203- Aversão ao novo (misoneísmo) e a Ética em Medicina

Miso11Eu obedeço, atualmente, a um terceiro Código de Ética Médica. Novas edições desde a formatura validaram novidades como éticas. Nos intervalos, métodos emergentes para aplicar Medicina ficaram sujeitos a polêmicas a respeito do valor científico e/ou moral. Resoluções funcionaram como “permissão provisória”. As movimentações reguladoras do exercício profissional demonstram o quanto o  modo de pensar em função do conhecimento é parcial, relativo e transitório.

Obstáculo a ser vencido no processo de adaptação a novos tempos é o misoneísmo– aversão ao que é novo. Este oposto ao amor a novidades -filoneísmo- dificulta a análise crítica de uma configuração de futuro.  Pode corresponder a um simples comodismo, a uma exagerada preocupação com o abuso. Interesses políticos, econômicos e religiosos costumam acioná-lo.

Ocorre redução progressiva da queda de braço entre médico e sociedade na concordância com novidades. Já foi o tempo em que uma médica era rejeitada pelo paciente, incluindo a mulher. Não há mais clima para o médico mudar prescrição que está sendo útil para ganhar experiência com um novo fármaco. Cresce as mãos dadas em meio à transparência, à solidariedade, ao respeito a opiniões, à expansão  das informações, muito embora manchetes em contrário. O que significa que a relação médico-paciente ascende como sala de aula para ambos. Lições avançam, a sabedoria aprimora-se.

Há a situação onde a sociedade persiste imutável em relação ao que deseja do médico- o sigilo profissional, por exemplo. Ele é conquista pétrea, o paciente é o dono das informações a seu respeito, só ele- salvo algumas exceções- pode revelar fora do ambiente da Medicina. Há a situação onde a sociedade até gostaria que o médico fizesse diferente, mas este tem o dever de desestimular a mudança – o presencial na consulta médica, por exemplo. Há a situação onde ambos, médico e sociedade desejam, buscam novos caminhos e produzem efeitos – idas e vindas da forma de comunicação, por exemplo.

Respeitar o passado da Medicina é essencial, olhar para trás é do historiador, apenas para trás é do fanatismo. O militante da Medicina -médico ético- enxerga o bem do progresso tecnocientífico, vislumbra caminhos do futuro com destino à sobrevida e à qualidade de vida, sua causa é dar atualidade aos encontros. Satisfação com o atendimento, fidelidade ao profissional, eticidade resistente qualificam a relação médico-paciente. Só persiste iluminado o que muda, o girassol que o diga.

Em tempos de galopantes transformações da era digital, a multimilenária relação médico-paciente ganha força renovadora pela concretização da ideia de conexão entre dois seres humanos. Possuidores que são de voz que quanto mais representativa, ágil, respeitosa, útil e eficaz,  qualifica intercomunicações. Se mentalizarmos a vibrante sensação da comunicação à distância propiciada pela invenção do telefone por Alexander Graham-Bell (1847-1922), em 1876, não ficaremos infensos a nenhuma inovação tecnológica na área da emissão e da recepção da linguagem. Numa aceleração impensável por ocasião da minha formatura em Medicina quando possuir aquele telefone preto e pesado de mesa incluía-se na lista de privilégios sociais. O telefone persiste símbolo desta aproximação à distância que se expande para novas devoções à relação médico-paciente.

Sabe-se que a má comunicação com o paciente é causa maior de insatisfação e de representação contra médicos. Razão para que todos os militantes da boa Medicina se empenhem em bem comunicar-se, o que significa hoje em dia estar sensível aos facilitadores tecnológicos. Escrever em pedras, comunicar pela fumaça, utilizar pombo-correio foram criações tão maravilhosas da época quanto o teclar sobre caracteres prontos é na atualidade, que é tão-somente uma estação em direção a destinos cada vez mais surpreendentes do tipo pensou-escreveu.

