399- Ciência e desejo (Parte 2)

Lidar com a complexidade crescente da Medicina na beira do leito faz conviver com diferentes níveis de percepção da realidade governados por pluralismo de lógicas e com a possibilidade de conceitos opostos virem a ser complementares.

A condução da terminalidade da vida num paciente internado no hospital, por exemplo, está sujeita, não somente à visão científica que tende para um consenso intra Medicina sustentado por evidências e normatizações, como também, a uma visão cultural extra Medicina com inúmeras nuances econômicas e sociais ao redor do mundo e num mesmo país, e, ainda, a contraposições entre beneficência e maleficência em mesmo ato, vale dizer, entre a utilidade – a ser aplicada- e o dano – a ser reduzido-, sob o olhar do desejo.

As disciplinas geram competências, mas é a apreciação interdisciplinar com viés transdisciplinar que atende à subdivisão do processo contemporâneo de atendimento ao paciente em distintos momentos. Cada um deles privilegia um determinado método de captação de dados e fatos  no contexto da conexão médico-paciente-Medicina, uma superioridade específica sobre os demais numa determinada fase do acolhimento- uma soberania na circunstância, para usar um termo clássico em Medicina significando capacidade para percepção e controle da situação-, e todos se completam.

A Bioética da Beira do leito destaca 4 tipos de soberania: a Clínica é soberana, a Tecnologia é soberana, a Diretriz é soberana, o Paciente é soberano. É pelo valor coletivo das referidas soberanias – a figura da caixa de ferramentas com instrumentos para aplicação em distintas necessidades- que se alcança a excelência assistencial.

A Clínica pode ser vista como soberana para o entendimento inicial da manifestação da enfermidade e para a observação de efeitos do tratamento. A Tecnologia mostra-se soberana na ocasião em que é preciso uma identificação anatômica e/ou funcional. A Diretriz  publicada por uma Sociedade de especialidade é soberana quando o foco no processo de tomada de decisão refere-se às normatizações sobre dimensão de efeito e probabilidade de certeza  fundamentadas em evidências da literatura médica.

Dentro da visão transdisciplinar que passa através e vai além das disciplinas, cada soberania citada deve ser entendida sob a tripla sustentação do rigor, da abertura e da tolerância.

A Clínica é soberana é conceito tradicional que persiste válido para várias situações do atendimento. Ela admite o rigor de uma argumentação baseada nos órgãos dos sentidos, como a identificação de icterícia pela inspeção, esplenomegalia pela palpação e estenose mitral pela ausculta. Entretanto, a expansão de informações complementares sobre estes três diagnósticos irrefutáveis, conforme estado da arte atual, exige uma abertura para a Tecnologia.

A Diretriz é soberana ganhou evidência (sem trocadilho) na beira do leito nas últimas décadas. Ela admite o rigor de interpretação como evidência das conclusões de estudos sistematizados tanto quanto um ser humano com a missão possa distanciar-se de conflitos de interesses. Entretanto, a sua aplicação com os ajustes eventualmente efetuados em função de individualidades pode vir a ser colocada em segundo plano pelo o Paciente é soberano, com base no respeito ao direito de autonomia.

O diálogo entre saberes e o compromisso com valores, desejos, preferências e objetivos na beira do leito são essenciais para contextualizar o atendimento às necessidades de saúde da sociedade e realizar com respeito à dignidade humana.

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