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1836- Bioética da Beira do Leito: a dúvida como instrumento de maturação profissional (Parte 1)

Ensaio para o jovem médico (e para quem ainda aprende com a beira do leito) 

  1. Formatura: alegria, começo e choque com o real

Bioamigo, formatura em medicina é sempre uma alegria. Toda uma experiência profissional pela frente. Perspectivas de muitas realizações. Integrar a bagagem pré-profissional numa comunidade profissional e nela amadurecer. Um processo de exploração individual e descobertas. 

Pensamentos e atuações a serem influenciados pelas experiências de vida de modo geral e pelos encontros sequentes com pacientes como fontes de dúvidas e com colegas como prestadores de esclarecimentos sobre as mesmas. O desenvolvimento de um estilo que lida com acertos, falhas, expansões e limites; capacitar-se para fazer questionamentos e analisá-los de modo crítico. A valorização dos altos níveis da expertise, da precisão, da clareza em meio a graus de impactos do contexto, do sentimento e de determinantes sociais. 

Pois é: o diploma marca que o mais complicado e difícil está apenas começando, e a aceleração das incertezas é rapidamente crescente na conexão medicina–paciente, ininterrupta pelas 24 horas de cada dia; inclui correr pelas dúvidas. 

Ademais, o médico lida com desafios éticos e sujeições a violações morais e precisa acomodá-los esgrimando com as próprias crenças e expectativas. Ele parte de uma situação de falta de costume e despreparo próximo à formatura e adquire familiaridade e treino justamente pelos enfrentamentos e, nas últimas décadas, pela ajuda da supervisão de colegas mais experientes na pós-graduação da Residência médica. 

A metáfora do médico como soldado atuando na linha de frente de uma batalha admite adeptos e opositores. Um aspecto favorece a admissibilidade: não faltam situações advindas de circunstâncias à margem do controle que corroem o bem-estar. O médico atuante na beira do leito conhece bem como são traumáticas para si as evoluções clínicas espontâneas ou pós-aplicação de conduta terapêutica que lembram guerrilhas, imprevisíveis e danosas, gerando tensão persistente. Assim como o soldado na guerra violenta-se a si próprio no combate ao inimigo obedecendo a ordens expressas e vem a sofrer de estresse pós-traumático, o médico está sujeito a contraposições profissionais que provocam profundo impacto no que entende como bem ou mal para as motivações de escolha da profissão, repercutem no seu bem-estar e arriscam ao burnout. Recorde-se o Princípio Fundamental VIII do Código de Ética Médica (2018): O médico não pode, em nenhuma circunstância ou sob nenhum pretexto, renunciar à sua liberdade profissional, nem permitir quaisquer restrições ou imposições que possam prejudicar a eficiência e a correção de seu trabalho. É alerta expresso desde o Código de Deontologia Médica (1984). 

A Faculdade de Medicina concede o diploma de conclusão, o CRM concede o número que representa a permissão da sociedade, a Ética concede a análise crítica das razões pelas quais deve-se atuar de certa maneira ou de outra; a beira do leito concede o mundo real, e a Bioética concede enriquecimentos ao juízo crítico. Diploma, número do CRM e crítica não são suficientes para as respostas às perguntas do mundo real. 

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