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PUBLICAÇÕES DESDE 2014

HM 60 – Crono à Beira do Leito: Tempo, Evidência e a Bioética da Profilaxia da Endocardite Infecciosa (Parte 1)

Crono, na mitologia, é a personificação do tempo. Pai de Quíron, o mestre da Medicina, de quem Asclépio herdou o saber curativo, Crono simboliza uma verdade incontornável da prática médica: não há exercício ético da Medicina que dispense uma unidade de pensamento entre passado, presente e futuro. Inovações tornam-se rotina; rotinas tornam-se obsoletas; outras retornam sob nova luz. O tempo, soberano, decide.

Na beira do leito, o tempo não é apenas cenário: é ferramenta, método e objetivo. A conduta expectante, a cicatrização por segunda intenção, o uso de antibióticos por períodos determinados e a própria categorização clínica — eletiva, urgente ou emergencial — são expressões inequívocas de que o médico jamais prescinde do tempo. Ele está embutido no prognóstico e na decisão.

Ao longo de décadas dedicadas ao manejo da doença valvar, acumulou-se experiência clínica no diagnóstico, tratamento e prevenção da endocardite infecciosa. Essa vivência se consolidou na prática da profilaxia antibiótica da endocardite, reconhecida e discutida em ambiente de excelência, como a Unidade Clínica de Valvopatia do InCor, um serviço que se firmou como referência pela credibilidade construída no tempo.

Em 1972, recomendava-se, para pacientes com valvopatia predisponente, o uso profilático de penicilina antes de procedimentos dentários com risco de bacteriemia, estendendo-se por mais dois dias. A recomendação evoluiu, e em 1997 já se restringia à amoxicilina por via oral, dose única, uma hora antes do procedimento. O tempo enxugava o protocolo, mas não o invalidava.

Entretanto, a partir do final do século XX, tornou-se perceptível o movimento internacional — particularmente liderado por colegas dos Estados Unidos — de descrédito do valor científico da antibioticoprofilaxia. Em reuniões do International Collaboration on Endocarditis (ICE), esse ceticismo ganhava força. A persistência da recomendação parecia manter-se mais por receio de interpretações legais de negligência do que por convicção científica.

Nesse contexto, a publicação, em 2007, do documento da American Heart Association sobre prevenção da endocardite bacteriana não causou surpresa. A diretriz consumou uma tendência: recomendou a cessação da antibioticoprofilaxia para pacientes de risco baixo ou moderado, restringindo-a a situações de altíssimo risco. O comitê justificou-se com argumentos conhecidos: bacteremia espontânea mais frequente do que a procedimental, benefício preventivo limitado, risco de reações adversas aos antibióticos e maior ênfase na saúde bucal como estratégia primária de prevenção.

O NICE britânico foi além, em 2008, ao recomendar a completa cessação da antibioticoprofilaxia. Em 2009, a Sociedade Europeia de Cardiologia alinhou-se à AHA. O consenso internacional parecia selado.

No InCor, entretanto, a mudança foi analisada criticamente. A Unidade Clínica de Valvopatia adotou três posições claras: manter a recomendação vigente na prática clínica, comunicar formalmente essa posição aos cirurgiões-dentistas e atuar ativamente na elaboração da Diretriz Brasileira e Interamericana de Valvopatias, sustentando o racional clínico adotado.

Os argumentos eram objetivos: não existe endocardite infecciosa não grave; priorizar prótese ou episódio prévio não elimina o risco em valvopatias naturais; eventos adversos à amoxicilina eram raros em nossa prática; e, sobretudo, a saúde bucal dos pacientes era precária — cerca de 80%, segundo avaliação odontológica institucional. Abandonar a profilaxia naquele cenário parecia mais teórico do que prudente.

Crono avançou. Em 2014, após anos de retração da profilaxia, surge uma publicação robusta demonstrando aumento da incidência de endocardite infecciosa associado temporalmente à redução da prescrição de antibióticos profiláticos. Os próprios autores foram cautelosos ao afirmar que associação temporal não prova causalidade. Ainda assim, o impacto foi imediato. O NICE emitiu alerta público, sinalizando revisão emergencial de sua diretriz.

Esse episódio ilustra, de modo exemplar, como as evidências científicas são interpretações feitas por profissionais qualificados, a partir de dados captados de cenários reais — incluindo tanto pesquisas sistematizadas quanto a vivência clínica à beira do leito. Embora as diretrizes legitimamente hierarquizem níveis de evidência, a ausência de dados favoráveis não equivale, necessariamente, à prova de ineficácia ou dano.

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