Certeza é do que já aconteceu. Verdade é de fundamentos científicos. Crédito é no auxílio tecnológico. Expectativa é pelo futuro. Assim costumam fluir e integrar-se 4 pensamentos em ocasiões de tomada de decisão na beira do leito.
A sustentação de uma deliberação na beira do leito que inclui estes quatro pilares precisa da sincera modelagem de prós e contras de aplicações/não aplicações pelo binômio prudência-zelo numa dimensão moral de simetria entre os partícipes. Está em pauta o encontro da coerência entre contexto clínico, disponibilidade técnico-científica, individualidade do ser humano e consequência do ato médico realizado ou não tanto quanto possa ser previsível.
É cenário de situações de conflito de escolha, onde a Bioética da beira do leito contribui para a desenvoltura no lidar com contraposições multifacetadas e que incluem inquietantes conjunturas de certo/justificável versus certo/justificável.
A valiosa interferência progressiva da Medicina na história natural de doenças ao longo do século XX, transformando-a em múltiplas histórias evolutivas, reafirmou a consciência do valor moral do paciente como a pessoa que irá vivenciar os efeitos sobre qualidade de vida e sobrevida e, assim, com o direito adquirido de participar ativamente das resoluções sobre a sua saúde.
Qualquer remédio, medicamento ou não – como orientação sobre hábitos de vida- passou a significar consentimento do paciente ao médico para a aplicação e/ou concordância de si para si próprio para adesão. Desta maneira, responsabilidades do médico expandiram-se em pluralidade de circunstâncias e, ao mesmo tempo, as do paciente ficaram mais evidentes em função da substituição do “passivo” paternalismo” pela “ativa” autonomia.
A verbalização do Sim ou do Não em seus graus de real obediência aos próprios pensamentos deve representar, idealmente, a essência de expectativas positivas ou negativas sem desconhecimentos importantes, a ser gerada por esclarecimentos.
O clima de clareza, por exemplo, requer que o paciente esteja ciente que poderá “fugir” de um tratamento, mas não dele escapar adiante, em função da chamada fisiopatologia da doença e do seu efeito prognóstico. A renúncia do paciente ao usufruto do estado da arte de Medicina tem ficado mais bem tolerada pelo médico, à medida que se aposentam aqueles que aprenderam a ser médico conforme a cartilha do paternalismo e que cresce a consciência que a multiplicação de inovações de eficiência diagnóstica e terapêutica determina maior número de labirintos iatrogênicos com trajetos perturbadores e saídas frustrantes.
O menos é mais é lema que parece crescer na mente do médico na beira do leito pelo receio de danos maiores da aplicação de métodos em relação ao quadro clínico vigente. A geriatria coleciona exemplos em função da fragilidade de idosos. Um confronto entre verdades e (in)certezas que traz reflexões sobre a pertinência da ética de princípios e a ética utilitarista/consequencialista.
Assim, nesta assertiva que o médico sabe Medicina e o paciente dela precisa, hospitais sem vagas e com filas atestam que o consentimento do paciente -total ou parcial- é a maior realidade vigente. Todavia quantidade e qualidade precisam do olhar vigilante e prioritário da Ética sobre o absoluto respeito a objetivos, desejos, preferências e valores do paciente. Algum procedimento executado com propriedade técnica, contudo com passos desviados do acordado com o paciente – ou nem discutidos-, desvaloriza moralmente qualquer estatística entusiasta de um Serviço.
Por absurdo, uma lei poderá impor o fornecimento de água contendo vitaminas à cidade, mas as individualidades da beira do leito não devem ser reguladas por heteronomias, salvo no iminente risco de morte, conforme o Código de Ética brasileiro vigente, e assim mesmo, com certas possibilidades interpretativas.
O exercício anti-deformações, anti-transfigurações do ato médico ético é sabedoria da beira do leito que se opõe a aplicações da ciência fora de um amplo contexto humano. A linguagem desempenha papel essencial para a conjunção dos interesses, pontos de vista e disponibilidades.
O princípio da Autonomia conscientiza que o médico não deve ser aquele martelete automático que para cumprir o que entende sua obrigação utiliza-se de eufemismos, meias palavras, desconversas para “não perder a oportunidade” que justificada nos livros não é justificável nas entrelinhas do paciente.
Portanto, parece lícito mentalizar que ser médico inclui frequentar vários ideais de médico para os pacientes, sem se despersonalizar, pois na busca da melhor conexão ética com o paciente, vale dizer longe de indiferenças e próxima da força da verdade.
Neste aspecto, veracidade, sinceridade e humildade irmanam-se como valores para consistência na luta por fins superiores relacionados à Saúde, uma definição para dignidade ao gosto da Bioética.
Vir a ser médico ético em tempos de Bioética é, justamente, engrandecer a sua conexão com o paciente pela força da verdade de cada um, moralmente necessária. A sinceridade médico-paciente em duas vias de direção permite aproximar a verdade da certeza no campo das intenções de uso/não uso da técnico-ciência validada. Chega ao máximo possível quando aplicável após passar pelos filtros do benefício clínico e da segurança biológica e tornar-se consentida após os esclarecimentos ao paciente.
Muito embora não se consiga assegurar a certeza do resultado, a autenticidade – que também pode ser chamada de boa-fé- é tradicional base sólida da Ética do exercício profissional na beira do leito que está no topo das recomendações da Bioética da beira do leito.