281- A Bioética e o problema complexo da beira do leito

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Toda relação médico-paciente requer sequências de adaptação porque associa seres humanos lidando com subjetividades que influenciam as conexões cooperativas. Por isso, problemas que acontecem na beira do leito nem sempre permitem o processamento de soluções sustentadas em conceitos pré-definidos ou em convicções sobre expectativas de evolução da tomada de decisão.

É notório o quanto cada atendimento médico provoca alguma aresta a ser amparada no âmbito da relação médico-paciente. A experiência afirma que sempre haverá uma, quer a imperceptível para a maioria, quer a francamente evidente  Se por um lado há a aresta discreta, facilmente aparada, resolvida  por ajustes triviais, por outro, há a espinhosa que provoca crise no vínculo médico-paciente à beira do leito.

A Bioética da Beira do leito interessa-se pelo que se torna saliente  na expressão de crise que imobiliza o atendimento a necessidades de aplicação técnico-científica conforme o estado da arte em Medicina por contrapontos sobre licitudes éticas e legais.

Membros de um Comité de Bioética que se propõem a contribuir para aparar arestas da relação médico-paciente colecionam dois tipos básicos de situações da consultoria: a) corriqueira- onde o médico visa fundamentalmente a um endosso tranquilizador; b) complexa- onde os caminhos resolutivos precisam ser encontrados e pavimentados.

A situação complexa, aquela que se ajusta ao popular termo cabeluda, admite algumas características fomentadas pela pluralidade da sociedade, por exemplo, o caráter multiétnico e pluricultural do Brasil. Ela representa uma expansão atual do componente humano em relação ao biológico do que os antigos já reconheciam declarando que não há doenças, há doentes.

Alguma tomada de decisão precisa acontecer num confronto complexo na relação médico-paciente durante um atendimento e, em geral, ela não deve ser nem apressada, nem lenta. Cada parte interessada apresenta peculiaridades que dificultam o esclarecimento dos gatilhos envolvidos, a perfeita definição de um final de solução e a certeza de uma delimitação entre o certo e o errado.

A vivência do consultor em Bioética ajuda mas não necessariamente permite uma reprodução ipsis literis de casos prévios análogos. O objetivo concentra-se na dualidade bom-mau na circunstância, que é exigente de pensamentos e de aplicações que devem ser estruturados em estratégias que não prevejam o uso “experimental” de progressões ao sucesso e  de recuos por insucessos.

Parece aceitável uma conformidade da crise da beira do leito com o que Horst Willhelm Jakob Rittel (1930-1990) e Melvin M. Webber (1920-2006), há cerca de 40 anos, rotularam de wicked problems http://www.uctc.net/mwebber/Rittel+Webber+Dilemmas+General_Theory_of_Planning.pdf. Eles perceberam que o planejamento habitual sobre problemas sociais, comerciais e financeiros  acontecia numa sequencia de entendimento do problema, recolhimento de informações, interpretação das mesmas e criação de solução. Todavia, na busca da eficiência, há uma série de problemas que se afastam da clareza de visão e restam mal-definidos, gerando ambiguidades e dilemas morais. Para  tais situações, nem sempre respostas aos problemas podem ser concebidas segundo o modelo costumeiro. Tornam-se, então, necessárias tanto uma mais acurada visão do contexto para o entendimento do problema, quanto a diligente procura de informações a partir de perspectivas de soluções, ou seja, nem sempre é possível uma vasta compreensão antes de resolver -até de modo reducionista-, especialmente quando o tempo urge.

Creio que é lícito considerar um problema complexo/cabeludo/wickwed  tanto um social como lidar com a violência entre alunos numa escola do segundo grau, quanto um médico de manejar uma recusa à transfusão de sangue de influência no prognóstico clínico por paciente Testemunha de Jeová.

O quadro apresenta os 10 critérios para considerar um problema complexo/cabeludo/wincked.

Wincked

Crédito: http://www.uctc.net/mwebber/Rittel+Webber+Dilemmas+General_Theory_of_Planning.pdf.

A Bioética da Beira do leito sustenta o valor do diálogo livre e esclarecido para aparar arestas e acumula evidências que nem sempre o problema permite uma consensual ou  obrigatória melhor resposta.

 

 

 

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