- A dúvida como ferramenta: prudência, identidade e coragem moral
Modelos heterogêneos de atitudes se apresentam sucessivamente ao jovem médico e têm o efeito oscilatório de cabeça a que uma partida de tênis obriga a quem assiste no local: um verdadeiro pêndulo na aceleração da bolinha. Fixações requerem a força do exemplo para arrumar o interior do jovem médico, um ser humano ainda admissível como célula-tronco totipotente… quase.
A dúvida jamais abandona o médico – e os profissionais da saúde de modo geral. Quantas dúvidas não são sucedidas por um decidido bater do carimbo… A dúvida revela-se instrumento imprescindível para refinar a identidade profissional desde a formatura até a aposentadoria, inclusive atua até nas férias.
Dúvidas na beira do leito são inevitáveis porque se constituem vigilantes da qualidade do desempenho e qualificam-se como matérias-primas para a construção da segurança profissional. Recordemos Francis Bacon (1561–1626): Se um homem começar com certezas, ele deverá terminar em dúvidas; mas se ele se satisfizer em começar com dúvidas, ele deverá terminar em certezas.
Não fugir das dúvidas, enfrentá-las com disposição e ferramentas adequadas, revela e reforça a coragem moral que todo profissional da saúde não pode dispensar na beira do leito frente às necessidades e às adversidades.
A Bioética da Beira do Leito tem todo o interesse em cooperar com o jovem médico na decodificação ética/moral/legal das mensagens-dúvidas que o ecossistema da beira do leito lhe envia ininterruptamente, especialmente as advindas do paciente/familiar e dos circunstantes profissionais da saúde. O eu, me tira uma dúvida minha! é o mais frequente solilóquio do médico na beira do leito.
Tudo bem claro, tudo certo! É um ideal admitido que o ecossistema da beira do leito insiste em contrapor-se por contínuos desafios à competência profissional contemporânea. Obscuridades e incertezas são como trem-fantasma: um susto em cada curva, um inevitável no cotidiano dos profissionais da saúde. Exagero, bioamigo? Pode ser, mas a beira do leito contemporânea está cheia de muros, fato que exige pintá-los com cores fortes.
Nenhum médico – e profissionais da saúde de maneira geral –, por mais experiente que seja, pode descontrair-se e isentar-se das dúvidas em processos de tomada de decisão caso não pretenda abdicar do desempenho consonante com o estado da arte e com as individualidades dos (a)casos clínicos. Ignorar dúvidas pode vir a representar forte desrespeito à prudência.
Dúvidas na beira do leito, entendidas como incertezas subjetivas, admitem as de período pré-decisional — que se apresentam no decorrer das múltiplas escolhas — e as de período pós-decisional — as porventura herdadas da decisão e as que emergem durante ou após os efeitos do decidido. Esta última categoria é tradicionalmente útil na beira do leito, pois contribui sobremaneira para reciclar sobre o contraditório nas bases resolutivas e evitar repetições de lamentos da decisão.
Dúvida é daqueles termos que chamar é fácil; conversar sobre ele é difícil. Faz parte da ordem natural das coisas. Admite o Sempre alerta dos escoteiros. Resolver dúvidas compõe o compromisso da boa ação diária.
O indubitável existe — sem dúvida. Mas, dependendo da rigidez de apreciação sobre a circunstância, pode ser areia movediça na beira do leito contemporânea. Como se sabe, enganos dos sentidos, contaminações por sonhos e conceitos arraigados podem produzir falsas certezas; razão para o plantão permanente da dúvida na beira do leito. O olhar penetrante e perscrutador da dúvida é sempre bem-vindo, por mais que possa nos martirizar.
Especialistas afirmam que memória e imaginação ocupam o mesmo sistema na mente. A memória não é um gravador do passado: é um transporte para uma viagem mental no tempo que pode não se mostrar fidelíssima ao passado e servir a necessidades do momento. Falsas memórias, ilusões e distorções podem ocorrer na conexão médico–paciente — por exemplo, no relato do paciente durante a anamnese —, situações que tradicionalmente valorizam os registros em prontuário para resgate de fatos e dados.
Bioamigo, por falar em escoteiro e em rigidez de apreciação, é pedagógico repercutir Millôr Fernandes (1924–2017): um escoteiro viu um idoso apressando-se para pegar o ônibus já prestes a sair do ponto e, na intenção da boa ação do dia, atiçou o seu cão contra o idoso, que correu desesperadamente… e conseguiu pegar o ônibus. No aspecto de “foi bom para quem?”, presta-se para analogia com a integração nem sempre fácil entre os princípios da Bioética: beneficência (pegar o ônibus), não maleficência (efeitos da corrida desesperada num idoso), autonomia (ele assim desejava?).
