A recomendação de cessar a antibioticoprofilaxia não se apoiou em evidência de malefício consistente, mas sobretudo na ausência de demonstração de benefício. Ainda assim, foi reclassificada como prática inútil ou potencialmente prejudicial. O risco ético aqui é claro: transformar a falta de evidência em evidência de falta, promovendo um nihilismo terapêutico ou preventivo.
É justamente nesse ponto que a Bioética se impõe. A eventual transformação de uma boa prática em má prática deve apoiar-se em evidência concreta de dano. Caso contrário, corre-se o risco de desqualificar condutas clássicas que se mostraram seguras e plausíveis ao longo do tempo.
O impacto pedagógico desse debate também merece reflexão. Em situações de divergência entre diretrizes e experiência clínica qualificada, observa-se, entre jovens médicos, certa tendência à desvalorização da vivência do professor ou preceptor, taxada como “achologia” quando não respaldada por ensaio randomizado. Paradoxalmente, muitos reproduzem diariamente condutas consagradas da História da Medicina que jamais foram testadas em estudos randomizados, mas foram validadas pela evidência competente do tempo.
As diretrizes exercem força avassaladora. Elas moldam práticas, formam identidades e, não raro, “vacinam” o jovem contra recomendações baseadas em experiência clínica legítima. Há obediência formal à rotina do serviço, mas resistência íntima, mesmo diante de explicações fundamentadas. Como observou W. Bruce Fye, o processo educacional centrado em trials e guidelines tem impacto tão profundo quanto o estetoscópio ou o eletrocardiograma.
No caso da profilaxia da endocardite infecciosa, essa tensão se agrava: o tempo de estágio é curto, insuficiente para que o jovem testemunhe os desfechos — favoráveis ou não — das decisões tomadas. Crono não cabe no calendário da residência.
Talvez caiba recordar Bruno Bettelheim, ao afirmar que os contos de fada ajudam a formar a criança porque simplificam o conflito, mostram que desafios podem ser enfrentados e chegam a um desfecho. Diretrizes, como os contos, inovam e se renovam. Mas a Medicina real é mais lenta, mais ambígua e mais exigente.
Crono permanece, silencioso, como conselheiro-mor da Humanidade — e da beira do leito. Ignorá-lo é um risco que a Medicina não pode correr.
E, com o devido respeito, vale recordar Nelson Rodrigues: o “complexo de vira-latas” pode levar à submissão acrítica a consensos externos, mesmo quando a experiência local, honesta e qualificada, sugere prudência. Em Medicina, como na vida, o tempo — e não a obediência cega — é o juiz final.
