3834

PUBLICAÇÕES DESDE 2014

43-Seis Personagens à procura de um Doutor

No livro Seis Personagens à procura de um Doutor, o coração consegue escapulir de um tórax aberto no Centro Cirúrgico e vai até o cardiologista para lhe mostrar como eles, os personagens, são de fato e não como os cardiologistas acham que eles são.  Abaixo um capítulo do livro sobre os seis personagens: Aorta, Miocárdio, Pericárdio, Ritmo cardíaco, Coronárias e Válvula.
SeisPersonagens

A  Aorta entrou na conversa: – Doutor, nos ajude com a nossa história!

A Válvula complementou: -Pedimos de todo o coração!

– E porque vocês querem tanto? Insistiu o doutor.

– Porque agora conhecemos melhor a realidade das nossas vidas, respondeu o Ritmo Cardíaco.

-Não é delírio, é um devaneio!  disse o doutor. Eu preciso decifrar este sonho, quem sabe há um ponto de contato com algum acontecimento recente.

O doutor  vasculhou a mente e nada encontrou. – Este  Freud não explica, resignou-se o doutor.

-Doutor, disse o Miocárdio, nós viemos representando nossa comunidade que deseja se livrar da triste condição de líder de obituário.

– Entendemos   que a nossa presença aqui possa transmitir ao doutor uma visão adicional das nossas personalidades, falou o Ritmo Cardíaco.

–  A nossa pretensão é  que o conhecimento de  novos ângulos da nosso dia-a-dia  possa favorecer uma melhora da nossa posição no ranking das causa-vitae, finalizou o Miocárdio.

O Ritmo Cardíaco olhou para o Miocárdio.  Os dois haviam dado o recado e agora suas faces eram uma plástica de esperança e receio de se frustarem.

– E porque eu? Perguntou o doutor.

– Em primeiro lugar, disse o Ritmo Cardíaco, porque o senhor é um doutor especialista e portanto competente para participar de nossos assuntos íntimos.

Temos necessidade de  nos abrir com alguém de confiança, disse o Miocárdio, que não vá ficar fofocando  sobre nossas confidências: sabe o  Miocárdio… o Miocárdio, você conhece… você nem imagina  o  que aconteceu com o coitado…

Há pouco tempo, tive uma  experiência desagradável neste sentido, disse a  Aorta. Eu estava na sala de espera do meu dentista, quando  pintou uma  conversa com  a Língua que acompanhava a Gengiva, aliás muito simpáticas as duas. Conversa vai, conversa vem, comentei alguns fatos da minha vida.

– E a língua acabou dando nos dentes, disse o doutor.

-Foi isso mesmo, falou agora o Ritmo Cardíaco. Uma semana depois, a nossa assessoria de imprensa nos encaminhou o xerox de uma  entrevista da Boca, comentando sobre o que eu a Aorta dissera pra Língua.

– A boca que elogia é a mesma que ofende, gritou o  Pericárdio.

– Em segundo lugar, disse o   Miocárdio, fizemos uma pesquisa e o senhor foi o escolhido.

E o Ritmo Cardíaco completou: -Foram  várias  horas de análise de muitos currículos; seguimos  os critérios que encontramos num site sobre Qualidade e Mérito.

-E quais  foram ? Perguntou o doutor.

-Dos que eu me lembro, foram a formação acadêmica, pós-graduação, atualização, bom senso, didática, redação, educação e valorização do humanismo, detalhou o Miocárdio.

– Mas antes nós fizemos  uma triagem, disse o Ritmo Cardíaco.

– Que tipo de triagem? Perguntou o doutor.

-Nós incluimos os doutores que vivem pensando em nossa harmonia e excluimos os que só querem nos usar em benefício próprio, concluiu o Ritmo Cardíaco.

– Eliminamos os que se apresentam como nossos conhecidos depois de ler umas poucas linhas sobre nós, disse o Miocárdio. E arrematou:- Não somos coração de papel.

Os seis personagens fecharam uma roda em torno do doutor. Quem os visse de cima perceberia que estavam dispostos com o formato de um coração.

