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1843- Bioética da Beira do Leito: a dúvida como instrumento de maturação profissional (Parte 8)

  1. Paternalismo brando, nudge e consentimento: o cuidado sem coerção

Um sonho da Bioética da Beira do Leito é convencer os profissionais da saúde de que a prática de um bem intencionado paternalismo — o brando — não é antagônica ao respeito ao direito à autonomia do paciente. A distinção entre paternalismo forte (coercitivo) e paternalismo brando (argumentativo, não coercitivo) é decisiva: o primeiro fere a liberdade; o segundo busca preencher lacunas de compreensão sem proibições, sem ameaça e sem imposição. 

A Bioética da Beira do Leito realça que a autonomia formal requer esclarecimento, independência, intencionalidade e condição de resistir e não se alienar. Mas existe a autonomia efetiva: sem violentar as premissas do esclarecimento e da não coerção, ajusta a intencionalidade pelo melhor esclarecimento — quer seja pela informação, quer seja pela absorção. 

Na assistência, o verdadeiro esclarecimento ao paciente continua sendo aquele dado diretamente, via oral, no processo de tomada de decisão. O termo de consentimento por escrito, quando burocratizado no “apenas assina aqui”, pode tornar-se um desserviço: pesa sobre a relação e não garante compreensão; desloca o eixo do diálogo para o formulário; e climatiza a beira do leito com os ares do medo travestido de prudência. 

  1. Tempo: patrimônio ético, consulta e continuidade

Na contemporaneidade deste início do século XXI em que nós não temos o tempo, mas é o tempo que nos tem, é sempre bom lembrar: o tempo é simultaneamente o mais valioso e o mais perecível de todas as posses. A Bioética da Beira do Leito chama a atenção para a benfeitoria do tempo como patrimônio individual do profissional da saúde dedicado ao paciente — irrecuperável, inacumulável e insubstituível. 

No ecossistema da beira do leito, a movimentação costuma ser relativamente lenta e, por isso, intervalos de tempo entre eventos podem ser cronometrados, comparados e interpretados com a ajuda do bom senso: agendamento em intervalos, momento da anamnese, momento do exame físico, “há quanto tempo?”, “de 12/12 horas”, “retorne em 10 dias”. A beira do leito trabalha com continuidade: mesmo longe do paciente, persiste a responsabilidade prescritiva do médico pela conduta entre hoje e o retorno. 

  1. Fecho: a maturidade nasce do equilíbrio entre dúvida, coragem e diálogo

Como dito por René Descartes (1596–1650): se você desejar ser um perseguidor da verdade, precisa que pelo menos uma vez na vida tenha dúvida, tanto quanto possível sobre tudo. E, complementando com Niels Henrik David Bohr (1885–1962): o oposto de uma verdade profunda pode muito bem ser outra verdade profunda. Entre beira do leito, tecnociência e humanidade, a Bioética insiste no mesmo ponto: não é abolindo dúvidas que se amadurece — é aprendendo a habitá-las com prudência, coragem moral e diálogo. 

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