3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1150- Preocupação profissional na beira do leito e Bioética (Parte 6)

Bioamigo, mentalizemos um atendimento ambulatorial rotineiro. No decorrer da anamnese, já costuma surgir um monte de preocupações. O médico sente que o paciente não está transmitindo com clareza, sente que o paciente é prolixo e se desvia do foco primário, sente que há necessidade de complementos sobre os sintomas, sente que o caso demanda urgência. Daí, o médico pensa sobre a necessidade de proceder a ajustes de captação e como atuar nas intervenções (sentir, pensar, atuar).

Na sequência, o médico propõe-se ao exame físico tendo preocupações mais elaboradas em atenção à anamnese e adiciona outras no decorrer do mesmo, ou seja, acréscimos ou reduções de preocupações. Assim, bioamigo, num espaço de tempo relativamente curto, pode ocorrer uma curva exponencial de preocupações, o que fica bem ilustrado num Pronto Socorro.

Vale enfatizar que além do aspecto quantitativo, importa muito o qualitativo, a ser distribuído num ranking de prioridades. O prontuário do paciente, não deixa de ser, pois, um registro de preocupações, ora fermentações, ora avanços, ora impasses.

Bioamigo, auto pilotagem pode ser termo adequado para nomear o hábito de o profissional da saúde na beira do leito produzir preocupações profissionais instrumentalizado pelo sentir, pensar a respeito e mentalizar atuações. É motivação para a Residência médica, a pós-graduação que facilita certa independência e sensação de auto realização na percepção e na condução das preocupações indispensáveis.

Em outras palavras, o exercício caçador-coletor do profissional da saúde sobre dados e fatos do paciente, alimenta preocupações como  atividade preparatória para o subsequente exercício empreendedor-transformador da aplicação terapêutica. Admite preocupação com o controle da situação clínica, com os recursos a dispor, com o risco/benefício dos métodos e com a própria imagem profissional em face das possibilidades tecnocientíficas e de sua capacidade para enfrentar desafios e dilemas em meio às necessidades de interpretar e organizar.

A vivência na beira do leito determina uma coleção de ciclos de sentir/pensar/atuar, pois como a partir do dito por Aristóteles (384 ac-322 ac): É fazendo que se aprende a fazer aquilo que se deve aprender a fazer, pode-se entender que É sentindo que se aprende a pensar naquilo que se deve sentir para pensar. Os ciclos acontecem ao profissional da saúde segundo uma moldura heteronômica e têm fortes influências de si próprio. Assim, ajustam-se gatilhos do sentir com o pensar como atuar, levando em consideração as emoções dos choques entre o exterior provocativo e o interior reativo.

A Bioética da Beira do leito interessa-se, sobremaneira, pelas repetições de emoções negativas nas realizações profissionais como condicionantes de comportamentos na beira do leito – modo negativo das preocupações. Elas trazem tendência para um direcionamento dos pensamentos no sentido da evitação de vir a sentir, temor de se perceber longe do controle. O contrário – modo positivo das preocupações- pode-se dizer com as repetições de emoções positivas, que massageiam a autoestima. Um reforço do valor da Residência Médica numa instituição qualificada.

As filtragens de expectativas em função da intensidade de frustrações são muitas vezes inconscientes, os distanciamentos incorporam-se sorrateiramente ao estilo profissional e tudo se passa como uma obrigatoriedade interna. Assim, todas as vezes que determinado cenário se delineia, o profissional da saúde estará se sentindo diante do potencial de provocar a emoção indesejável, pavloviano (Ivan Petrovich Pavlov, 1849-1936, Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1904). Uma vez na rotina, fica difícil mudar o modo do pensar como se sente, e quase impossível suprimir, deixar de pensar preocupado, por isso, as “fugas”.

O tema preocupação na beira do leito articula-se com a aplicação do princípio da autonomia para o profissional da saúde. Bioamigo, de modo simplista, podemos dizer que o estudante se põe mais ou menos à vontade para atuar como profissional em função, primeiramente, da bagagem pré-profissional forjada na educação com que entra na faculdade e, a seguir, do conjunto de ajustes proporcionados pelas adaptações à profissão. Assim constrói um estilo e procura na medida do possível atuar em consonância, o que é fonte permanente de preocupações com a consciência. É realidade para a qual Comitês de Bioética se dispõem a servir como fórum de apoio.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts