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548- Bioética intercessora entre o poder da Medicina e a terminalidade da vida (parte 1)

Reunião clínica é uma entidade. Guia comunicação que orienta e aconselha. Na academia da Medicina, promove a ginástica de neurônio que transforma massa gorda de informações em massa enxuta de conhecimentos. Recomendação contra o sedentarismo intelectual!

É re-união de domínios de saberes e sabedorias que revela, esclarece e prepara. Conecta a fria independência da Medicina como ciência à tensa dependência da condição humana. Encaminha o ritual pedagógico de uma geração educa a outra, renovando o valor do colegiado. Direciona o vaivém entre irreversibilidades, transitoriedades e resolutibilidades. Harmoniza espontaneidades com deveres e direitos. Reforça a virtude da prudência no trato com a vulnerabilidade humana. Afirma que contradições podem ser instrutivas. Múltiplas vozes abordam sobre a coisificação e a decoisificação do ser humano na área da saúde.

É lápis e borracha, a versão do caso acontece e apetece um redesenho de como deveria. Olha o passado enxergando um futuro. Destaca lacunas para investir preenchimentos. Modifica expectativas vislumbrando alternativas. Momentos no piloto automático e momentos “balão de ensaio” além da risca da régua.  Na observação do outro motiva a revisão de si próprio. Plantação, adubagem e colheita!

Se houver necessidade de um atestado sobre a contrapartida popular de uma reunião clínica, lembre-se que seu conteúdo pode ser associado a três ícones da publicidade brasileira que foram absorvidos no cotidiano: mil e uma utilidades, eu serei você amanhã e o primeiro ninguém esquece.  E que gosto de levar vantagem em tudo, certo! não cabe no ecossistema da beira do leito.

No calendário do desenvolvimento científico e tecnológico, o tempo qualitativo supera o quantitativo. Acelerações nas bancadas requerem sobreavisos sobre freios na manipulação não cidadã da tecnociência. No século XX, aqui e acolá, consciências profissionais fizeram previsões de novos tempos, onde o poder do ser humano em nome do progresso na área da saúde poderia estar prejudicando a ética e o meio ambiente das futuras gerações. Era preciso equilibrar a “estranha” cultura cientificista e tecnicista com a cidadania “comum”, evitar questionados malefícios sem anular visíveis benefícios. Demandava achar os significados dos limites entre objetividades e subjetividades e, assim, vivenciar conciliações que não inibissem os estímulos produtores de conhecimento e, ao mesmo tempo, não desconsiderassem o modo de ver as reações. Uma ponte com duas vias de direção seria útil!

A inspiração dos pioneiros concebeu a Bioética. Certidões de nascimentos multiplicaram-se pelo planeta oficializando (o seu) e promovendo (a humanidade) o direito à vida. A Bioética passou a fazer parte da família da reunião clínica. Como reconhecer um membro? Ele tem pendurado no pescoço… um estetoscópio moral. Ausculta, faz diagnóstico diferencial, aponta caminhos. Percebo que grande parte dos médicos tem um, utiliza-se dele e não se apercebe que é pratica da bioética. Considero que há uma bioética “atávica” no estar médico que precisa ser identificada, exteriorizada e lapidada. Cabe àqueles que cuidam mais diretamente da Bioética cooperar para que cada colega encontre suas potencialidades bioéticas eventualmente adormecidas. Mãos à obra!

O termo reunião subentende diversidade de arranjos. Esta característica superpõe Bioética clínica e caleidoscópio. Há o denominador comum da observação que mesmas matérias-primas criam distintos “coloridos” de combinações. Por isso, reunião no entorno da Bioética reproduz um caleidoscópio. Primeiro, porque re-une fragmentos da prática médica (bioética do cotidiano), dos códigos (bioética deontológica) e a bioética de fronteira (nascimento, morte). Depois, porque pequenos movimentos transdisciplinares do ponto de visão diversificam e recompõem ideias e orientações. Por fim, é difícil- praticamente impossível- após a primeira mexida voltar ao inicial.

