435- Utopia e beira do leito

Desejar que assim seja é uma coisa, estar assim de fato é outra. Há cerca de cinco séculos, Thomas Morus (1478-1535) imaginou a ilha da Utopia  (u-negação, topos-local agora) onde viveria uma sociedade ideal, inatingível, em grande bem-estar e liberdade de expressão em que ninguém estava obrigado a fazer o que não queria, o que não podia e o que não devia. Hospitais eram gratuitos e a eutanásia estava permitida, portanto, infere-se que os cidadãos não estavam livres de doenças. Em outras palavras, um estado de saúde ideal permanente não cabe previsível mesmo numa idealidade sonhada.

Na realidade do cotidiano de todos nós humanos, a cada minuto temos motivo para nos regozijarmos por manter um passado de saúde estável e para fazermos votos de assim preservar um futuro sem perdas do bem-estar. Infelizmente, entretanto, a conjectura é praticamente impossível.

De fato, vivemos num ecossistema complexo sob constante impacto do biótico e do abiótico e que incluem, por que não, múltiplas crueldades da condição humana. Epidemias e endemias, violências e descasos, injustiças e má-fé nos atingem e falam por si só como agentes de danos físicos e emocionais, assim prejudicando ajustes necessários para a convivência harmônica no ecossistema.

Neste contexto da Saúde, almejamos a modernização expansiva dos métodos da Medicina para nos beneficiar quando o amparo for preciso. Mais ou menso consciente, vigoram graus de inquietude acerca do escape do estado saudável, este valor maior.

Entendo que uma forma de enxergar a Medicina num âmbito bio-psico-social é a contribuição para a preservação constante do bem-estar, por mais utópico que possa ser entendida, por meio, não somente de métodos de prevenção, como também de condutas para restituir o bem-estar abalado pela doença até quanto for possível. Capacidades e necessidades em permanente feedback.

Em linhas gerais, estamos falando em qualidade de vida perante previsibilidades e imprevisibilidades fisiopatológicas e clínicas. É o mundo real, tópico, atingível, que o médico estuda para conhecer a fundo. Ele logo toma ciência que se nasce com uma carga genética que irá conviver com um ambiente que influencia hábitos e tudo se mistura com maior ou menor determinismo. Em nosso planeta – em que alguma ilha de Utopia é tão somente ficção, pelo que sabe-, não faltam etiopatogenias em que parte delas pode ser distanciada e parte fica na espreita aumentando as chances de efetivação com o decorrer do tempo. É uma força que estimula o progresso da Medicina, a busca ininterrupta da beneficência e que, há um século, tem permitido sucessos consecutivos. Sou testemunha do último meio século.

A técnico-ciência sustenta cada vez mais qualificada o conhecimento e a reabilitação da saúde do ser humano. Entretanto, cada benefício possibilitado pela Medicina, devidamente validado, não pode eliminar alguma chance de malefício – nunca (inexiste iatrogenia zero em potencial). Uma vacina, um fármaco dito preventivo, um procedimento que evita um evento grave podem provocar algum tipo de dano com variada repercussão sobre a qualidade de vida e sobrevida. O mesmo deve ser dito, de forma até mais ampliada, para a terapêutica em geral. Inovações que trazem ineditismos de benefícios associam-se a adversidades intrínsecas e com influências de uma curva de aprendizado. É contexto onde a restituição do bem-estar pode ficar ultra-dependente da tecnologia em suas variantes farmacológicas, de artefatos e de comunicação.

A beira do leito não é uma Utopia, longe disso, mas quem a frequenta profissionalmente com respeito à ética contemporânea ganha experiência para reafirmar a consideração de Morus aplicável ao paciente sobre o respeito à liberdade de expressão e à desobrigação de fazer o que não quer, o que não pode e o que não deve. O ponto de equilíbrio contemporâneo responde pelo nome de consentimento livre e esclarecido que conecta verdades técnico-científicas e valores da pessoa.

Admitindo uma perfeita eticidade, é admissível a possibilidade de contraposições entre a recomendação do médico e o entendimento do paciente. Propor segundo o estado da arte não pressupõe aceitação inquestionável, por mais que as premissas possam ser melhores do que a realidade presente. Aspecto relevante é que o entendimento de dano- quer qualitativo quer quantitativo- e que pode colidir com o valor da serventia para o futuro, varia de pessoa para pessoa, especialmente entre uma visão profissional e uma visão leiga. A bula de medicamento ilustra bem.

Por isso, a Bioética da Beira do leito entende que o respeito ao princípio da autonomia aplicado de modo burocrático,em função essencialmente pela carência de tempo ao acolhimento, é insuficiente em muitos casos onde há divergências entre a orientação do médico e a percepção pelo paciente. A liberdade de expressão e a desobrigação de fazer o que não quer, o que não pode e o que não deve podem necessitar de maior tempo de maturação pela grande diversidade da condição humana, vale dizer de sua reação a novidades que supõem sofrimentos.

O patrimônio da Medicina deve estar à disposição da sociedade, um amparo para todos, embalada numa visão otimista de futuro- vale dizer bom prognóstico/boa qualidade de vida- e ao mesmo tempo equilibrar o progresso com o respeito a valores, objetivos, desejos e preferências do paciente. Há um ideal  de qualidade de vida que não deve ser inferior às realidades presentes, um ajuste ao dogmatismo (verdade) e ao profetismo (valor- será um bem).

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