- Indeterminação, paradoxos e o trabalho intelectual da dúvida
Dúvida relaciona-se a pensamentos que se tornam autorreprodutivos numa sequência passo a passo que objetiva uma completação. É da autofagia da dúvida que sobressai a certeza. A memória que salpica o passado sobre a dúvida é um dos temperos, que muitos chamam de autoconfiança. Felizes aqueles que sabem saborear a dúvida nutritiva… como gourmet, não como glutão.
Dúvidas incluem indeterminações. O que se apresenta vago pode gerar pensamentos contrapostos que se atropelam em busca de um norte. Não faltam verbalizações na beira do leito que trazem indeterminações: o paciente apresentou uma melhora (o bastante para mudar o mau prognóstico?); o medicamento demora um pouco para fazer efeito (quanto tempo ainda o paciente sentirá a queixa?); precisamos baixar a pressão arterial (qual valor é suficiente para evitar uma consequência grave?).
Por isso, a conexão entre dúvida e indeterminação nos remete a Eubúlides de Mileto. O filósofo grego viveu no século IV a.C. e formulou o paradoxo de sorites (montes, em grego): considerando 1000 grãos como um monte, 999 ainda seriam um monte, 998 também; mas a partir de quantos grãos retirados não mais caracterizar-se-ia um monte? O bioamigo pode arbitrar em 483, outro em 397, e assim por diante — só vingará se tiver o poder de normatizar. Ou, então: quantos fios de cabelo devem cair de um cabeludo para que passe a careca? Nenhum consenso, sem dúvida.
A escrita tem o ponto de interrogação, a fala tem uma vocalização característica, e a linguagem corporal tem gestos e expressões de dúvida presentes. É vantajoso admitir na dúvida dois componentes: um sujeito interrogativo — o profissional da saúde — e um objeto imperativo — as necessidades de saúde do paciente — que se articulam com uma circunstância. Assim procedemos cotidianamente, limpador de para-brisas ligado para prosseguir ético frente à chuva de dúvidas.
