355- Açúcar amargo

doceSabe a mesa de doces sensacional da festinha de aniversário do filhinho? E aquela sobremesa cheia de creme que se come mais com os olhos do que com a boca? E aquele bolo comemorativo? Pois é, o gostoso açúcar que os qualifica pelas papilas gustativas e escraviza muita gente está sendo considerado o novo tabaco como um dano para a saúde. Assim o açucareiro coloca-se ao lado do saleiro como objeto indevido na mesa nossa de todo o dia.

Aliás, percebo com os netos que os pediatras atuais fazem uma orientação bastante restritiva ao açúcar, o que não ocorreu na puericultura dos filhos, 4 décadas atrás. Portanto, se fumar e comer açúcar é igualmente envenenar-se lentamente, se a velinha do bolo já é para fazer lembrar o velório, então, num exercício de futurologia, logo teremos mensagens e imagens fortes sobre malefícios, em prol de abstenção, em embalagens de açucarados, como vemos em maços de cigarro, e olhares feios de mesas vizinhas em restaurantes para quem está saboreando a sobremesa repleta de chantili. Dar um copo de água com açúcar para alguém que levou um susto, não mais será solidariamente correto. No Halloween, nem pensar em dar doce às crianças, será preciso aceitar a travessura. Muitos substituirão a placa Lar Doce Lar. Padarias equivaler-se-ão a tabacarias na visão de saúde pública.

Como médico, fico satisfeito pelo paciente quando ele me diz que não fuma e não/pouco bebe (álcool). As evidências que se acumulam fazem com que a satisfação deva ser maior quando ouvir que houve uma vigorosa renúncia ao consumo do açúcar.

Ninguém mais duvida que o tabaco é fator desencadeante de neoplasia pulmonar – primeiras evidências são recentes, da década de 50 do século XX – e de outras, razão da vigorosa recomendação médica contra o fumo de modo geral. Sob a bandeira açúcar o novo tabaco, mesmo comportamento ganha força em relação ao consumo do açúcar objetivando a redução dos índices de obesidade, diabetes, síndrome metabólica e doença cardiovascular.

Neste contexto, a  Organização Mundial de Saúde propõe aos países impor uma sobretaxa -algo como 20%- sobre as bebidas açucaradas para controlar a epidemia de obesidade – que dobrou no mundo nos últimos 40 anos- e diabete http://www.medscape.com/viewarticle/870091.

Como deve acontecer em Medicina, a consideração que o açúcar é tão nocivo à saúde quanto o tabaco e que ambos não têm nenhum benefício orgânico, apenas a sensação de prazer, exige um tempo para consolidar conclusões científicas a respeito da sentença de culpa da adição de açúcar e decorrente recomendação de refrear o desejo da gustação do açúcar.

Para que o tempo desempenhe com imparcialidade a sua função de juiz, especialmente numa  apreciação vital para a Humanidade em geral que o Homo sapiens não teria sido feito para o açúcar – ou seria o inverso?-, é fundamental que haja honestidade nos autos, no caso na literatura científica especializada. Isto inclui o crédito em conclusões de pesquisas clínicas, meta-análises, registros e quetais de fato afinados com resultados reais e livres de influência de conflitos de interesse – inclusive aquele de ser um chocólatra. Ou seja, a confiança nas evidências sobre a relação benefício/malefício do dado/fato investigado depende da integridade dos pesquisadores, assim, destituídos de qualquer intenção de falsificação, maquinação, ocultação ou descaminho interpretativo. Infelizmente, a história da Medicina coleciona algumas fraudes que provocaram impactos negativos na saúde pública.

Recentemente, descobriu-se que uma análise acadêmica sobre eventuais prejuízos à saúde pelo consumo do açúcar foi alvo de uma atividade que domina o noticiário político no Brasil: corrupção. No caso, suborno para  desvio de foco sobre relação entre causa e efeito. Uma matéria de alto interesse da Bioética.

Há provas que três pesquisadores livraram a barra do açúcar e incriminaram a gordura saturada na etiopatogenia da obesidade, o que representou um padrão para 50 anos de recomendações no campo da (boa)nutrição. https://www.nytimes.com/2016/09/13/well/eat/how-the-sugar-industry-shifted-blame-to-fat.html?_r=0. E agora as surpresas: Surpresa 1- os pesquisadores pertenciam à Harvard University e tiveram grande influência no governo federal dos EUA; Surpresa 2- a publicação do artigo corrompido deu-se no New England Journal of Medicine https://nature.berkeley.edu/garbelottoat/wp-content/uploads/Mcgandy-1967-part-2-1.pdf.  Como não surpresa, o corruptor teria sido a indústria do açúcar. O valor pago somaria atuais 50 mil dólares.

Parece que o “de$ejo indu$trial” de desvalorizar a relação açúcar-risco à saúde persiste. Divulgou-se que a Coca-Cola reservou milhões de dólares para financiar pesquisas objetivando o encontro de evidências para minimizar a conexão entre açúcar e obesidade https://well.blogs.nytimes.com/2015/08/09/coca-cola-funds-scientists-who-shift-blame-for-obesity-away-from-bad-diets/.

O Brasil está no topo do consumo mundial de açúcar com números crescentes de produção há décadas (Quadro).

sugar

Os engenhos já foram especialmente importantes para a saúde financeira do Brasil. Hoje, a sua matéria prima- a cana de açúcar é responsável por 80% da produção do açúcar e os 20% complementares vem da beterraba- está fortemente associada à má saúde humana. A Bioética interessa-se por qualquer aspecto da $aúde, quer alocação de recursos, quer interesses em conflito.

menino chupando cana, óleo sobre eucatex, 60 x 80 cm, 2004

Crédito: http://robertoploeg.blogspot.com.br/2014/12/menino-chupando-cana.html

Talvez o fato de não se poder assobiar como expressão de alegria e chupar cana ao mesmo tempo seja um aviso da Natureza.

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