3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

874- Na beira do tempo

Bioamigo, o conceito de tempo é muito importante  para a Bioética da Beira do leito, especialmente o que a ele se refere como “sentido” de modo distinto por cada pessoa e pela mesma em circunstâncias diferentes (Albert Einstein, 1879 –1955) e o que a ele se refere como adquirido no âmbito social por um processo de aprendizagem, geração após geração (Norbert Elias, 1897-1990).

TempoHá um aprendizado profissional a respeito do tempo necessário para o médico integrar eficácia tecnocientífica e humanismo nas proporções adequadas. É essencial o reconhecimento profissional que há sensibilidades distintas nos pacientes acerca do tempo da atenção recebida.

Cálculos sobre o tempo quantum satis em cada atendimento na beira do leito dificilmente sustentam-se numa uniformidade. Os dois seres humanos da conexão médico-paciente não devem ignorar a movimentação implacável dos ponteiros do relógio, porém, suas interações não podem ser por eles rigidamente controladas. A fixação ao tempo do relógio é mutiladora da formulação e reformulação das oportunidades resolutivas porque limita os vaivéns energizados pelas incertezas e ansiedades.

A militância em Bioética da Beira do leito enfatiza que é insuficiente satisfazer-se com o tempo medido pelo número de minutos de consulta, dias para cumprir uma receita, período de internação hospitalar ou época para retorno ambulatorial. É da medicina considerar o tempo qualitativo, específico para cada circunstância e alinhado à consciência profissional. Cada especialidade lida com o tempo a sua maneira. Há consultas, há visitas, há sessões, há procedimentos.

Num único dia, uma beira do leito pode conviver com distintas necessidades temporais relevantes para o raciocínio clínico e a decisão de conduta:

  1. Tempo da anamnese – representativo do passado e do presente;
  2. Tempo do exame físico-  representativo do presente;
  3. Tempo dos exames complementares;
  4. Tempo para consulta à literatura;
  5. Tempo para construção do raciocínio clínico;
  6. Tempo para um diagnóstico definitivo;
  7. Tempo para aplicação da conduta- eletivo, urgência e emergência;
  8. Tempo para uma observação clínica;
  9. Tempo para uma resposta terapêutica;
  10. Tempo para providências de infraestrutura;
  11. Tempo para esclarecimentos ao paciente/familiar;
  12. Tempo para a manifestação do consentimento pelo paciente.

O médico, como intercessor entre a medicina e o paciente, usa na interface da medicina sua competência (conhecimentos, habilidades e atitudes) e na interface do paciente considera-o como emissor de dados e fatos e receptor de métodos.

As necessárias disponibilidade de tempo quantitativo e estruturação de tempo qualitativo são facilitadas pela organização das tarefas segundo os significados dos princípios bioéticos da beneficência, não maleficência e autonomia.

Os princípios da Bioética reforçam a tradição de fundir passado, presente e futuro do paciente no desenvolvimento dos atendimentos. São úteis para o aproveitamento do título Uma Ponte para o Futuro do livro de  Van Rensselaer Potter (1911-2001) no contexto da beira do leito.

Princípio da Beneficência- Benefícios na beira do leito podem se referir a reversões do tempo de um mal presente ou a restringir o tempo de influência de fatores de risco. A primeira conotação alinha-se com a terapêutica – uma antibioticoterapia faz a bactéria ter seu tempo etiopatogênico abreviado- e a segunda com a prevenção – uma mudança de hábito (carga tabágica, por exemplo, é a multiplicação do número de maços fumados por dia pelo número de anos de tabagismo). Um aspecto temporal ligado à Beneficência é que o tempo passado exerce influência no grau de benefício cogitável. De fato, o presente clínico pode estar tão afetado pelo passado que não permite à medicina beneficiar o futuro do paciente além de um limite, quer para qualidade de vida, quer para sobrevida. Em outras palavras, o potencial (Beneficência) de realização (benefício) é influenciado pelo tempo quantitativo e pode ser, eventualmente, modulado pelo tempo qualitativo. A prudência pode favorecer e a negligência pode desfavorecer o tempo das realizações. Temas de alto interesse da Bioética da Beira do leito como terminalidade da vida, futilidade terapêutica e alocação de recursos articulam-se com a inter relação entre tempo e beneficência. Ponto de referência para a validade da mobilização da Bioética na beira do leito é a construção do pensamento: o passado já era (no sentido de tempo imutável) mas ainda é (forte influência temporal); o presente é vitrine que dá a motivação para o uso do tempo; o futuro é o tempo que exige as responsabilidades profissionais de ordem moral, ética e legal. A impossibilidade de utilização de um tempo beneficente- quantitativo ou qualitativo- pode provocar uma resignação como na terminalidade da vida (Princípio fundamental XXII do Código de Ética Médica vigente: Nas situações clínicas irreversíveis e terminais, o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados) ou uma indignação por eventual carência de recursos (Direito III do Código de Ética Médica vigente: Apontar falhas em normas, contratos e práticas internas das instituições em que trabalhe quando as julgar indignas do exercício da profissão ou prejudiciais a si mesmo, ao paciente ou a terceiros).

Princípio da Não Maleficência – Evitar malefício pode se referir a ajustes na beneficência ou tão somente a questões de segurança do paciente. Ajustar uma dose terapêutica perante insuficiência renal exemplifica o primeiro e um checklist no centro cirúrgico ilustra o segundo. Enquanto que a beneficência liga-se mais ao tempo quantitativo – sem desprezo ao qualitativo-  a não maleficência abraça-se ao tempo qualitativo. Qualidade de uso do tempo para evitar desperdício de recursos (tempo é dinheiro) e consumo indevido do prognóstico (tempo é prognóstico).

Princípio da Autonomia- O direito à autonomia foi a conquista pelo paciente de um tempo decisório para si. Um tempo ético e legal. Um tempo indispensável para quem torna-se um agente moral na conexão médico-paciente. O tempo quantitativo da autonomia pode ser nenhum na emergência e infinito na eletividade. O tempo qualitativo decisório é influenciado pela capacidade cognitiva e pela matéria-prima dos esclarecimentos. O exíguo segundo como o período de tempo necessário para verbalizar as sílabas Sim ou o Não, arrisco-me a conjecturar que nos alerta que na beira do leito se por um lado o tempo voa, por outro lado o paciente é copiloto.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts