Na beira do leito, ao contrário de algumas situações, o silêncio não costuma fazer bem. Quando médico e paciente deixam de falar e de ouvir, algo essencial da medicina simplesmente desaparece.
Isso não é novidade entre nós. Desde 1929, o primeiro Código de Moral Médica no Brasil já manifestava essa preocupação: o paciente precisa contar, com clareza, o que sente e o que acha que está acontecendo. Guardar informação só atrapalha. Comunicação faz parte do cuidado.
E, anos depois, o Velho Guerreiro resumiu tudo numa frase imortal: “Quem não se comunica, se trumbica!”
Chacrinha quase foi médico, cursou dois anos de faculdade. Talvez por isso tenha acertado tanto.
Medicina é coprodução
Por mais avançada que seja a tecnociência, ela nunca resolve tudo sozinha. Sempre há espaços. E quem preenche esses espaços inclui o paciente. Palavra, escuta e troca fazem parte do tratamento. Desde o Oráculo de Delfos que Hipócrates (460 aC – 370 aC) aposentou para o “exercício da medicina”.
A ideia de uma fórmula única, total, que dê conta de qualquer conexão médico – paciente não se sustenta. Os efeitos humanos do uso, do não uso — ou do uso excessivo — dos métodos são amplos demais. Por isso, na prática clínica, é essencial segundo a Bioética da Beira do leito:
- falar,
- ouvir,
- ouvir-se falando (para não dominar o diálogo, tornando-o monólogo),
- e perceber se está mesmo ouvindo (para não se distrair).
A Bioética da Beira do leito enfatiza que o atendimento começa habitualmente com o médico ouvindo a queixa principal e a anamnese livre e que já na anamnese complementar dirigida é importante ouvir-se falar e ouvir-se ouvir. O cuidado amplia-se, por exemplo, quando da recomendação diagnóstica, terapêutica ou preventiva.
A Bioética da Beira do leito alerta que o médico precisa treinar para os pensamentos que costumam acontecer a partir das falas do paciente em qualquer ocasião não comprometa a atenção dialógica.
