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64-Humildade na beira do leito

HUmildTextos de Bioética enfatizam que o médico – e o profissional da saúde em geral- deve ter humildade. Mas o que é exatamente ser  humilde? Pesquisamos o pensamento do filósofo contemporâneo André Comte-Sponville (nascido em 1952) na busca do esclarecimento.

Humildade é uma virtude, portanto um poder específico, uma disposição para fazer o bem, um estado de consciência que ninguém deve apregoae ter, pois declarar-se humilde é contradizer-se.  Vemos, então, que cabe no que se espera do médico. Verificamos, contudo, que o termo humildade não consta do Código de Ética Médica vigente. Nem o termo modéstia que poderia ser aplicado para se distanciar de conotação teológica.

Ter humildade, intelectual, por exemplo, é não se gabar do saber, sabedoria da discrição que em nada significa depreciar-se do valor real. Este deve ser usado para aplicar no paciente, desenvolver pesquisas e  ensinar as novas gerações dentro de padrões pré-estabelecidos.

Ter humildade é reconhecer seus limites de potência, permitir-se ao auto-conhecimento e motivar-se ao aperfeiçoamento pessoal e profissional, corretivo e expansor. É não ser soberbo, não ter pensamento vaidoso, por mais professor-doutor que seja intitulado. Em suma, ser humilde é não ter ilusões sobre si mesmo e ao mesmo tempo levar-se a sério, não fazer pouco caso de si. Ter sempre em mente que nascemos ignorantes e que o processo do conhecimento desde então não tem ponto final.

A humildade sinaliza ao médico como se portar no ambiente de trabalho em relação ao paciente/familiar e aos intervenientes como demais profissionais de saúde, o que é valor de grande impacto na prática da Medicina em constante mutação. Por exemplo, não esquecer que ele pode conhecer o que o paciente tem, mas não necessariamente o que de fato o diagnóstico significa para o paciente.

O mundo real dos cuidados com a saúde na beira do leito admite dúvidas quanto a expressões de humildade desde o médico. É sabido o quanto o conhecimento e a posse de habilidades para causar prevenção e controle da doença atrái o micróbio da vaidade e da  arrogância. E também, certas livres atitudes de paternalismo que podem desrespeitar  preferências e valores do paciente em nome da ciência.

Enquanto que a humildade é útil porque nos lembra que temos muito a aprender, o muito que sabemos pode ser um contraponto para a desprezar. Esta dualidade mostra que precisamos de mais esclarecimentos sobre o que de fato caracteriza o médico humilde que a Bioética exalta.

O psicanalista Erich Fromm (1900-1980) ensinou que a demonstração de superioridade faz parte do que se costuma chamar de personalidade narcisista, mas que o narcisismo não tem tão-somente esta face maligna da pessoa autoritária que deseja que o exterior seja moldado exatamente pelo seu interior. Neste contexto, a humildade seria um antídoto contra o narcisismo.

Há, entretanto, o narcisismo benigno, apoiador do profissionalismo. Ele permite nos reconhecer competente suficiente para o exercício profissional e faz o exterior conhecer o nosso interior sem imposições. Por ele, apreciamos a própria imagem na grandeza em que ela é e conhecemos, nosso cartão de visitas que sintetiza que temos a expertise, instrumento de trabalho colocado à disposição, uma propriedade que se qualifica na medida do reconhecimento por outrém.

A conjunção com o conceito do narcisismo benigno reforça que a humildade não é anti-ética como alguns a enxergam entendendo que subindo o treinamento do médico desce a humildade e que a perseguição pelo prestígio e certa postura divina podem comprometer os bons cuidados com o paciente.

Pelo contrário, fica evidente que a humildade em quem de fato é competente é um estado de consciência que não provoca uma auto-negação profissional, desta forma, não trazendo limitações a iniciativas de zelo, tomadas de decisões prudentes e práticas seguras perante adversidades. Não há porque se curvar ao desinteressante para o paciente.

A humildade do médico, na verdade, contribui para ajustar diferenças culturais na relação médico-paciente, facilitar esclarecimentos a dúvidas do paciente, enfim balizar o direcionamento para a interpessoalidade respeitosa (não arrogante, não vaidosa, não orgulhosa). Baixar os olhos –um clássico sinal de humildade- não representa rebaixar-se, desistir, mas sinalizar que uma contraposição é possível, bem-vinda e merecedora de apreciação.

A Bioética da Beira do leito  entende que a humildade  do médico  aumenta a chance de resolução das diferenças  entre a verdade  do conhecimento científico e o valor do desejo desencadeadas pelo respeito à autonomia na relação médico-paciente com habitual desnível de poder.

 

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