215- Índice de Retratação e Síndrome do último artigo publicado

goyaHá anos, chamo a atenção dos colegas, especialmente dos jovens colegas, para o que denomino de Síndrome do último artigo publicado. A síndrome do último artigo publicado é a manifestação de certa imprudência na “tradução” açodada de conclusões de artigos originais para a beira do leito, contendo o risco de muita expectativa  clínica e pouca eficácia de resultado.

É que leituras atualizadíssimas costumam provocar várias apreciações de empoderamento clínico, incluindo a sensação de agora sim, vou poder cuidar (ainda) melhor do meu paciente. Neste contexto, conhecimentos resultantes de pesquisas recentes são valorizados, adotados e imediatamente aplicados ao cotidiano. A síndrome do último artigo publicado é a manifestação de certa imprudência na “tradução” açodada de conclusões de artigos originais para a beira do leito, contendo o risco de muita expectativa  clínica e pouca eficácia de resultado.

Há avaliação individual – cada médico tem o direito de fazê-la-  que apõe um rótulo pessoal de verdade para o momento. Contudo, ela antecipa-se à inclusão em Diretriz clínica, à manifestação de formadores éticos de opinião, Serviços universitários qualificados e Comitês de Sociedades de especialidade. É sabido que a profusão de informações na literatura médica  exige cada vez mais  uma coletivização do juízo científico e clínico que considera aquela nova árvore analisada sob a perspectiva da floresta como um todo. Evidentemente, o grande juiz chamado tempo se encarregará de transformar a verdade do momento numa certeza de época – ou não.

A concorrência entre forças que vislumbram benefícios e as que exigem cautelas de segurança sucede-se à medida que outra publicação na sequência apresenta reforço ou contraposição. Tudo bem fundamentado num esmerado rigor científico. Um justificável sob um ângulo x justificável sob outro ângulo sustenta a manifestação da síndrome do último artigo publicado. De alguma forma, a Medicina baseada em Evidências e a estruturação de Diretrizes Clínicas  concorreram para uma prevenção da referida síndrome. Mas não se pode esquecer que o referendo de Diretrizes depende de atualizações formais, no intervalo das quais vários “últimos artigos publicados” que serão- ou não- incluídos, já passam a compor rotinas da beira do leito.

Em outras palavras, o médico ter a consciência sobre a síndrome do último artigo publicado significa o seu reconhecimento da necessidade de se valer de uma análise crítica judiciosa das recém-conclusões quanto ao impacto imediato no cotidiano. É a prudência derivada da correta suposição que amanhã poderá vir nova publicação de crédito com distinta orientação determinando o mesmo pensamento de agora sim, vou poder cuidar (ainda) melhor do meu paciente. 

O nível de credibilidade na conclusão norteadora  de eventual adoção de ajustes de conduta costuma ser diretamente proporcional ao ranking de qualidade da revista científica que fez a publicação. A citação de um artigo publicado por outro autor é um indicador da confiabilidade, fato que motivou Eugene Garfield (nascido em 1925), o fundador do Institute of Scientific Information (ISI)  a criar o fator de impacto de revista científica. O centenário New England Journal of Medicine (NEJM) é a publicação sobre Medicina com maior fator de impacto, o que significa que a proporção de trabalhos nele apresentados há um ou dois anos utilizados como referência  no conjunto de  publicações em  determinado supera a dos demais.

Prós e contra a respeito das conclusões de trabalhos científicos são comumente difundidos na literatura, quer pela emissão de opinião pós-publicação, quer por nova pesquisa em busca de reprodutibilidade  e  provocam idas-e-vindas do pensamento sobre a pertinência ao endosso e à aplicação. Uma motivação essencial à crítica é o exame de segurança biológica sobre informações de fato geradas com austeridade científica. A desvalorização de uma comunicação pode resultar  de mal-feitos no planejamento e/ou na realização do protocolo de pesquisa, por exemplo.

“Equívocos honestos” existem a reboque de incompetências sem freios aceleradas pela boa intenção. Contudo, incorreções intencionais desonestas existem, infelizmente. Elas são componentes menos reconhecidos na composição do alerta permanente da Síndrome do último artigo publicado.

A desonestidade científica pós-publicação descoberta até há pouco tempo ficava pouco revelada, especialmente quando não preenchia critérios de um escândalo. Atualmente, a retirada do artigo por iniciativa do próprio autor ou do editor da revista alertado por leitores, ficou mais organizada e exposta. Assim, qualquer Publicação subentende o potencial de Retratação (confissão de equívoco cometido, declaração contrária à anterior; desmentido). err

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http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3187237/pdf/zii3855.pdf

Desta maneira, o prazo de validade de uma publicação científica para uso prático, numa escala que varia  desde o nobilíssimo extremo eterno até o frustante extremo imediatamente inaplicável, comporta um término com níveis vexatórios distintos provocado pela eliminação do artigo do acervo da literatura. Esta última situação é a antítese da sabedoria de quanto mais duradoura for a persistência da adoção de um erro científico, mais ele foi um “acerto” do seu tempo.

A expulsão eletrônica – a gráfica é impossível- pode ser motivada por um olhar mais acurado da “fase de mercado” sobre a elaboração do mesmo, que alerta sobre dados não percebidos pelo corpo editorial do periódico publicador, sem nenhum juízo moral sobre o autor – que, inclusive pode ser a via de solicitação da retirada. Contudo, ela pode ser causada por fraude científica, um imperdoável e doloroso subproduto do fascínio pela fama de cientista. E desta maneira, é desejável que haja um fio condutor da excelência científica que funcione como pêndulo entre manutenção da visibilidade de conclusões e supressão da mesma.

Há um aparente crescimento do número de Retratações numa lógica de se a comunicação deveria ter sido evitada, que a eliminação seja inevitável. Talvez haja mais mesmo, mas, certamente, ocorre mais atenção para encontrar o joio. Afinal, um erro não deve justificar outro.

Manipulação de métodos  e inclusão de resultados não obtidos podem passar desapercebidos e escorregar pelos filtros editoriais.  Ajustes em gráficos e figuras, impureza de reagentes, não reprodutibilidade, racional pouco confiável e plágio – inclusive, o chamado auto-plágio numa publicação redundante-  são exemplos se matérias-primas para Retratação.

O quadro mostra uma tão robusta quanto curiosa relação direta entre fator de impacto e índice de retratação. Como pode ser visto, a revista mais crível é a mais ligada ao não crível. Uma explicação para este aparente paradoxo é a sedução apresentada por autores “desesperados com o publique ou está morto“, um desvirtuamento acadêmico que induz a comportamentos anti-éticos no processo de obtenção, apresentação, interpretação e revisão dos resultados. Vendas da alma de pesquisador ao diabo em troca da sobrevida universitária e no meio científico precisam ser anuladas. Paralelamente, pode-se supor que publicações em revistas de menor impacto científico não provoquem tanta motivação para refiltragens, como que já contivessem “desqualificações intrínsecas”.

Qualquer esforço em prol da saúde da literatura científica é endossado pela Bioética. Neste sentido, a transparência científica recomenda que cada periódico passe a exibir um Índice de Retratação ao lado do Fator de Impacto. A adoção significará que o editor do periódico -que na maioria das vezes não foi negligente no endosso à má publicação- continua a ter responsabilidade na pós-publicação com a comunidade científica- e a assume pela exposição do Índice de Retratação.

Desde há um lustro, o acompanhamento das Retratações a respeito de publicações científicas pode ser feito pelo blog Retraction Watch  retractionwatch.com.  Criar o hábito é saudável para evitar a Síndrome do último artigo publicado.

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