Cada inovação revive Pandora na beira do leito, exige o rascunho da pesquisa, demanda o uso de lápis e borracha inclusive na fase dita de mercado. Maleficências tornaram-se adversidades a beneficências a serem evitadas ou toleradas/prevenidas numa avaliação crítica e individualizada de risco benefício. O constante progresso de métodos “aposentou” voos cegos representados por conduta heroica e por conduta exploradora. Esclarecedoras imagens do corpo do paciente ressaltando uma boa imagem do médico. A redução da chance de maleficências serem identificadas após uso rotineiro, como aconteceu com a radiografia e com certos fármacos.
O raio X é passível de danos ao feto, contraste iodado arrisca dano renal, fármacos provocam inúmeras possibilidades de danos a órgãos. O século XX foi o mestre da lição que liberação ou impedimento da aplicação de métodos podem ser sustentados por distintas justificativas no âmbito da conexão médico-paciente. O reforço que a aplicação – ou não – da tecnociência envolve arte, comunicações, simbolismos.
O uso judicioso de diretrizes clínicas implica em atenção a ajustes à condição humana. A racionalidade fica sujeita a questionamentos quando se observam efeitos placebos e nocebos. A primeira vez que ouvi sobre estes termos foi ainda na faculdade ouvi do professor: “Por que não é a água que ajuda a deglutição e não o comprimido que faz o efeito que se deseja?”. Não compreendemos, achamos impensável tal suposição, mas o cotidiano da beira do leito ensinou sobre expectativa, sobre como devemos estar sempre abertos a quaisquer possibilidades, mesmo altamente absurdas.
Observa-se tendência atual nos processos de tomada de decisão para maior peso de aspectos metafísicos em meio a perspectivas funcionais, mais equilíbrio entre utilidade e eficácia da tecnociência e aspectos da dignidade da pessoa. O avanço da noção que êxito técnico e respeito à dignidade devem caminhar juntos.
A Bioética contribui para a conscientização que responsabilidade profissional com os vários ângulos intervenientes que afetam a pessoa do paciente em dimensões física, psíquica, afetiva, social, familiar e espiritual. Auxilia a ponderar sobre o quanto métodos disponíveis podem exercer influências de fato positivas sobre desejos de super bem-estar e hiperlongevidade, latentes na humanidade.
Além do respeito a indicações, não indicações e contraindicações manejado pelo médico, aplicar ou não aplicar métodos conceitualmente beneficentes às especificidades de cada caso convive contemporaneamente com o direito do paciente de emitir voz ativa sobre sua concordância ou não, o chamado consentimento livre, esclarecido, renovável e revogável. Bom para quem? É indagação que se tornou necessária na conexão médico paciente.
