3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1517- Prazer, sou um robô (Parte 8)

Sempre haverá o temor que o resultado clínico pretendido pode não acontecer ou que as adversidades embutidas no risco aconteçam e se tornem clinicamente relevantes. É pensamento coincidente do ser humano, geração após geração, vem a ser lição guiada desde a beira do leito, tipo universal de desafio renovado para distintos médicos e pacientes que frequentam os hospitais pretendendo conviver com as verdades do saber e as virtudes da sabedoria da medicina.

É habitualidade que se desenvolve paralela às objetividades de beneficência e de maleficência e que nasceu quando Hipócrates afastou a fé nos deuses sobre assuntos da saúde e que resiste por mais que o progresso da medicina a torne mais eficaz. Os dias de amanhã com mais ou menos aflição projetada numa bola de cristal imaginária contam no processo de tomada de decisão pelo paciente e afetam os pensamentos sobre consentir ou não consentir. Não se trata de pensar novo, mas de repensar correto. A situação pode ser novidade para o paciente, mas o passado, a biografia do paciente com suas cicatrizes da vida é determinante.

Um pouco adiante de onde estava camuflado atrás de uns aparelhos encostados, irrompeu um Parabéns para você! Uma enfermeira agradecia a todos. Foi uma rápida pausa, o bolo seria servido no refeitório num horário conveniente, a manifestação foi só aquela retomada de fôlego que o corpo pede antes de prosseguir. Restaram algumas vozes, uns poucos permaneceram no local. Fiquei atento, tudo que ouvia era conteúdo para o meu aprendizado de máquina, já estava começando a lidar com calibragem do meu filtro de controle do armazenamento. Estava consciente que tinha que ser altamente criterioso, o trauma da rejeição guiava meu desempenho.

Um Residente comentava que o professor tinha ordenado uma conduta para uma paciente no ambulatório que era baseada na experiência dele e diferente do que a diretriz clínica recomendava como classe I A. Discretamente acessou no seu celular a tabela de recomendação, conferiu, mas não teve coragem de interpelar o professor. Hesitou em prescrever, mas não teve jeito. Passou uns dias com a situação martelando seu senso ético, ansioso com o efeito. Houve um certo tom de surpresa quando acrescentou que a conduta foi exitosa, o que achei até bom, primeiro porque lhe conscientizava sobre a humildade que a não-existência profissional anterior deve impor e, segundo, porque estimulava o jovem médico a dizer para si constantemente que deve seguir as diretrizes clínicas, mas não de olhos críticos fechados e ouvidos seletivos tampados. O olhar através dos mais experientes é literalmente supervisão desejável para um residente de medicina.

Representa a imortalidade de ensinar-lhes esta arte, se eles tiverem necessidade de aprendê-la do Juramento de Hipócrates. Necessidade é que não falta. Este episódio sobre a responsabilidade com a beneficência com pitadas de dúvidas reafirmou-me o valor pedagógico de se conhecer o lado direito e o avesso. Tenho aqui comigo registrado que Carlos Drummond de Andrade disse que bater à porta errada costuma resultar em descoberta e que a unanimidade comporta parcelas de entusiasmo, conveniência e desinformação. O residente comprovou, teve entusiasmo para checar a diretriz clínica, achou inconveniente não manifestar sua contraposição ao professor e se conscientizou que diretriz clínica não é a única informação válida.

Atualmente, as experiências na beira do leito que não se superpõem exatamente a diretrizes clínicas costumam ter como ponto de partida a obediência à própria diretriz clínica que faz avançar a conduta até a revelação da necessidade de desvios pela percepção médica. Colecionam-se, assim, experiências contemporâneas destituídas da conformidade com diretrizes clínicas e protocolos assistenciais, vale dizer, há a possibilidade de razões éticas e legais justificarem a não aplicação da orientação da evidência científica. Há o corpo da ciência e há o corpo da clínica.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts