216- O valor da empatia no médico. Uma contramão ao Dr. House

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Crédito: http://blog.acelerato.com/atendimento/empatia-atendimento-ao-cliente/

O término da produção do seriado Dr. House em 2012 reduziu o impacto do personagem do inglês James Hugh Calum Laurie (nascido em 1959) sobre o atual estudante de Medicina.

Se por um lado o Dr. Gregory House é um herói-estímulo para o jovem se habilitar ao diagnóstico difícil, por outro lado, é um vilão-desserviço para a proximidade humana ao paciente, tocando mesmo numa aversão social.

Digno de nota é que os importunos éticos acontecem num hospital universitário, o sacrossanto ambiente onde o hipocrático exemplo do professor é matéria-prima essencial do aprendizado médico.

A Bioética endossa a opinião majoritária de educadores da área da saúde que a atenção às necessidades do paciente beneficia-se por um entorno de empatia do médico, ao mesmo tempo que reconhece que ela é um produto escasso em muitas beiras do leito.

Já discutimos em outros artigos que o tempo (falta de) é contraponto  ético distanciador do paciente – nós não temos o tempo, ele é que nos tem. Trata-se de uma realidade do atarefado sistema de saúde, sem dúvida, mas que precisa ser modificada. Insatisfações gerais decorrem, tanto o paciente se sente mal acolhido, quanto o médico se vê passando por mau profissional.

Sendo palavra-chave da beira do leito para o alívio das tensões habituais provocadas pela doença e da pouca palatabilidade de métodos diagnósticos e terapêuticos, a empatia precisa participar como tempero ubíquo no curriculum médico desde a entrada na Faculdade.

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Crédito: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/medu.12806/epdf

Empatia subentende mais de uma definição. Diferenças estão no peso aplicado aos componentes cognitivos, emocionais e comportamentais. O quadro mostra combinações distintas de pensar, atuar e sentir na consideração da empatia.

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Crédito: http://ovidsp.tx.ovid.com/sp-3.18.0b/ovidweb.cgi? WebLinkFrameset=1&S=CGECFPCCFHDDFDMLNCJKPGMCINHNAA00& returnUrl=ovidweb.cgi%3f%26Full%2bText%3dL%257cS.sh.22.23%257c0%257c00001888-200909000-00012%26S%3dCGECFPCCFHDDFDMLNCJKPGMCINHNAA00& directlink=http%3a%2f%2fgraphics.tx.ovid.com %2fovftpdfs%2fFPDDNCMCPGMLFH00%2ffs046%2fovft%2flive%2fgv025%2f00001888%2f00001888-200909000-00012.pdf &filename=The+Devil+is+in+the+Third+Year% 3a+A+Longitudinal+Study+of+Erosion+of+Empathy+in+Medical+School.& amp;pdf_key=FPDDNCMCPGMLFH00& pdf_index=/fs046/ovft/live/gv025/00001888/00001888-200909000-00012

Fato preocupante é o reconhecimento que  a capacidade do estudante de Medicina de  ouvir  e entender  a perspectiva do paciente e respeitar  durante o atendimento é prejudicada durante os anos da formação médica. Preocupante e revoltante pelos objetivos que devem nortear uma Faculdade de Medicina.

O Quadro evidencia que ocorre um declínio de escore que mede empatia no estudante de Medicina quando as atividades curriculares aproximam-se do paciente, justamente quando a empatia precisa perpassar o avental e o estetoscópio.

Na prática, isso significa que o diabo espreita na terceira série do curso médico- o título do artigo da revista Academic Medicine de autoria de M Hojat e col (2009), de onde reproduzimos o desalentador gráfico do Quadro.

A mensagem é que o prioritário foco nas explicações sobre a doença, no exercício do diagnóstico e na aplicação terapêutica que costuma ocorrer no ensino – a beira do leito como sala de aula, o paciente como o livro- precisa ser mais bem compartilhado com um real comprometimento do jovem estudante com o paciente que lhe empresta seus males para a aquisição de conhecimentos necessários ao futuro médico.

É ilusória, pois, a visão que o paciente é tão-somente uma fonte passiva de dados e fatos pedagógicos. O estudante de Medicina tem que ser treinado a observar que é um ser humano quem está lhe doando saberes, um humano vulnerável  e necessitado do acolhimento a objetivos, desejos e preferências.

