395- Inovação tecnológica não é tudo (Parte 4)

É importante ter em mente o significado moral de ficarmos reféns da alta tecnologia inovadora e sedutora que aprisiona – com certo autoritarismo- e  arrisca desagregar o tradicional vigor do raciocínio clínico. É comum o pensamento que o novo é melhor, que é para frente que a ciência caminha, que a tecnologia supera-se a cada dia. Todavia, há nítida tensão entre quaisquer projeções coletivas do bem tecnológico e a condição humana do caráter, personalidade e temperamento individuais que atua com iniciativa ou de modo reator, especialmente na área da Saúde. É cenário onde a educação, o treinamento e o acolhimento tradicionais não podem ser dispensados porque máquinas ou dispositivos de última geração são disponibilizados e tendem a dominar o contexto da atenção às necessidades do paciente. Mais acesso tecnologia requer mais suporte às humanidades, assim como atuação da inteligência artificial exige aperfeiçoamento da inteligência natural para não ficar indevidamente dominada.

O bom conceitual da ciência não necessariamente soa bom para um ser humano que conjuga objetivos, desejos, preferências e valores. Você é examinado por um scanner, recebe um laudo de anormalidades, é solicitado a se submeter a processos de reversão, sujeita-se a benefícios que não podem isentar-se de malefícios em prol da qualidade de vida e de sobrevida.   Acontece que não estamos pessoalmente e socialmente preparados para o timing de tais procedimentos, de evidente combate à doença, especialmente os invasivos e mutiladores,  quando nos sentimos plenamente saudáveis para a ideia de interferências na sequência da vida pessoal e profissional nunca imaginadas. O caráter social da Medicina é preocupação da Bioética!

Uma célula degenerada de algum órgão acabada de entrar na circulação sanguínea, uma imagem diminuta preocupante identificada por uma terrível poder resolutivo de uma máquina, certa árvore genética subvertem as sustentações sobre A Clínica é soberana. Desenvolvem-se condutas que podem ser consideradas como terapêutica preventiva, agregando ao conceito que  cuidar no início favorece o prognóstico, mas sem uma certeza sobre o fato que este início é mais inicial do que aquele a que estamos habituados. Iremos retirar mamas e próstatas isentas de indicação tradicional após uma certa idade em função do risco genético de tumor? Quem assim consentir deverá retirar o apêndice também  pela mesma via das dúvidas? O pensamento que mesmo rio não faz correr mesma água e depende de nascentes para sobreviver assim aplicado ao progresso da Medicina entusiasma a Bioética.

Assim como Hipócrates instigou os cidadãos a ter novos modos de pensar, a organização social da condição humana- lembrando que o Brasil é pluri-étnico e multicultural- terá que lidar com novos modos de aplicar e receber Medicina, idealmente expressando equidade, beneficência, segurança, respeito à autonomia da pessoa, sensível à ética da virtude e com bom entendimento sobre as contraposições entre visão deontológica e consequencialista (utilitarista). Como sabemos que a prática se distancia desta idealidade, precisamos da Bioética!

É excitante pensar em termos de curto prazo numa precisão da Medicina máquina calculadora em que cada paciente chega com um manual de uso personalizado, pá-pum e tudo solucionado. Preencher lacunas do despreparo do projeto ser humano para rechaçar causas e mecanismos de doença, muitas geradas por ele mesmo- auto-imunes, induzidas pelo desencadeamento de inflamação,  é objetivo, sem dúvida, de todos os pesquisadores. Para a tradução das conclusões na beira do leito, para o acompanhamento pari-passu de uma técnico-ciência que não tem compromisso em si com a pluralidade da condição humana e que cada vez mais revela informações privilegiadas, íntimas e sigilosas – que alguém pode preferir não saber ainda mais se for suposição de risco, como predisposição a uma determinada doença grave-  ou  permite manejos genéticos espetaculares, é conveniente contar com a Bioética!

 Precisamos distinguir com sabedoria o que seja máquina do saber e  estrutura de sabedoria, por isso Alô Bioética!

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