A Bioética da Beira do leito reconhece que o voluntário de pesquisa exposto ao ainda não provado é tão-somente um modelo imperfeito do paciente que usará o já provado, que ele foi configurado de acordo com a necessidade de se obter respostas com fundamentação científica e poder estatístico. Ele constitui uma amostra que subentende margens de erro para a utilidade e a eficácia da droga uma vez licenciada. O que estimula lápis-borracha individualizadores. Sempre haverá a conveniência do traço a mais, do traço a menos, caso a caso.
A globalização reforça as experiências pessoais, sustenta atualização periódica, relevante fase epistêmica ulterior à pesquisa formal que acresce sabedoria ao saber. Numa linguagem moderna, provê configuração mais amigável às custas de exaustivas observações e metaanálises. Não é incomum uma reconfiguração offlabel no desenvolvimento translacional e até mesmo uma surpresa de indicação de uso de fármaco na fronteira translacional. O efeito colateral passa de adversidade para utilidade, como aconteceu com o minoxidil e a sildenafila.
Em outras palavras, a informação translacional não é estática, especialmente nos primórdios do lançamento da inovação para uso assistencial, ela tem uma trajetória de assimilação pró – eficiência e pró – segurança sinalizada pelo olhar clínico inquieto, integrativo ao que se conhece, ao mesmo tempo experiente na assistência e respeitoso do teor da pesquisa e dos fundamentos da Medicina.
A Bioética da Beira do leito colabora para que o manejo das imprevisibilidades do translacional ocorra com o menos possível dano para o paciente e custo ao sistema de saúde. O olhar para a chamada curva de aprendizado da inovação necessita de lentes de prudência e de zelo. O vilão da adversidade translacional provoca frustações da esperança, sofrimentos adicionais e dispêndios financeiros, especialmente por internações hospitalares inesperadas ou prolongamentos do tempo da mesma.
Por fim, a Bioética da Beira do leito comunga com opiniões que valorizam os estudos ditos negativos, os que concluem pela inferioridade em relação ao já existente. Eles trazem informações úteis para repensar as bases, as observações que deram sinal verde para a fase subsequente “mal sucedida”, e assim, aprender sobre correções que evitem repetições de ilusões pré-clínicas. Equívocos que acontecem quando se procura uma solução são lições altamente instrutivas, razão pela qual um insucesso é, muitas vezes, mais eficiente para redirecionar conceitos e perspectivas de futuro do que muitos sucessos que pouco benefício trazem ao mundo real.
O reverendo Edward Stone previu remédio no gosto amargo da casca da Salix alba. A Bioética da Beira do leito alerta, por sua vez, que “gostos amargos” precisam ser considerados no uso de fármacos. A possibilidade de ocorrência precisa ser do conhecimento do paciente a fim de fundamentar o seu consentimento livre. É terreno pantanoso que exige a prudência do médico, a virtude da fidelidade ao futuro da qualidade de vida do paciente.
