3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1167- Sem dúvida, temos dúvidas (Parte 6)

O coração tem razões que a própria razão desconhece admite inúmeras interpretações, certamente expandindo o pensamento original de Blaise Pascal (1623-1662). Como cardiologista, apreciei várias, mas também, e principalmente, a ideia sobre o que o coração conhece muito bem, como o valor da alternância periódica dos ventrículos entre contrair-se para expulsar e relaxar para receber, o que equilibra o trabalho cardiopulmonar.

Foi útil para compor o meu entendimento sobre o valor diálogo na beira do leito. Há o momento para contrair a língua emissora e há o momento para dilatar a recepção pelos ouvidos. Se houver apenas o monólogo é coração de pedra (stone heart), se silêncio indiferente é takotsubo.

Instrumento essencial da educação, o diálogo bem intencionado por sua reciprocidade com autenticidade promove uma interpessoalidade de respeito e de confiança. Bons diálogos conectam pensamento e linguagem, rejuvenescem a mente, evitam mofo nos neurônios, dão status para cordas vocais e tímpanos. Consagram escritores, especialmente no gênero dramático.

A Bioética da Beira do leito adota o diálogo como essência, hierarquiza a chave simples e arguta do diálogo que abre as portas da mais adequada compreensão entre interlocutores. Uma boa conversa facilita o alcançar o busílis. Se continuarmos com a referência cardiológica, o diálogo tem o potencial de fazer o coração feliz e as artérias pulsarem satisfeitas … Registrável no esfigmomanômetro.

Diálogo tem tudo a ver com razões de imortalidade de Hipócrates. Ele promove a educação da próxima geração de médicos e a reciclagem entre as gerações atuantes- atualmente são cinco convivendo numa mesma beira do leito -, considerando que a beira do leito necessita de uma atuação ininterrupta de médicos através dos tempos.

O diálogo conjuga intenções e consequências que desembocam no contexto do Princípio fundamental  II do Código de Ética Médica 2018 – O alvo de toda a atenção do médico é a saúde do ser humano, em benefício da qual deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional.  Máximo e melhor demandam pluralidade.

Hospitais que promovem a Bioética valorizam a pluralidade em tudo que possa se referir ao ser humano necessitado de atenção à saúde. São poucos no Brasil.

Porque o “meu” hospital possui um núcleo de Bioética, porque um seu profissional está desde há muito interessado em Bioética, porque a ética e a moral obrigam-se a existir por necessidades pessoais e coletivas, porque escolhi, após observar o que acontecia com os mais velhos, que a militância em Bioética – locomotiva-substituta ajustada à faixa etária- seria uma forma de hospedar o tempo de serviço já completado para aposentadoria sem efetivamente sofrer de abstinência profissional, até porque obrigações intelectuais e atarefadas são elixires da preservação da saúde mental e porque me apraz dispor-me à missão institucional orientadora da Bioética, tudo numa agradável fusão, renovei o entusiasmo quando recebi um telefonema no celular.

Quando era somente telefone fixo, atendíamos mais descontraído. Com o celular, frente a um número desconhecido, criou-se algum grau de hesitação. Atendi, apresentou-se como um jovem médico que estava … Como será melhor dizer conforme uma impressão apenas à teledistância? Apreensivo… Creio que define bem o que transpareceu no viva-voz. Pretendia uma reunião, se possível que fosse marcada… para ontem. Uma determinação suplicante. Agradeceu muito a minha aquiescência. A primeira dúvida dissipara-se, seria recebido. Já se imaginava aproveitando a oportunidade, quem sabe isso, quem sabe aquilo, sairia melhor? Pior? Frustrado?

Já me acostumei com a apreensão do noviciado médico, afinal passei pelo personagem, outros tempos, é verdade, a Bioética de Potter – não o Harry, mas o Van Rensselaer- nem havia florescido – muito menos nascido – para organizar alguma ajuda. Mas, inquietações do ser humano, especialmente nas interfaces profissionais, parecem atemporais e agora a Bioética existe. A aproximação da formatura traz sensações misturadas e já com número de CRM aposto num carimbo-identidade, cada novo caso baralha a coleção principalmente pelos solavancos das complexidades e a sequência dos estranhamentos as dispõe em distintos graus de presença e influência.

Uma cristalização de pelo menos um tipo de inquietação é comum ao longo da Residência médica. Ela é inicialmente entendida como falta de traquejo acerca das finalidades profissionais e provoca manobras amadoras. Contudo, quando ganha projeção perturbadora, não raro predisposta por alguma marca psicológica no passado do profissional da saúde, configura uma dramática inadaptação sintomática que encurrala e exige alguma solução.

É questão de felicidade, de satisfação, de qualidade de vida. É melhor que as providências resolutivas ocorram no curto prazo, pois quando se jogam as dificuldades intactas para debaixo do tapete, elas intumescem e, por isso, o que se pretende invisível torna-se um visível calombo e que provoca um inevitável e doloroso tropeço mais adiante. Cicatrizes podem ser maiores.

Quanto mais precoce se der a iniciativa de resolução, mais se pode admitir que a inquietação esteja sendo de alguma forma energizada por um compromisso interno com a autenticidade mútua entre pessoa e profissional, o que não deixa de ser bom. Ajustes pessoa-profissional são sempre necessários e nos obrigam a reinterpretações da simbiose, por isso, expressar um SOS a quem se dá crédito e responde com feedback qualificado aquieta. Útil desde o primeiro ano da faculdade.APF1

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts