Normatizações, heterogeneidade e limites da padronização
Normatizações sobre fazer ou não fazer em determinado momento admitem, inevitavelmente, heterogeneidades de conduta. Essas decorrem tanto da personalização da história natural — há diabéticos muito distintos entre si — quanto da história modificada por intervenções: hábitos, terapêutica farmacológica, procedimentos invasivos.
Enquanto a Medicina personalizada ainda não alcança plenamente a beira do leito em seu máximo vigor, as condutas éticas baseiam-se numa concepção de benefício global sustentada por evidências científicas e ajustada pela avaliação de segurança individual. Praticam-se desde estratégias de watchful waiting até intervenções de grande porte, idealmente referendadas por estudos que demonstram maioria de sucesso.
Contudo, a estatística valida a maioria; o indivíduo permanece exposto à exceção.
O insucesso e o dilema do “não era o momento”
O insucesso pode admitir a interpretação de que determinada conduta não deveria ter sido praticada naquele paciente específico, embora seja habitual e validada para pacientes em geral. Trata-se da situação do “não era o momento”, que remete à própria lógica da pesquisa clínica: nem todos se beneficiam de uma mesma intervenção nos mesmos tempos.
O problema ético surge quando o não fazer — prudente, contextualizado e tecnicamente justificável — se torna passível de ser interpretado como negligência. Nem sempre há critérios claros, consensuados e socialmente legitimados para sustentar a decisão de não intervir, sobretudo quando a intervenção é considerada “anatomicamente corretiva”.
Inovação, mundo real e frustrações sucessivas
A fase de mercado das inovações médicas amplia ainda mais esse dilema. Quando uma tecnologia ou procedimento atinge subgrupos não plenamente contemplados ou até excluídos dos estudos originais, o mundo real passa a revelar frustrações, dúvidas e interrogações. Novas evidências surgem, frequentemente em contraposição às anteriores, gerando revisões contínuas de condutas.
Todas as especialidades médicas vivenciam, em maior ou menor grau, esse carrossel de recomendações. Já não existe o conforto temporal que permitia aguardar a próxima edição de um grande tratado de medicina.