A sucessão de reunião promove a ainda tímida capilarização da Bioética no ecossistema da beira do leito. Escancara as entranhas, perfura bloqueios, promove identificações com necessidades perante desarmonias  e estimula renúncias a preconceitos.  Contribui, assim, para o manejo do expresso no pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer (1788-1860): Verdades passam por três estágios: primeiro são ridicularizadas, depois são contrariadas veementemente e por fim, aceitas como autoevidentes… não necessariamente nesta ordem em relação à Bioética.

Gosto de reunião clínica desde estudante de Medicina. Considerava observatório de uma constelação de ser e estar médico. Deixava solto o espelho do exemplo para que os vários ângulos pudessem refletir que há erros e erros, cada tipo exigindo aprender, desaprender e reaprender acertos e acertos, de forma circunstanciada e, como se diz, trocando pneu em movimento. Aliás, a lição de um professor que maluco pelo idioma grego nos fez decorar o termo metatesiofobia – medo de mudar-, “para nunca pegar”!

Há cerca de 20 anos, já com bagagem profissional acumulada e simbolizada pelo número de CRM cada vez mais baixo, despertei para a reunião que envolve a Bioética. Desafia o calcanhar de Aquiles do bom senso. Descobri que há sempre a possibilidade de um novo ângulo para conferir a real autenticidade de tomada de decisão. Das reuniões claras e elucidativas – sem dúvida as menos preguiçosas e menos palavrosas- herdo autoridade, credibilidade e legitimidade para me mover pelas casas da sensibilidade e do mundo real no tabuleiro atitudinal do ecossistema da beira do leito.

Saio de uma reunião, mas ela não sai de mim com frequência. Ficam pensamentos nômades. Sinto comichões cognitivas. Atribuo-as a antígenos de elementos materiais (físicos e psíquicos) e imateriais (metafísicos) do ecossistema da beira do leito atuando sobre receptores da curiosidade de detetive que existem no médico. Aqueles revelados na criação de Sherlock Holmes pelo médico Arthur Conan Doyle (1859-1930).  Contudo, bioética não tem nada de elementar, meu caro Watson!

Uma pruriginosa reunião aconteceu, recentemente, no Dia Mundial da Bioética (19 de outubro). É muito bom que tenham instituído esta data para repercutir a Bioética. Neste século XXI,  o andar é de carruagem e sinaliza que vai levar tempo para que ela seja mais bem compreendida e aceita no ecossistema da beira do leito. Em São Paulo, não há mais de 40 Comitês de Bioética e seus membros persistem cocheiros almejando-se pilotos supersônicos.

A ebulição mental energiza-me para escrever e para satisfazer uma compulsão de reescrita revisora. Descarrego calorias acumuladas no peso da rotina. É útil no meu blog de Bioética- www.bioamigo.com.br, Apraz-me estimular o bioamigo, especialmente aquele que se sente isolado, a fazer reflexões –flexões sinápticas-  sobre  seu profissionalismo. Esforço-me  para que cada parágrafo dê um empurrãozinho no êmbolo de uma imaginária seringa ética cheia de ânimo para injetar pensamentos construtivos nos braços abertos do bioamigo. Uma satisfação eletrônica!

O conteúdo da reunião que provocou uma mexidinha na sintonia fina de mim para eu mesmo referia-se à triangulação entre afins: no varejo, suporte vital (hidratação), não consentimento, receio de negligência; no atacado, iminência da morte inevitável, respeito à (ainda) vida e dignidade humana.

A questão era como transformar o triângulo escaleno pelo menos num isósceles, quiçá num equilátero, por meio do diálogo sobre o valor de bases científicas para objetivos morais. Tópicos exclamativos acerca de estar médico num contexto assistencial repleto de interrogações e sem nenhum indício de ponto final. O que mais me desassossegou foi a terrível possibilidade de um Cuidado, médico! Expresso por paciente indignado. Na força da vírgula, um alarme soou!

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