A Bioética da Beira do leito entende que a organização do estado da arte em diretrizes clínicas, sem dúvida, se tornaram fator de eficiência tecnocientífica validada, mas, é preciso considerar que não elas não devem manietar a visão crítica, relegar a segundo plano discordâncias geradas pelas biologias individuais, bem como vedar a possibilidade de uma reclassificação pessoal sobre determinada recomendação – por exemplo, julgar como II b e não como II a ou como fraca e não forte a força de recomendação de aplicação de um método. Efeitos manada na beira do leito não devem bloquear vontades e análises justificáveis de alguma ruptura, admissíveis de sair fora da moldura.
Por que é que um não membro de comitê de diretriz clínica possuidor de competência profissional não pode pensar a seu modo a utilização de um componente recém disponível no arsenal tecnocientífico, construir a seu modo a ponte entre o laboratório de pesquisa clínica e a beira do leito? Será receio de comprometer a segurança do paciente?
Não parece argumento indiscutível. Recorde-se que no estabelecimento da força da recomendação e do nível de certeza uma votação pode ter como votos vencidos o mesmo posicionamento de um não membro que “ousa” classificar a sua maneira, além da possibilidade de mudanças em atualizações não distantes da prévia.
Faça o bem, não faça o mal é orientação que ressoa na imensidão do ecossistema da beira do leito desde os primórdios da medicina e que traz consigo a esperança humana que era depositada nos deuses que “prescreviam” na Grécia antiga. A recomendação mantém-se essencial, o médico ético deve procurar atuar sempre sustentado pelo estado da arte que separa o joio do trigo.
Todavia, há males inevitáveis associadas a aplicações de métodos validados em medicina e que admitem os termos iatrogenia, efeito colateral e adversidade. Uma preocupação constante que a Ética obriga aos médicos, uma sabedoria do passado que distingue o humanismo na beira do leito.
A iatrogenia é razão forte para o compromisso profissional com o rigor na indicação/não indicação/contraindicação, com a avaliação individualizada da relação potencial de risco – potencial de benefício e com o esclarecimento ao paciente quando da recomendação médica. A iatrogenia constitui-se num forte elemento motivador de não consentimentos pelo paciente.
