432- A ética em pesquisa e o respeito ao voluntário

A significação de ética em pesquisa, vale dizer o respeito ao voluntário de pesquisa, evoluiu muito na segunda metade do século XX.  A excelência neste campo sustenta-se no efetivo esclarecimento do paciente pelo pesquisador clínico responsável, consciencioso e  compassivo.

Cabe ao pesquisador clínico padronizar para si um modo de pesquisar que entenda moral e respeitoso das regras a serem cumpridas, o que inclui moralidade da intenção pelo objetivo principal, definição  de critérios de inclusão  do voluntário afinados com o objetivo, seleção dos métodos possibilitadores de conclusões, obtenção do consentimento livre e esclarecido, rígida aplicação do protocolo autorizado, atenção a eventuais adversidades  excessivas no decurso do estudo e rigor na apreciação científica e comunicação dos resultados.

A inquietude intelectual é habitual no pesquisador clínico  não importa o quanto possa depender dela para alavancar a carreira acadêmica. Na ética do crescimento profissional, a progressão requer limites do poder. Eles são necessários para os encontros que utilizam a capacidade profissional em busca de benefícios clínicos. Há o limite pessoal ligado à  própria visão de moralidade e atuante no processo de concepção do protocolo de estudo, há o limite representado pelo ato de consentimento do paciente em que a correta comunicação pelo médico permite ao voluntário avaliar possibilidades de sentimento de violência (maleficência) a sua individualidade e há o limite institucional associado a Comissões científicas e Comités de Ética em Pesquisa. O patrocínio pode ser um limitador que não permite concessões em nome da realização do estudo.

A preservação ética na atualidade faz-se com grande contribuição dos Comités de Ética em Pesquisa que, com certa frequência, costumam fazer observações reparadoras sobre os projetos encaminhados. Felizmente, os acertos recomendados atualmente estão longe de se referir ao que acontecia há cerca de 50 anos.

Enumero abaixo casos coletados para atestar o grau de evolução ética que ocorreu  desde a década de 60, baseado em  http://irbmember.web.unc.edu/files/2017/01/1966_Beecher_Ethics_and_Clinical_Research.pdf:

  1. Suspensão do tratamento preventivo por penicilina da febre reumática. O grupo placebo apresentou casos de febre reumática aguda e nefrite aguda e não houve nenhum caso no grupo que manteve a prescrição de penicilina benzatina;
  2.  Pacientes com estreptococcia do grupo A supurativa não receberam sulfonamida  – durante anos o único fármaco efetivo- para prevenir febre reumática.  Os voluntários não foram esclarecidos, não consentiram e desconheciam que participavam de um experimento. Houve ocorrência de febre reumática.
  3. Pacientes faleceram envolvidos num estudo sobre febre tifoide após suspensão de cloranfenicol  para verificar incidência de recorrência da doença.
  4. Evidências de disfunção hepática, especialmente em crianças, surgiram após uso de Triacetilolenadomicina para tratamento de infecção por bactéria gram-positiva. Pesquisa foi realizada com a droga incluindo crianças com deficiência mental e jovens delinquentes sem infecção. O estudo foi realizado por quatro semanas e  houve alta incidência de disfunção hepática importante. Biopsias hepáticas foram realizadas.
  5. Para verificar se a associação de uso de cloranfenicol com anemia aplástica era dose dependente, estudo foi realizado com prescrição a voluntários de doses de 2 g ou 6 g diárias. concluindo que 6 g determinam anemia aplástica em cerca de 90% dos casos contra 10% entre os que usaram 2 g, e, assim, a dose menor tornou-se a preconizada para a rotina de administração de cloranfenicol.
  6. Para verificar o efeito da timectomia na pega de enxertos de pele, crianças e adolescentes foram submetidos à retirada do timo aproveitando a realização de cirurgia para cardiopatia congênita, quando, então, se suturava um enxerto de pele de doador adulto na parede torácica. Não houve diferença na pega do enxerto em relação a um grupo controle.
  7. Para estudar a relação entre o anestésico ciclopropano e arritmia cardíaca, pacientes foram intubados e receberam dióxido de carbono até o aparecimento de arritmia cardíaca, correspondendo a níveis tóxicos do gás carbônico, mantidos por algum tempo. Durante a anestesia com ciclopropano, várias arritmias ocorreram. Quando a tensão de gás carbônico foi elevada acima do normal, extrassístoles ventriculares foram mais numerosas em relação à situação de tensão normal.
  8. A fim de estudar alterações hemodinâmicas e metabólicas cerebrais durante hipotensão arterial, voluntários normotensos, hipertensos e hipertensos malignos  foram submetidos a drogas hipotensoras ou modificações posturais, com poucos esclarecimentos aos mesmos. Muitos tiveram queda importante da pressão arterial, com confusão mental e sinais de isquemia cerebral. Como não houve sinais de insuficiência coronária concluiu-se que o cérebro é mais sensível à hipotensão aguda do que o coração.
  9. Respostas circulatórias adversas por ocasião de manobras abdominais foram estudadas  acessando o peritônio de voluntários, fazendo fricção no mesmo com esponja, tração do mesentério, pressão na região do plexo celíaco, vesícula, estômago, bem como oclusão de veias porta e cava. Percentual significativo apresentou hipotensão arterial moderada e importante, bem como alterações do ritmo cardíaco e do segmento ST ao eletrocardiograma.
  10. As variações sístolodiastólicas do ventrículo esquerdo em pacientes com estenose mitral e fibrilação atrial foram estudados  por meio da sutura de calibradores de resistência de mercúrio diretamente na superfície ventricular dos pacientes e punção direta.
  11. A fim de avaliar a sequência de contração biventricular, o ventrículo esquerdo foi cateterizado via transbrônquica em pacientes com bloqueio de ramo.
  12. Para confirmar que substâncias nitrogenadas são desencadeantes de  coma hepático , administraram-se  a portadores de cirrose alcoólica avançada  compostos de amônio, ureia e/ou dieta proteica. Comprovou-se a manifestação de tremores e alterações eletrocardiográficas e concluiu-se que condutas de restrição seriam benéficas para os pacientes.
  13. Células cancerosas forma injetadas em humanos sem menção a origem para estudo sobre imunologia na doença.
  14. Células do melanoma da filha foram implantadas na mãe para verificar se a produção de anticorpos poderia ser benéfica para a paciente, que estava em estado terminal e faleceu no dia seguinte ao procedimento. A mãe faleceu de melanoma metastático cerca de 400 dias após o implante.
  15. Para estudar se o refluxo ureteral pode acontecer com bexiga normal, recém-nascidos com até 48 horas de vida foram submetidos a vesicoureterografia com alta exposição a raios-x.

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