente com conotação ética?  Aceito. Todavia, é para ser considerado que a mente do médico não pode ser entendida tão-somente como um cabide para que diretrizes sejam penduradas e promovam fascínio por “muito arrumadinha” salvação da eficiência, pois, assim sendo, fomentam, invariavelmente, mortes de fundamentos por desprezo do proveito.

Se o bioamigo concorda que o raciocínio clínico é fundamento inalienável do médico, sustenta a sua autonomia e qualifica o sucesso profissional, então, imagino que deve admitir que diretrizes clínicas trazem o risco do estímulo à misologia. A apenas contraposição que misologia é dispensável e diretriz é necessária não é suficiente para afastar o perigo da combinação fatal. Pois se o médico aceita as diretrizes como algemas, torna-se passageiro de uma condução totalmente heteronômica, corre o risco de tender para uma atitude misóloga – não como figura de ódio, exatamente, seria uma tinta muito forte, mas um distanciamento da benquerença- e, assim, exagerar em sensações de simplificações das complexidades da beira do leito. Mas se pelo contrário, o médico admite diretrizes como bússolas para o norte do raciocínio clínico, ele estará delas usufruindo na medida das sistematizações e mantendo as tradições não misólogas do médico ético.

Mutatis mutandis, seria como alguém tomar suco de laranja de caixinha e canudinho sem conhecer minimamente o processo desde a semeadura na terra até o envazamento na indústria e, além disto, ignorar eventuais diferenças da qualidade nutricional em relação à fruta espremida na hora. http://bioamigo.com.br/a-diretriz-a-laranja-e-o-suco/. Um colega na platéia ao me ouvir sobre a analogia da laranja perguntou se aprender com diretriz seria então o mesmo que ir ao supermercado. Entendo que tal indagação resume o quanto os costumes modificam-se com o tempo e desafiam conservadorismos. Um desafio é a Medicina baseada em evidências que, evidentemente, é ganho do século XX que não dispensa idas-e-vindas de raciocínio clínico guiadas por fundamentos clássicos da Medicina e pela experiência pessoal.

O tempo, a sua falta mais exatamente, confundida com desinteresse muitas vezes, é mau conselheiro quando maldiz o livre pensar ético, inibe a lógica do fazer o correto mas sabendo das incertezas quanto a danos e impede juízos críticos quanto a condutas sob efeito manada.

Qualquer brecha para a misologia representa ameaça ao Pentágono da Beira do leito, em geral e às relações humanas de modo particular. Violências seriam facilitadas porque não pensar compromete a conexão médico-paciente em duas mãos de direção, prejudica a tolerância e afasta tomadas de decisão de humanos objetivos, preferências, desejos e  valores.Pentágono

O ser médico necessita de significação pessoal, de se fazer presente, de se mover em direção aos deveres éticos e de edificar prestígio bem amarrado à eficácia.

A responsabilidade de se manter afastado da superficialidade cognitiva que é muitas vezes materializada pela sucumbência a automatismos profissionais subentrantes tem vários preços para o médico. Um deles, no topo da escala, é de cooperar firmemente para que a misologia não frequente a beira do leito.