388- Clínica soberana, tecnologia soberana, paciente soberano (Parte 1)

Soberania é poder forte que se destaca dos demais. Na Medicina contemporânea pode guardar relação com representações do ser humano, da técnico-ciência e do sistema de saúde, ângulos preponderantes e inseparáveis em qualquer atendimento e que admitem verdadeiro rodízio de hierarquia no mundo real. O conjunto, contudo, precisa guardar  o respeito a ética, haja vista o bombardeio pelos desafios técnicos e humanos, muitos, inclusive, com potencial transgressor dos fundamentos da chamada excelência em Medicina.

Tarefa nada fácil se desejamos a idealidade, sempre pode caber um ponto de interrogação contrapondo a um ponto de exclamação. É do cotidiano a manifestação de desacordos entre posicionamentos deontológicos e utilitaristas em meio a vieses instigantes de pensamentos, determinantes de maneiras que impedem que etiquetas de certo ou errado sejam autocolantes.

Sabemos da inconveniência de se estabelecer um poder absoluto na beira do leito, o que se aspira é o equilíbrio da tríade constitutiva acima mencionada antes as influências pelo racional e pelo emocional. É fato que a ascensão da autonomia sobre o paternalismo – determinando  uma manchete de aquela eticamente correta  e esta eticamente incorreta – observada no século passado colocou o componente humano representado pelo paciente no topo da tripla inter-relação e o instrumentalizou com o consentimento livre e esclarecido, um poder pleno irrefutável desde que inexista iminente risco de morte evitável- e diretiva antecipada de vontade para esta circunstância. Assim, felizmente, estabeleceu-se o direito de o paciente participar ativamente na tomada de decisão sobre a sua saúde, que, na verdade, não pode ser desconsiderado, sofre influência de terceiros – aconselhamentos heteronômicos para uma decisão autonômica de familiares e amigos-, como também do momento clínico e do disponibilizado, o que faz com que respeito à pessoa (visão social) do paciente seja expressão mais adequada do que respeito à autonomia (visão individual).

Evidentemente, complexidades dominam a distribuição de forças ao longo de um atendimento às necessidades de saúde do paciente e provocam as possibilidades de visão de soberania na técnico-ciência e no sistema de saúde, o que não é negação do direito ao respeito a sua pessoa (paciente no sentido de entrega com confiança na responsabilidade do profissional). Como consequência da  mobilização contra os exageros de um paternalismo forte que deixou o absolutismo de séculos para trás, o componente médico da representação humana sofreu mudanças na participação da resolução do caso. O Magister dixit de braços dados com a Achologia perderam espaço entre os profissionais da saúde- não necessariamente na sociedade em muitas culturas e regionalismos- e o termo evidência adquiriu novos significados. Além da captação de dados do paciente – sinal evidente- e da fundamentação pela vivência pessoal – memória de evidentes resultados acumulados-, incorporou conclusões de pesquisas clínicas, sempre que possível, bumerangues que saem com a questão da beira do leito e a ela retornam com uma orientação sistematizada.

A Medicina baseada em evidências e as diretrizes clínicas adquiriram força de poder na beira do leito,  que como qualquer poder, sofre impactos de conflitos de interesse de várias naturezas – em graus mais ou menos subjugadores-, que, em última forma, pretendem por meio de destaques de utilidade e de eficácia exercer uma soberania ligada à técnico-ciência (ênfase na inovação farmacológica e tecnológica).

É lícito considerar que o tirocínio da prudência na consideração dos benefícios e malefícios pelo médico contemporâneo ético e que culmina com a recomendação de tomada de decisão a ser apreciada no exercício do consentimento pelo paciente é balizado neste século XXI numa proporção instável entre a Clínica é soberana, a Tecnologia é soberana e o Paciente é soberano, em situações de emergência, urgência e eletividade. Uma realidade que não pode ser escondida debaixo do tapete da ética é apresentar ao paciente para um sim ou não uma seleção de opções – ou mesmo uma única- que omitiu possibilidades válidas por conflitos de interesses do médico, exercício de um paternalismo dissimulado ou razões de indisponibilidade do método ou da habilidade em praticá-lo.

Beiras do leito brasileiras convivem com cerca de cinco gerações de médicos, oportunidade ímpar para um diálogo que dê significância atualizada com realidades verde-amarelas a cada forma presumível de soberania.

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