309- Hipocrates às voltas com o futuro

Dr. Hipocrates estava sob um plátano na ilha e Cós pensando como iria propor o sigilo médico, selecionando algumas palavras-chave, quando foi abordado por um jovem a quem ensinara a nova sem remuneração e nem compromisso escrito. Após os cumprimentos de praxe, o jovem externou a sua ideia e um diálogo aconteceu.

O blog Bioamigo teve acesso aos depoimentos de  Esculápio, Hígia e Panacea a Apolo médico sobre a conversa considerada profética.

-Dr. Hipocrates, estava pensando em criar um Comitê de Bioética.

-Ah é? Bio o quê?

-Ética, o que o senhor está pretendendo para os médicos.

-Claro, e para que serviria?

– Sabe, os vulneráveis…

– Entendo… Mas será que não estaríamos nos adiantando na história?

– Como assim?

– Há pouquíssimos médicos e nem estão organizados, eu, por exemplo, deveria ter o CRM número 1, mas não criaram ainda.

– O senhor merece mesmo.

– E enfermeiro, quando ele existirá? Talvez demore alguns séculos, para não falar em hospital, gestor, processo contra médico.

– Mas Dr. Hipocrates, já não deveríamos nos preparar?

-Você conhece algum conflito de um médico com o seu doente, ouviu alguma reclamação?

– Não.

-Pois é, nem sistema de saúde ainda temos, aliás nem quero mais estar aqui quando começarem a pensar.

– Mas um dia teremos.

– Concordo, mas como será?

– Espero que ele privilegie a integralidade, a universalidade e a equidade.

-Maravilha! A saúde para todos. Mas precisamos, então, já iniciar uma poupança, despesas e grandes não faltarão!

-O senhor tem razão. Mas a Bioética seria uma contribuição da nossa Grécia.

– Um presente de grego…

-Beneficiará a relação médico-paciente, poderá fazer com que as pessoas se sintam mais amparadas quando perdem a saúde.

-Aliás, nem sabemos direito o que é saúde, não temos ainda um órgão que construa uma definição.

-O princípio fundamental da Bioética que eu penso seria o seu pensamento que não devemos fazer mal ao paciente.

-Certo, mas como ele começa?

– Deixe-me ver… Ah sim! Se bem não puder fazer, que não faça mal.

– Temos condição hoje de oferecer benefício ao paciente?

– Talvez um ou outro…

– Você conta nos dedos de uma única mão. Por falar nisso, você reparou como as sanguessugas estão gordinhas? Nenhuma desempregada!

– Mas contribuir para que não se faça mal já seria um trabalho e tanto da Bioética.

-Na falta do bem as pessoas exigem alguma coisa, acreditam em milagres.

– É verdade, tenho perdido alguns doentes para um colega que tem sempre uma solução no bolso.

-Desde que recomendei não fazer mal, tenho pensado se fiz certo. Temo se nós levarmos esta questão da não maleficência para um nível normativo organizado, iremos inibir que alguém venha a criar a pesquisa clínica. E aí como ficaria a indústria das poções, bálsamos e unguentos?

-Não entendi.

– A pesquisa clínica será um dia inventada para prever o bem e o mal uma poção a ser dada ao paciente.

-Legal, bem articulado com o seu princípio, Dr. Hipocrates.

-Acontece que a tal da pesquisa clínica vai provocar algum mal no que eles irão chamar de voluntário de pesquisa.

-Acho que estou captando… O médico irá provocar um mal numa pessoa para o bem dela. Mas, como o senhor disse, é preciso usar o conceito inteiro, se bem não podemos fazer…

-Hum, interessante. Aí que não fica legal quando houver o bem.

-O senhor se lembra do editorial do Oraculus Jornal of Medicine? Ele cita exatamente, que o benefício passará a ser aplicado em nome de uma tal de evidência.

-Bem lembrado, evidência será um instrumento da Ética. Por isso, tenho que reformular o princípio na segunda edição do Juramento.

-Ah é?

-Acho que a conclusão deste editorial foi que não haverá benefício sem algum grau de malefício, e irá ser necessário criar uma bula.

-Foi mesmo.

–  Sim, deixe-me pensar… Algo como… Se bem puder fazer, que não faça mal em excesso a ele.

-Perfeito! Dr. Hipocrates, o senhor está entrando no espírito da Bioética.

-Acho que a conclusão deste editorial foi que não haverá benefício sem algum grau de malefício, e irá ser necessário criar uma bula.

-O autor chamou esta situação de iatrogenia.

-Nome adequado, irá fazer sucesso. À  medida que aumentarem os benefícios, o termo não maleficência ficará cada vez mais inaplicável.

-Bem pensado. Em vez de não, talvez menor, a menor maleficência.

-Vamos então fazer uma atualização do Juramento. Sem pressa, a primeira formatura de médicos na frente da família orgulhosa vai demorar.

– Não é por acaso que o senhor é o Pai da Medicina

-A minha filha vai viajar muito, a ilha de Cós será pequena para ela.

– Ela terá muitos filhos que nunca esquecerão o nome do avô.

-Oxalá isto aconteça mesmo. Irei acrescentar o termo segurança. Veja se fica bom… Se bem não puder fazer que não faça mal, mas quando puder fazer o bem, preocupe-se com a segurança, cuide para que haja o menor mal possível.

-Beleza, o Dr. Hipocrates sempre à frente do seu tempo.

-Como é mesmo o nome do que você quer criar?

-Bioética.

– Agora, até que estou gostando.

-Mais uma coisinha, o senhor acha que o paciente não teria que ter o direito de opinar…

-Calma, meu filho, vamos devagar que o andor é de barro.

-Desculpe.

-Eu mal consegui  retirar a Medicina na mão dos deuses e já perçebo que o espaço divino foi rapidamente preenchido…

-Novos deuses?

-Sim, os médicos estão se achando deuses…

-Hummmm!

– Não admitem ser desobedecidos pelo paciente.

-Ótimo!

-Ótimo?

-Sim, um argumento excelente a favor da Bioética, pode levar uns 20 séculos mas a Bioética há de ser uma realidade! O senhor já imaginou um paciente dizendo ao médico que não aceita o tratamento?

– Você está sonhando… Mas, pode ser uma ponte para o futuro.-A ponte da  ilha de Cós para o mundo, passando pelos Estados Unidos da América.

-Estados Unidos da América?

-É, um pais que será tão famoso quanto a Grécia é hoje.

-Desculpe-me, mas  como é mesmo o seu nome?

– Van Rensselaer Potter, senhor, levo muita fé que os meus genes transmitirão as minhas ideias  aos meus tatatatatataranetos.

Pano rápido!

 

 

 

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