Idealmente, a medicina representa mais saúde, menos doença, contudo, a aplicação de beneficência não está isenta de adversidades, malefícios acompanham benefícios, o que implica, contemporaneamente, na imperiosidade de esclarecimento pelo médico ao paciente e no direito do mesmo de emitir um não consentimento à aplicação do método. Um marco desta iatrogenia é a verificação de graves efeitos adversos quando do início do uso da penicilina como “uma finalmente” esperança de mudança de prognóstico de infecções.
A Bioética da Beira do leito esclarece que a visão de malefício pelo paciente não se restringe ao corpo, mas inclui a mente, a maneira com que ele qualifica riscos como indesejados. O efeito bula ilustra.
Idealmente, o médico conduz-se de modo que o paciente adulto e capaz acompanha o pari-passu da atuação profissional de modo esclarecido, a fluência investigativa/terapêutica acompanhada do seu consentimento – portanto esclarecido e livre -, com ou sem ajustes individualizados e que dão singularidade a cada conexão médico-paciente. Cada fase tem seu grau de influência no consentimento.
Na maioria dos casos, de modo emblemático, ocorre um momento especial da conexão médico-paciente em que se dá a manifestação-síntese pelo médico do que deve ser feito e dos porquês, não somente sobre o que acontece, como também sobre o que poderá acontecer fazendo ou não fazendo intervenções.
Se para o médico, o que pode ser feito com chance de sucesso é boa notícia, aplicação beneficente da medicina, nem sempre a mesma percepção é compartilhada pelo paciente. A beira do leito testemunha aceitações imediatas, aceitações após períodos variáveis de maturação e desaprovações definitivas.
De fato, numa determinada percentagem, minoria é verdade, pacientes não consentem com a conduta de beneficência proposta pelo médico, não apenas provisoriamente “antes de pensar melhor”, mas definitivamente, quando então postam-se irredutíveis na decisão niilista em relação ao (s)método(s) proposto(s) corretamente.
