O médico fala — o paciente escuta (e sente)
Para o médico, aquela conversa sobre tecnociência é rotina. O médico está mergulhado atento aos 90% submersos e o paciente relaciona-se tão somente aos 10% visíveis do iceberg. O médico é um profissional que estudou, o paciente é um leigo.
Para o paciente, pode ser um dos momentos mais importantes da sua vida.
O médico organiza a fala. Ajusta pausas, escolhe palavras, observa a linguagem corporal. Ele sabe o que vai dizer, mas não sabe como aquilo será recebido, um aspecto da comunicação que foi enfatizado pelo psicanalista Jacques-Marie Émile Lacan (1901- 1981): “você pode saber o que disse, mas nunca o que o outro escutou”.
Paciente e familiar esperam.
Querem ouvir algo que alivie — e temem o contrário.
É quase cinematográfico. Meio Hitchcock.
O médico sabe mais que o paciente, como o espectador sabe mais que o personagem. O suspense se constrói palavra por palavra.
Consentimento é processo, não assinatura
Idealmente, depois da explicação do médico ao paciente vem o diálogo: perguntas, respostas, ajustes.
Só então a conduta aplicável se transforma em conduta consentida.
Muitas vezes o processo pausa. Surge a segunda opinião. Conversa com a família. Pedido de tempo.
O problema é que hoje o tempo está curto.
Não temos tempo — somos tomados por ele.
E quanto mais opções a medicina oferece, mais difícil decidir.
Não é raro ouvir:
“Doutor, se fosse com o senhor?” Cada médico precisa definir uma resposta – padrão a ser dada de imediato. O princípio da autonomia foi incorporado à prática clínica justamente para evitar esta situação num modo que possa soar coercitivo.
