419- O valor da coragem criativa

A submissão à Medicina baseada em evidências pode dar a falsa impressão que o médico não pode ser profissionalmente criativo. Uma coisa é a achalogia, a vivência isolada que não fundamenta probabilidades, outra é a coragem criativa que  sustenta as mudanças que o progresso da Medicina sinaliza com cada vez mais aceleração e que, no cotidiano, atapeta ajustes da rotina vigente determinados pelas individualidades.

A Bioética lida com os avisos antecipados da criatividade inovadora que têm vindo com a força da tecnologia contemporânea e que anunciam um processo de migração da Medicina baseada em evidências para a Medicina de precisão, uma mudança na capacidade de visão de limites.

No empenho pelo cotidiano beneficente, cada aceno de ineditismo da Medicina produz um incômodo sobre o médico e  a necessária ordenação beneficia-se  da Bioética, contribuição para  reflexões vantajosas em torno das ansiedades desencadeadas. Logo o médico aprende que há sempre um mal cogitado para cada novo bem presumido, despertando apreensões acerca da conveniência do uso de conclusões de pesquisas para a humanidade. É assim desde a  marcante experiência (anti-ética pela concepção atual) do britânico Edward Jenner (1749-1823) com a vacínia – varíola do gado.

Neste contexto em que preocupações com inovações não são novidades, quem frequenta a beira do leito há décadas vivenciou embates de prós e contras de hoje rotinas indiscutíveis. Como exemplo, na década de 80 do século passado, defensores da anticoagulação na fibrilação atrial sofriam resistência de críticos conceituados. Hoje, não recomendar a prevenção é prática anti-ética. Em outras palavras, há necessidade de coragem criativa em qualquer profissão, sob fundamentação científica na do profissional da saúde, na proposição e implementação de mudanças, aliás, em grau proporcional à alteração. A história da Medicina coleciona médicos com coragem criativa que modificaram substancialmente o exercício profissional. Há brasileiros entre eles.

A coragem criativa que muda o status quo está atrelada etica e legalmente à pesquisa, tanto na figura dos pesquisadores que geram e praticam ideias quanto na dos aplicadores pós-validação e seus aperfeiçoamentos em feedback com os acontecimentos que vão se acumulando.

A Bioética de certa forma entende razões da Medicina defensiva apreendidas da interdisciplinaridade que faz enxergar com lentes de aumento a condição humana plural da sociedade. Contudo, a cautela excessiva costuma ser atapetada pela apatia e pelo conformismo e, porque não, pelo temor de comprometer a imortalidade profissional.  Ou seja, uma negação da coragem criativa.

Prioritariamente, a Bioética valoriza a coragem criativa que sem desrespeitar estatísticas associa o rigor técnico-científico com a abertura para ajustes progressistas de proposição da Medicina. É essencial  que se trabalhe em  conformidade com a consciência profissional afinada com a ética e a legalidade. Como escreveu o psicólogo existencialista Rollo Reece May  (1909-1994) em seu magnífico livro A Coragem de Criar – Editora Nova Fronteira, 1982- seja qual for a nossa atividade, há sempre uma satisfação profunda em saber que estamos contribuindo para a estruturação de um mundo novo. A Bioética da beira do leito endossa o respeito ao vigente e a determinação pelo aperfeiçoamento.

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