A velha observação reparadora que o paciente não é um número qualquer de leito que identifica, um estranho nome de doença que exemplifica ou aquele caso interessante que enche a boca repercutir não pode ser negligenciada.

A Bioética entende que o professor de Medicina tem responsabilidade sobre o acompanhamento da qualidade empática com que cada estudante entra na Faculdade de Medicina e suas modificações ao longo do curso. A pulverização de professores, a delegação do ensino a menos qualificados, a desatenção de alunos são prejudiciais neste contexto.

Aquele que é de fato mestre, que vibra quando ensina e que se esforça para que haja aprendizado, deve insistir no franco comprometimento do seu discípulo com o paciente, vale dizer, conscientizando-o sobre o mau exemplo tipo “Dr. House” neste quesito da atuação na beira do leito.

Evidentemente, Escolas de Medicina devem formar bons médicos, subentendido como dotados de visão igualitária entre ciência e humanismo. É responsabilidade social das mesmas que inclui não fechar os olhos para aspectos relacionados à empatia do estudante de Medicina.

A excelência técnico-científica de uma instituição de ensino médico não deve ser exaltada se não possuir uma contrapartida de humanismo, especialmente na comunicação interpessoal entre médico e paciente. É sabido que o humanismo é calcanhar de Aquiles no progresso tecnológico na Medicina, quando o jovem – seguro pela Faculdade qual nereida Tétis- nele mergulha em busca da imersão determinante de qualidade de vida e sobrevida.

A Bioética é partícipe do movimento de transformação do silêncio  entre médico e paciente  num diálogo sincero e voltado para um autonômico consentimento. É ocasião onde a empatia atenua impulsos paternalistas e direciona para o acatamento à participação ativa do paciente nos processos de tomada de decisão.

Afinal, a placa Silêncio Hospital modernizou-se. Reduziu-se o valor para o descanso do paciente. Ela visa a impedir que ruídos externos perturbem a recepção da emissão de comunicação entre médico e paciente em suas duas vias de direção. Na verdade, um não perturbe  nosso ambiente de resolução está na linha do quanto possível resgate da imagem idealizada do médico do passado, que  ainda permanece na expressão do idealismo do  vestibulando para Medicina, com seu componente de empatia com o sofrimento alheio. Pena que idealismo e empatia estejam correndo para ralos  que parecem representar cada vez mais bocas de lobo em recintos de Faculdades.

Há, inclusive, linhas de pensamento que entendem que Escolas Médicas poderiam vir a ser intimadas ao Judiciário, num futuro não distante, para prestar esclarecimentos a respeito de suposições de negligenciamento com o desenvolvimento de qualidades do aluno relativas a caráter e a personalidade essenciais para o cuidado de um ser humano por outro ser humano. Elas incluem o radicalismo de impedir a progressão acadêmica para o estudante propenso à aversão social, a fim de preservar o conceito de Escola de boa qualidade na formação profissional – o estudante House impedido de se tornar  Dr. House. Polêmico, sem dúvida!

Fala-se muito sobre amnésia do Juramento de Hipócrates para sustentar críticas à carência de empatia por parte de médicos. Neste contexto, é válido apontar alguns fatores que costumam influenciar oscilações da prática empática. Ou seja, não há um nível constante de empatinemia de mesmo médico no entorno do paciente.  É sabido que, na média, médicas são mais empáticas que médicos, talvez pelo chamado espírito maternal. Psiquiatras e pediatras costumam oferecer mais empatia do que radiologistas  e patologistas, significando que o tipo de relação médico-paciente é fator determinante da empatinemia – ou, ao contrário, é fator determinante da escolha da especialidade. Momentaneidades do médico de natureza íntima, familiar, bem como estar com um pé no burnout, prejudicam o controle necessário para o exercício do profissionalismo que embute a empatia.

A empatia não está relacionada em Diretrizes clínicas. “Mesmo assim”,  ela é  útil para  as boas práticas e eficaz para a boa evolução do atendimento, segundo evidências disponíveis.  Em Medicina, parece que  o aspecto cognitivo supera o  afetivo no processo de educação do futuro médico, o que representaria uma superioridade da empatia sobre a simpatia. Por fim, não pode ser esquecido que a  chamada Inteligência emocional  é denominador comum  em pessoas que  transbordam empatia em diferentes atividades  e sob distintas valorizações sociais.

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