3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

1060- Beira do leito política (Parte 3)

De certa maneira, interações entre verdades da tecnociência porque concebidas pela mente humana e da condição humana são políticas porque quando resultam compreendidas estimulam a busca por meios para lidar com os inevitáveis elementos de coerção (entraves a uma liberdade irrestrita) que as verdades carregam consigo.

Um achado diagnóstico num exame de imagem exigente de uma conduta terapêutica é ilustrativo. É situação onde o profissional da saúde precisa ter em mente uma dica filosófica: a virtude tão somente moral faz atuar por dever  e a virtude de cunho ético faz atuar de bom grado. Desta maneira, a ideia de coerção pelo dever reduz-se pelo bom grado. Infelizmente, não faltam situações do cotidiano em que a carência do bom grado exige a lembrança do dever com um clima coercivo.

Bioamigo, evidentemente, a beira do leito não é coisa de político- na acepção que se desenvolveu na sociedade-, mas, reforçando Eisenhower, o profissional da saúde precisa politizar sobre o fato que a ciência de alguma maneira põe em suspeição o senso comum e a linguagem comum. Não poderia ser diferente, já que a ciência na busca – e encontro- de compreensões cria confrontos com a cultura e provoca desencontros de valores. É acontecimento previsível na beira do leito, fonte de convergências e de paradoxos, em decorrência da habitual submissão humana à tecnociência.

Se política requer a linguagem, o Código de Ética Médica vigente escancara a necessidade do uso dialógico da palavra – consigo mesmo e com o outro- em função da questão, eliminada qualquer retórica a respeito de beneficência/sobrevivência: é adequado o paciente estar em concordância consigo mesmo- baseado em seus desejos, preferências, objetivos e valores- e, por isso, em desavença com a tecnociência validada quando uma recomendação médica representar alta influência sobre o prognóstico da qualidade de vida e da sobrevida?

Bioamigo, é certamente incontável o número de vezes num dia em que ocorre o diálogo entre os artigos 31 e 32 vigentes. CEM3132aPode-se intuir que a assim provocada troca obrigatória de argumentos sobre chamados valores funcionais e valores tradicionais na beira do leito faz camuflar uma nada incomum e delicada questão: a melhor decisão é preservar a liberdade de sujeito moral do paciente a todo custo mesmo quando possa representar caminho para a irreversibilidade do mau prognóstico?

A ressalva salvo em caso de iminente risco de morte constante no Código de Ética Médica não tem única interpretação- pode ser decodificada como um imperativo ou como uma justificativa de liberação do É vedado para o profissional da saúde que vier a desejar a opção.

O exercício da autonomia para tornar ético/moral/legal a realização da recomendação, a mutualidade e o jogo de tolerância requeridos pela contemporaneidade da beira do leito privilegiam a contenção do potencial de abuso de poder que, apesar de tudo, não pode deixar de ser  pode ser associado ao profissional da saúde.

A tecnociência uma vez incorporada como parte irredutível do profissional da saúde pode motivar ideias impositivas de superioridades da tecnociência validade sobre individualidades de vontade do paciente. Por isso, a ênfase da Bioética da Beira do leito na orientação que métodos da tecnociência são meios e pacientes são agentes da decisão de receberem ou não o que se conhece nas ciência da saúde como meio superior a nada- diagnóstico, terapêutico e/ou preventivo.

Assim bioamigo, eliminando o substantivo superioridade (entre tecnociência e ser humano) e considerando o adjetivo superior (a outros métodos), o conceito admitido pela Bioética da Beira do leito, em nome da prudência- virtude e ética- é do dever da disponibilidade da tecnociência com valor resolutivo na beira do leito e o aguardo do consentimento pelo paciente capaz.

Em outras palavras, evidências científicas validadas alinham-se à beneficência e para resultarem em benefício num paciente precisam ultrapassar o pedágio do consentimento livre e esclarecido que nem sempre tem uma cancela de fácil movimentação e assim exigente de continuidades de diálogo . De fato, pacientes, seres humanos que são com personalidade, temperamento e caráter, não infrequente reagem a uma recomendação numa sequência análoga ao pensamento de Arthur Schopenhauer (1788-1860): toda verdade tem três estágios: primeiro é ridiculizada, depois é violentamente oposta e por fim é aceita como auto evidente.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts