3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

569- Liberdade na beira do leito

Conexão BLlivroO médico tem liberdade para conhecer medicina de modo diversificado e aprofundado frequentando locais de produção do conhecimento, lendo, trocando informações. Mas, ele deve restringir a aplicação da medicina aos limites do rigor profissional em relação ao cientificamente validado, especialmente, quando sustentado por evidências resultantes de pesquisas qualificadas. Ao mesmo tempo, ele não deve embotar a criatividade para flexibilidades de atitude.

Uma justa medida entre responsabilidade com o disponível da medicina e liberdade para efetiva aplicação é sustentada pela habilidade do médico em fazer as perguntas certas para o paciente- anamnese e por meio de exames- e para si próprio (raciocínio clínico).

O compromisso do médico com o atendimento às necessidades do paciente representa um entrave à liberdade total de se envolver com medicina, não exatamente ao pensamento em si, mas à condução que fica sujeita a regramentos validados pela tecnociência  e pela sociedade. Por isso, não há liberdade absoluta do médico para selecionar perguntas- direta ou indiretamente-, por mais que possa haver curiosidade sobre multiplicidades do presente e do passado do paciente, pois os questionamentos, focados nas circunstâncias, estão previstos pelo treinamento – formação profissional e ganho de experiência. Simplificando, a queixa principal determina as amplitudes de interfaces com a vastidão da medicina.

O quantum de liberdade nos quesitos abrangidos pelo médico em cada caso está balizado pelos princípios da Bioética nomeados como beneficência e não maleficência. É preciso capacitar-se para fazer as perguntas certas para tanto chegar ao útil e eficaz quanto identificar obstáculos à segurança biológica do paciente (adversidades previsíveis). Ademais, existe uma pergunta mais do que certa, pois é etica, moral e legalmente obrigatória: “… O (a) senhor (a) dá o seu consentimento?…”.

Já o paciente tem, por assim dizer, bem maior liberdade, evidentemente, sujeito às consequências de seus comportamentos, vale dizer, responsabilidade por seus atos. O paciente pode, não somente, aderir totalmente aos preceitos da medicina, como também, se sentir livre para mentir ao médico, omitir informações, recusar orientações. Ou seja, enquanto o médico deve fazer perguntas certas, o paciente pode não devolver resposta certa.

Mas o que seria resposta certa? Há a relacionada a um fato, a um dado, que facilita o enquadramento numa verdade ou não. Mentir sobre sintomas, omitir sobre descumprimento de prescrição, escapulir são ilustrativos.  Entretanto, recusar ser submetido a um procedimento apesar da sua forte influência sobre o prognóstico, pode ser “errado” na óptica profissional tecnocientífica, mas como é um direito do paciente – direito à autonomia- não pode ser assim rotineiramente rotulado. Haverá motivos para o não consentimento, algo na conta do foro íntimo do paciente.

Cabe à Bioética alertar o médico que sua expectativa pelo consentimento do paciente a sua rigorosa recomendação não deve representar uma “cognição dogmática” sobre se tratar da resposta certa em função de suas perguntas certas. É preciso estar preparado e tolerante para pensamentos do paciente longe da mesma cristalização tecnocientífica, ou seja para uma elasticidade de respostas que demanda exercícios de flexibilizações de atitudes. Em outras palavras, a natureza humana da relação médico-paciente admite ângulos de visão do paciente afora da ordem linear preconizada pelo profissionalismo majoritariamente beneficente e minoritariamente maleficente (boa relação risco-benefício).

Perante o não consentimento do paciente, é tarefa do médico estimulada pela Bioética da Beira do leito avaliar se cabe entendê-lo como provisório e, caso assim seja, procurar sem proibições e coerções reverter a negativa, ou seja, reformular as perguntas certas cabíveis a fim de contribuir para eventuais ajustes “corretivos” de interação entre racionalidade e emoções (em excesso, em geral) como resposta por parte do paciente.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts