4456

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1978 – Bioética do Momento: Prudência, Incerteza e a Liberdade de Não Fazer (Parte 2)

Normatizações, heterogeneidade e limites da padronização

Normatizações sobre fazer ou não fazer em determinado momento admitem, inevitavelmente, heterogeneidades de conduta. Essas decorrem tanto da personalização da história natural — há diabéticos muito distintos entre si — quanto da história modificada por intervenções: hábitos, terapêutica farmacológica, procedimentos invasivos.

Enquanto a Medicina personalizada ainda não alcança plenamente a beira do leito em seu máximo vigor, as condutas éticas baseiam-se numa concepção de benefício global sustentada por evidências científicas e ajustada pela avaliação de segurança individual. Praticam-se desde estratégias de watchful waiting até intervenções de grande porte, idealmente referendadas por estudos que demonstram maioria de sucesso.

Contudo, a estatística valida a maioria; o indivíduo permanece exposto à exceção.

O insucesso e o dilema do “não era o momento”

O insucesso pode admitir a interpretação de que determinada conduta não deveria ter sido praticada naquele paciente específico, embora seja habitual e validada para pacientes em geral. Trata-se da situação do “não era o momento”, que remete à própria lógica da pesquisa clínica: nem todos se beneficiam de uma mesma intervenção nos mesmos tempos.

O problema ético surge quando o não fazer — prudente, contextualizado e tecnicamente justificável — se torna passível de ser interpretado como negligência. Nem sempre há critérios claros, consensuados e socialmente legitimados para sustentar a decisão de não intervir, sobretudo quando a intervenção é considerada “anatomicamente corretiva”.

Inovação, mundo real e frustrações sucessivas

A fase de mercado das inovações médicas amplia ainda mais esse dilema. Quando uma tecnologia ou procedimento atinge subgrupos não plenamente contemplados ou até excluídos dos estudos originais, o mundo real passa a revelar frustrações, dúvidas e interrogações. Novas evidências surgem, frequentemente em contraposição às anteriores, gerando revisões contínuas de condutas.

Todas as especialidades médicas vivenciam, em maior ou menor grau, esse carrossel de recomendações. Já não existe o conforto temporal que permitia aguardar a próxima edição de um grande tratado de medicina.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts