411- A conquista da beira do leito pela Bioética (parte 7)

quadro

A Bioética propõe-se a  participar daqueles não raros conflitos da beira do leito associados a um não consentimento do paciente à recomendação médica. É situação que pode se tornar bastante incomodativa e dar a sensação de aprisionamento num labirinto, especialmente quando uma lata hospitalar é temerária.

Há um percentual destas apreciações de conjuntura sem saída que, imerso em alguma parte do imenso oceano da pluralidade humana, vê-se às voltas com ondas inquietantes de diferenças de visão de captação e uso da Medicina, requerendo um desfecho no curto prazo, por exemplo, o paciente internado sob responsabilidade do médico pelo seu prognóstico que se apresenta em momento fortemente influenciável pela decisão em confronto.

Há mais de uma verdade em campo em contraposição e, como se sabe, verdades não obedecem a ordens do desejo, elas existem e, se desagradam a outrem, devem ser analisadas em seus âmagos, vale dizer, a evitação de um julgamento moralizador intempestivo. Afinal, no contexto de observar sem avaliar quando se trata de consentimento, exige-se a quádrupla  combinação de liberdade,  esclarecimento, disposição para uma revogação do pretendido e critério para a manutenção do considerado.

Nada de monólogos justapostos, cada qual ferrenho na sustentação. Tudo por um diálogo que, embora possa suscitar até uma previsão de impossível de obtenção de produtividade, é a tentativa ética possível para provocar algum contramovimento a favor de um acordo no conturbado relacionamento. Enfim, é conversando que  agente se entende é riqueza na beira do leito, em bons e maus momentos.

O desapontamento com o não consentimento pode levar ao desespero e daí corre-se atrás do espero, a busca por um modo de eliminar o prefixo des (negação) e poder manter no alvo o exercício do melhor da capacidade profissional (Princípio fundamental II do Código de Ética Médica vigente). A Bioética é uma forma de apresentação desta borracha imaginada. 

De fato, o objetivo da  Bioética é a cooperação catalizadora de uma conciliação  que com maior ou menor reformulação dos pontos de vista originais, reverta a inércia e permita a delimitação dos próximos movimentos desenvolvendo expansões e limitações, portanto, ela é lápis – que tenta novos traços- e borracha – que cancela efeitos, tudo visando  o respeito à dignidade humana.

A qualidade da Bioética está na contribuição para a abrangência e a profundidade da interlocução discordante. Este encargo exige o compromisso com o rigor dos argumentos, a revisão fundamentada sobre o grau de abertura eticamente aceitável para uma relação benefício/malefício entendida como menos favorável e a busca de um nível de tolerância aceitável – a beira do leito convive com situações nunca toleráveis, ou seja não admite uma tolerância universal- a favor do posicionamento do outro e, de certa forma, se responsabilizar contra o manifesto de si mesmo.

O racional da ampliação dos pensamentos é a noção básica que todo o conhecimento que utilizamos para formular nossos entendimentos guarda lacunas que, ao serem reduzidas por uma composição transdisciplinar como a que dá sustentação a Comitês de Bioética, podem reordenar o clima divergente. Não há a pretensão de concordância com a visão pela Bioética, mas o de apoiar e incentivar a ideia que mudanças são uma possibilidade  mesmo quando a resolução advinda persistir com a etiqueta de  um absurdo.

Assim, é fundamental que o representante da Bioética que comparece para dar a sua contribuição para um pretendido acerto de rumo disponha-se a conhecer, não somente o modo com que foi desenvolvido o raciocínio do médico sob influência dos pilares éticos da prudência e da negligência que o colocou num lado do confronto, como também, os componentes intrínsecos e de influência externa que amparam o lado do paciente (Quadro).

Ponto interessante é a compreensão que certo percentual dos conflitos costuma ter um quê  resvalante no que se poderia considerar um amor à verdade, fanatismo e dogmatismo que antecipam a visão de um bem porvir -profetismo.  Este sentido do verdadeiro tem muito de disciplinar de um lado e de crença de outro e constituem motores respeitáveis do posicionamento, contudo, qualquer confronto entre o científico e o não científico, qualquer  entendimento que benefício na beira do leito é possível somente pela ciência, deve ficar alerta para a frase lapidar do Prêmio Nobel 1922, o físico  Niels Henrick David Bohr (1885-1962), inspirada em suas descobertas no campo da física quântica: o oposto de uma verdade profunda pode bem ser outra verdade profunda. Em outras palavras, o confronto deve ser visto como uma não aprovação de uma posição, mas não como um desmentido a justificativas da mesma.

Nos confrontos entre a tradição e o progresso, não se pode dizer que um sempre prevalece, como destaca a transdisciplinaridade, é essencial o diálogo entre os vários níveis de expressão humana, a atenção a destaques da sensibilidade, imaginação e intuição no decorrer da aplicação do conhecimento baseado em evidências.

A Bioética da Beira do leito apregoa que tradição, racionalismo e empirismo, cada qual representando uma época dominante podem se conciliar na beira do leito contemporânea e, em decorrência, servir de atapetamento transcultural para um acordo, em meio a avanços e recuos, entre o saber médico, um modelo sustentado pelo melhor do bem, um pensamento do ideal de profissionalismo validado e disponível para a circunstância e a potência da liberdade individual de expressão.

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