Momento é uma ocasião definida no tempo. Crise é um momento de tensão. Na prática clínica, especialmente à beira do leito, decisões são tomadas não apenas sob critérios técnicos, mas sob a pressão do quando. A Bioética da Beira do Leito exige sensibilidade para reconhecer os momentos em que se fazem escolhas, afirmam-se decisões e aguardam-se — muitas vezes com inquietação — as realizações de expectativas.
A crise, nesse contexto, não é exceção: ela é constitutiva do ato médico. Surge no diagnóstico, na indicação terapêutica, na hesitação, no não fazer e, sobretudo, na incerteza quanto às consequências futuras de decisões tomadas no presente.
A temporalidade da doença e do humano
As doenças apresentam momentos de (não) manifestação ao longo de sua história natural. Aspectos individuais condicionam variações expressivas no grau de comprometimento de órgãos ou sistemas, na intensidade de sinais e sintomas e na evolução clínica — espontânea ou sob tratamento.
Paralelamente, a condição humana reage à enfermidade em sucessões de momentos racionais e emocionais que nem sempre são perfeitamente inteligíveis aos circunstantes. Medo, negação, esperança, ansiedade e alívio alternam-se, frequentemente de modo não linear, compondo um cenário onde o tempo clínico não coincide com o tempo subjetivo do paciente nem com o tempo institucional da Medicina.
Esse conjunto de fatores faz com que decisões tomadas em um mesmo “ponto” cronológico possam representar momentos éticos profundamente distintos.