– Acho que literalmente estou com o coração na mão, disse o doutor.

A Válvula falou: – Entendemos como o senhor deve estar estranhando tudo isso, é natural; afinal, somos nós que estamos procurando o doutor,  quando o senhor está acostumado a ir atrás de nós.

A um comando de olhar do Ritmo Cardíaco, os seis personagens disseram em uníssono de voz e expectativa:  – Doutor, diga sim! O senhor jurou cuidar de nós.

– O Pericárdio gritou: Hipócrates sim, hipócrita não! Pensando bem, é um privilégio, respondeu o doutor; mas imediatamente o anjinho mau entrou em ação: – Um aborrecimento talvez.

– O que? Perguntou o Miocárdio.

– Nada, respondeu o doutor, tentando disfarçar o conflito.

– Doutor, por mais paradoxal que pareça, esta é uma situação palpável, disse a Aorta.

– Até agora, disse o doutor, vocês eram evocações inanimadas e de repente, se transformam em  figuras  personificadas que me pedem  ajuda e propõem parceria.

E prosseguiu: – Quando eu era criança, me lembro que era divertido construir  imagens livres com o que lia nos livros; eu gostava também de imaginar como seria a cara do locutor de cada voz que ouvia no rádio. Enfim, funcionavam como estimulantes da minha curiosidade infantil, a oportunidade que tinha para viver no mundo da fantasia criativa.

– Pelo jeito, o senhor sempre gostou de fazer diagnóstico, falou a Válvula.

– E quando chegou a televisão, prosseguiu o doutor, a imagem real me encantou.

– Mas atualmente, disse a Válvula, a televisão presta um desserviço para a criatividade da criançada.

O doutor concordou fazendo um gesto afirmativo com a cabeça.

Era o momento propício para uma bebida forte, mas o doutor não bebia nada alcoólico; ele virou-se para o Miocárdio  que não parava de contrair os músculos e disse: – Vocês têm que dar um tempo, porque  é tudo muito irreal para mim.

– Não dá, doutor. respondeu o Miocárdio que alternava uma postura de tensão e de relaxamento; acontece que estamos acostumados a responder imediatamente a qualquer nova situação e esperamos que os outros assim também façam.

– A visão que sempre tive de  vocês, continuou o doutor, é um misto da  realidade da anatomia e da virtualidade das imagens.

– O senhor pode nos explicar melhor? disse a Válvula.

-Vou lhes dar um exemplo, disse o doutor:  toda vez que me refiro a  você, Válvula- apontando para ela- vem à mente  as peças normais, as excisões cirúrgicas, as identificações ecocardiográficas.

– Se não estou enganado,  interrompeu a Aorta,  ela se  torna uma representação de memória.

-Exatamente isso! e que aciona  várias informações interligadas, completou o doutor.

O Ritmo Cardíaco ousou falar:- É um processo de transmissão instantânea, sei como isso funciona desde que me conheço por gente.

– E  de vez em quando não dá um nó cerebral? Você quer ligar uma coisa com outra e não consegue, perguntou o doutor.

– Doutor, nó é que não falta no caminho do Ritmo Cardíaco, adiantou-se a Válvula.

-Doutor, é que ela tem inveja do meu potencial de ação! Falou o Ritmo Cardíaco.

– Ritmo Cardíaco, vá fazer onda pros teus amiguinhos- disse a Válvula.

– Que amiguinhos? perguntou o Ritmo Cardíaco.

–  Os voyeurs  de monitor, devolveu a Válvula.

O doutor estava começando a gostar.

COMPARTILHE JÁ

Compartilhar no Facebook
Compartilhar no Twitter
Compartilhar no LinkedIn
Compartilhar no Telegram
Compartilhar no WhatsApp
Compartilhar no E-mail

COMENTÁRIOS

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

POSTS SIMILARES

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts

fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts
set0 Posts
out0 Posts
nov0 Posts
dez0 Posts
jan0 Posts
fev0 Posts
mar0 Posts
abr0 Posts
maio0 Posts
jun0 Posts
jul0 Posts
ago0 Posts