3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

39-Bioética-passaporte, médico sem fronteiras

medicos-sem-fronteiras
Médicos sem fronteiras
passapescaravelhoArtigo publicado na revista DOC               DOC Editora  Rio de Janeiro

Uma sincronicidade. Datada em 1971. Carl Gustav Jung (1875-1961) se interessaria. Um “escaravelho dourado” sonhado. Outro numa janela para o mundo.

Dois homens-época. O sonhador estadunidense van Rensselaer Potter (1911-2001) e o empreendedor francês Bernard Kouchner (nascido em 1939). Duas relações de significado. Benfeitorias para a Humanidade.

Potter preocupou-se com efeitos “desumanos” do progresso tecnológico em Medicina.  Publicou o livro Uma Ponte para o Futuro. Sexagenário, tornou-se Pai da Bioética.  Em 2005, a Bioética associou-se aos Direitos Humanos. Uma Declaração Universal da UNESCO.

Kouchner, três décadas mais jovem, criou os Médicos sem Fronteiras. Uma motivação de  bondade. Levou Medicina a carente por isolamento social e geográfico. A organização humanitária  mereceu o Prêmio Nobel da Paz de 1999.

vanRPotter
van Renssalaer Potter       (1911-2001)
Kouchner
Bernard Kouchner          nascido em 1939

Não há ligação aparente na superposição temporal. Pelas láureas enxerga-se, contudo, uma matriz comum. O significado do ser médico com humanismo. O destaque para a sinergia clássico e inovação em Medicina a serviço e à disposição do vulnerável. Destaque para o acolhimento ao sofrimento. Sob vários sentidos. Com um misto de arrojo e cautela.

Ponte e sem fronteira. Facilidade e liberdade de passagem. Condições para reflexão profissional. Caminho para rearranjo de sentidos de atuações. Potência para continuidade da tradição hipocrática. Geração a geração, herança atualizada. Os rumos? Infinitos!

O médico perpassa conjunções entre o saber técnico-científico, o comportamento humano e a estrutura socioeconômica. Intersecções são extensas e profundas. Em constante reconstrução. Matéria prima da Medicina, da Moral e de circunstâncias de Estado. Dilemas e conflitos rotineiros. Obstruintes às boas conduções. Salvo-condutos são bem-vindos.  Algum a destacar?

A Bioética. É um passaporte. Dá uma identidade. Reduz atritos. Impulsiona movimentos. Traça linhas de rascunho mental. Seleciona destinos aceitáveis. Provê sentidos à pluralidade de necessidades do paciente. Em cenários mutáveis.

A Bioética-passaporte é porte forte. Facilita o tráfego por entre sucessões, superposições e colisões de dados, fatos e pensamentos. Reafirma que cada caso tem as próprias impressões digitais. Dá vida à resolução que parte da ciência e transita pela ética. Reprova a transformação simplista da Saúde em bem de mercado. Alerta para as inconveniências do maniqueísmo na translação do fundamento científico. Endossa que “verdades” da ciência reunidas em diretrizes clínicas ditam o momento do estado da arte. Adverte, no entanto, que elas não cabem como instrumentos coletivos de não liberdade para o paciente. Aceita-as como recurso para convencimento do paciente, mas afasta-as da coerção pelo médico. Indica que entendimentos de “obrigação a fazer” pelo médico – emergência à parte- não devem sobrepujar o direito do paciente ao livre-arbítrio.  Ciência em equilíbrio com a Ética.

A Bioética-passaporte reforça, pois, que não basta a vontade bem fundamentada para que o médico se sinta com liberdade de dar continuidade a uma recomendação. Ele só passa a estar livre quando o consentimento do paciente o coloca na  execução autorizada.

Os caminhos da ciência e da ética entrecruzam-se na beira do leito – como metáfora integrativa do físico das pessoas, da mente em atividade e dos produtos criados (fármacos, aparelhos, normas, etc…) no âmbito da Medicina. Conjuntura adequada ao uso da Bioética-passaporte. A aplicabilidade confere o valor. O número de inscrição do médico no CRM acresce autenticidade perante a sociedade. A conjugação com a Deontologia atapeta os rumos dos deveres profissionais.

Idas e vindas por fronteiras não faltam na beira do leito. Cruzamentos entre conhecimento, habilidade, humanismo, sistema de saúde e instituição de assistência, ensino e pesquisa. Não há cotidiano da beira do leito sem trânsito por combinações destas fronteiras.

O vai-e-vem entre o conhecimento e a habilidade exige trânsito livre. Uma via dupla. Para um lado a atualização sobre o útil e o eficaz para as doenças. Ao mesmo tempo, o trânsito da noção de que o benefício conceitual não é suficiente. Para o outro lado, o ganho da expertise na aplicação para a individualidade dos pacientes. Carregada de manobras de ajustes aos riscos de adversidades. A Bioética-passaporte viabilizando a prudência da segurança e o zelo em por em prática.

Experiências da pesquisa e da vivência assistencial. Uma roda viva de informações clínicas  e científicas marco da Medicina moderna. Aquela que é baseada em Evidências. A soma torna as probabilidades mais realísticas às incertezas da Medicina. A Bioética-passaporte dá medidas para a excelência incorporadora. Facilita redirecionamentos de conduta na beira do leito. Os provocados por tipos de morbidades, distinções de preferências e preservações de valores.

O sistema de saúde e as instituições de Saúde proporcionam infraestrutura imprescindível. Retumbam, não obstante, conflitos com prescrições da beira do leito. A Bioética-passaporte dá circulação ao diálogo que se pretende conciliatório pelas fronteiras da beira do leito com gabinetes administrativos. Realce para a alocação de recursos. Desafio capital- literalmente.

A beira do leito é campo de forças da natureza humana. Vigor para eficácia de métodos criados pelo homem e eficiência no corpo do Homo sapiens. A Bioética-passaporte azeita movimentos e contra movimentos para fins superiores de dignidade. Emergidos do direito do paciente- conquista da sociedade- de participar ativamente de decisões sobre a própria Saúde. Verbalizado na beira do leito como autonomia, consentimento livre e esclarecido. Sustentado num imperativo categórico.

Beira do leito é indispensável. Fronteira é inevitável. Bioética-passaporte é desejável. Perspectiva de fluidez com a responsabilidade da aliança de pessoas cuidando de pessoas.

 

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts