As quedas de conexão quando os dois elementos da relação ficam enredados num hiato devem ser apreciadas como manifestações de distintos pensamentos ou de distintos sentimentos? Por parte do médico, a apreciação da sua recomendação que é recusada pelo paciente deve situá-la como resultante de um pensamento ético ou de um sentimento moral? De ambos? Qual deles favorece o afastamento e qual deles é mais impositivo para o reatamento? O certo é que qualquer um deles impede que o médico dê de ombros quando a sente a recusa do paciente como um golpe na sua autoestima.
Pensar é abrangente, faz ver os lados da questão, sentir é restrito, reducionista, etiqueta, marginaliza a abertura e a tolerância, muito embora tende a isolar a opinião em si, evita julgar o outro. Desconexões entre o absoluto do prognóstico formulado pela tecnociência via médico e motivadora da beneficência e o absoluto do desejo do paciente respaldado no direito ao princípio da autonomia ao comprometerem a idealidade do padronizado – medicina baseada em evidências – são munição em maior ou menor escala para conflitos em função do predomínio ora do predomínio do pensamento ético articulado à deontologia ora do sentimento moral articulado ao humanismo.
Método tecnocientífico indicado e não aplicado sem justificativa aceitável causa uma avaliação de negligência profissional quando ele está consentido pelo paciente. De modo oposto, a situação é considerada prudência profissional quando ele não é consentido pelo paciente. Cada caso admite discussões que costumam trazer duelos entre opiniões divergentes, de um lado a força do nível de gravidade da situação clínica e o risco à sobrevida e de outro a força do direito do paciente de se recusar a ser submetido.
Neste contexto, recentemente, um parecer do Supremo Tribunal Federal considerou que a recusa de paciente Testemunha de Jeová a receber transfusão de sangue deve ser respeitada pelo médico ainda que sob risco de morte. A Bioética da Beira do leito entende que a ressalva salvo em caso de iminente risco de morte constante em artigos do Código de Ética Médica vigente fica, por isso, sujeita a ser apontada como inoperante qualquer que seja situação clínica.
É curioso como conexões médico – paciente que ocorrem na atualidade do ecossistema da beira do leito estruturam-se com simultaneidade entre estímulos ao exercício da autonomia pelo paciente e desestímulos ao comportamento autônomo do médico, acorrentado que o profissional fica ás atualizações de diretrizes clínicas.
