Décadas de exercício profissional, que permitiram acompanhar o desenvolvimento prático da medicina baseada em evidências, não autorizam a demonização de condutas fundamentadas na experiência. Cada paciente é único, o que, por si só, limita generalizações, sempre no respeito às molduras éticas, morais e legais.
Mesmo sob rigor tecnocientífico, existe elasticidade inevitável na conduta à beira do leito. Possibilidades cogitáveis, surpresas clínicas, evidências conflitantes e, não raramente, posicionamentos do próprio paciente impõem ajustes. A eticidade desses ajustes depende de juízo prudente sobre a flexibilização do uso da evidência. A não maleficência atua como vigilante permanente do custo do benefício, particularmente no que se refere à qualidade de vida.
Há, contudo, um componente imutável na organização mental do médico: os sintomas e sinais apresentados pelo paciente — sua propriedade clínica — desde que colhidos de forma fidedigna e interpretados adequadamente. Paradoxalmente, essa composição descritiva e causal de fatos e dados é precisamente aquilo que precisa ser transformado por uma estratégia terapêutica, na qual incidem os princípios da beneficência e da não maleficência.