Hoje, todos carregam consigo um aparelho “mágico” de intercomunicação. Quem sai de casa sem verificar que ele está no bolso, na bolsa?  Olhar para a frente rumo ao sucesso requer um olhar para baixo… em direção ao smartphone.  Entra-se no elevador cheio, estão olhando para seus smartphones, transeuntes se esbarram, olhando para seus smartphones, motoristas da frente não aceleram quando o farol abre… olhando para seus smartphones. Diria que o olho e a articulação cervical logo precisarão ter uma conversinha “evolutiva” com Darwin (Charles Robert, 1809-1882).

Uma palavra de ordem atualíssima no campo da comunicação digital é aplicativo, um programa maravilhoso desenhado para realizar tarefas específicas. Sonho de consumo, facilitador da distribuição do tempo acordado. Crianças movimentam diligentemente seus dedinhos sobre vários, ou seja é fácil, até criança pode fazer – e ensinar adultos com número baixo do RG.  Se é verdade que facilidade gera interesse, aplicativos tornaram-se métodos dignos de atenção em Medicina. A cada segundo, milhares de médicos em todo planeta valem-se de aplicativos para o exercício profissional. Irreversível!

No cenário da beira do leito, salvaguarda para que médico e sociedade compartilhem aplicativos é que haja prudência e zelo na utilização, dois pilares da Ética médica. Prudência no uso do aplicativo significa considerar que incertezas, riscos, acasos, especialmente a cada novidade lançada, suscitam cautela, ou seja, conhecimentos e desconhecimentos requerem  reconhecimento da responsabilidade pelas consequências da utilização. Assim, o aplicativo precisa ser planejado e constituído por boas escolhas e melhores evitações, uma seleção de  disponibilidades técnicas que possam preferencialmente direcionar para um bom fim, leia-se ético. Zelo no uso significa cumprir as normatizações, idealmente aperfeiçoadas pelo uso em serviço.

Pela necessidade de cuidar da saúde, médico e paciente do século XXI desejam estar virtualmente conectados. Eles sentem-se, assim, mais seguros, o paciente com um plus de acolhimento, o médico com um plus de atenção, sabendo que simples movimentos das mãos, tudo muito rápido e eficiente, estabelecem comunicação entre si.  Há valor inestimável na palavra orientadora do médico concentrado em tecnologias de comunicação.

A Medicina valoriza a inspeção, a palpação, a ausculta, a imagem. A conexão médico-paciente olha, coloca mãos sobre, atende a ruídos, beneficia-se de representações. Cada qual a seu modo, sem que tatear sobre o aplicativo substitua examinar o paciente, por exemplo.

Aplicativos estão vacinados contra abusos? Claro que não. Mas, os filósofos já ensinaram que uma faca não deixa de ser operacionalmente excelente só porque alguém fez um desvio do uso.

Criar é estabelecer novos encontros, portanto admite novas conexões. Responder a tensões causadas por limitações da relação médico-paciente com criatividade respeitosa à Ética é dispor-se a ampliar a humanização. Recentemente, oito membros de uma família criaram um grupo num aplicativo de intercomunicação por ocasião da cirurgia do seu patriarca. Incluíram o cirurgião. A operação durou 7 horas e algumas mensagens do anestesista no smartphone do cirurgião de “tudo indo bem” foi “tudo de bom” para os familiares. Os 15-30 minutos habituais entre o término da cirurgia e a comunicação à família tornaram-se momento imediato ao cirurgião descalçar as luvas. Se estar nas nuvens  é expressão popular com significado de estar contente,  o termo na “nuvem” referente a comunicação digital pode admitir sentimentos de alívio em momentos de aflição. Alguma objeção ética?

Cabe às autoridades da Ética a necessária vigilância para evitar desrespeitos do uso de aplicativos na relação médico-paciente aos artigos do Código de Ética vigente. Cabem Resoluções à medida que novidades acontecem, candidatas a serem futuros artigos- recentemente o Conselho Federal de Medicina abordou o uso de redes sociais. Cabem sugestões, reflexões, análises críticas.

O que não cabe é misoneísmo!

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