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1806 — Um modo Bioética de enxergar a tecnociência aplicada ao paciente (Parte 8)

Se é verdade que o médico sabe muito mais sobre medicina e, portanto sobre o paciente como portador de uma moléstia, dominando uma prioritária finalidade de preservação de aspectos de qualidade de vida e sobrevida, também é verdade que é o paciente quem mais sabe sobre si próprio, sobre sua visão de vida. A conexão médico – paciente é conexão de duas biografias em todos os casos, uma razão de constar no Código de Ética Médica vigente termos como honra, dignidade, ditames de consciência e decidir livremente.

A livre decisão pelo paciente subentende ser adulto e encontrar-se cognitivamente capaz. Em função da possibilidade de o paciente vir a se tornar incapaz, a criação do documento Diretiva Antecipada de Vontade permite que ao se tornar incapaz, eventualmente, seu direito ao princípio da autonomia seja mantido – a voz ativa antecipada por escrito -, ou seja,  suas vontades a respeito da recepção de métodos ali expressas para serem obedecidas, até mesmo quando possam representar maleficência para a circunstância clínica. Mas, também, evitação de situações que poderiam ser entendidas como obstinação terapêutica.

Por favor, não se pretende posicionar a Bioética da Beira do leito capaz de funcionar como oráculo sobre como cada um deve se comportar com excelência ética, moral e legal, até porque ela atua mais na descrição – contribui para caracterizar o que acontece e poderá acontecer de modo amplo – do que na prescrição – aplicar uma solução pronta.

A Bioética confere um status à circunstância, promove retroceder para bem compor a situação e ajuda a avançar. Igualmente, ela não é uma vacina que imuniza o médico contra perda da boa imagem profissional, no entanto, coopera fortemente para a preservação da mesma, para a criação de anticorpos contra inconveniências produtoras de máculas profissionais.

Geração de médicos após geração, ilícitos éticos e morais hoje observados tendem a comprometer o futuro do profissional, bem como acontecidos no passado agora tardiamente revelados provocam requalificações – algo como a produção de uma viagem no tempo passado que muda a reputação e faz surgir uma “pessoa diferente” numa “piora” da biografia. Quem é que deseja? Há a obra e há o caráter.

O ideal do bom caráter nem sempre está presente numa competência tecnocientífica. O compromisso com fundamentos morais que também sustentam a Bioética, repito, não é uma vacina, mas tê-los como orientadores é auxílio protetivo para não se envolver com acusações e processos disciplinares.

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