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1727- Medo, culpa e apoio da Bioética (Parte 1)

Bioamigo, grande chance de você ter nascido num hospital, não é mesmo? Ele, ao se tornar mais tarde o tipo do recinto da sua atividade profissional, representa retorno para onde você veio à luz trazendo um par de sentimentos que a Psicologia inclui entre os pertences da nascença do ser humano jamais eliminados, local no qual você passa a lhes dar visibilidade e funcionalidade: medo e culpa. Medo é emoção causada pela antecipação ou consciência do perigo, culpa é emoção moral alinhada a avaliações negativas de si mesmo e ambas podem estar inter-relacionadas como duas faces de mesma moeda.

É impossível passar incólume de momentos de medo e de culpa no exercício da medicina. Todos colecionam eventos marcantes, traumáticos mesmo,  que provocam sequentes processos cognitivos de análise, ditos ruminação, tanto como recordação incontrolável (ruminação intrusiva) quanto de reexame objetivando mudanças positivas (ruminação deliberada).

Desde Hipócrates (460 aC-370 aC), expressões pró saúde e antidoença são moldadas por processos emocionais que provocam efeitos intrapessoais e interpessoais. Integrante do espectro emocional, a dupla medo – culpa está presente no amplo contexto do exercício da medicina, intimamente atrelada aos limites e às possibilidades da tecnociência e da arte de a aplicar que geram decorrências perturbadoras a questionamentos ontológicos – o que cabe -, axiológicos – quais são os objetivos -, epistemológicos – o que é legítimo no conhecimento – e metodológicos – métodos validados. A desaprovação é poderosa, a “cara fechada” do outro incomoda.

Desde a formatura até a aposentadoria, sucessivas mudanças no estado da arte de combinações de manutenção do clássico e incorporação da inovação tecnocientífica renovam os compromissos profissionais e a pluralidade de probabilidades evolutivas. As contingências comportamentais são forte razão para que os processos de escolhas entre indicações, não indicações e contraindicações de métodos teçam decisões menos passíveis de criar ideias de risco de futuras incriminações éticas, vale dizer, mais protegidos do excesso de medo que paralisa e da visão de culpa que angustia.

Acresce que atuações profissionais costumam ser coletivas e, assim, ampliam-se as chances de envolvimento com o par medo – culpa por efeito equipe. Note-se que altos níveis de excelência nas providências previstas e aplicadas reduzem, mas não “vacinam” sobre chances de irrupção de medos e culpas.

Pretende-se que a maratona técnica e emocional do lidar com as distintas realidades seja uma sucessão do dia-a-dia profissional que transcorra com harmonia entre a autoridade do superego e a coordenação do ego, com preservação do bem-estar, conformidade com a ética, resguardo da própria imagem, baixa tensão com medos e culpas em cada meta diagnóstica, terapêutica e preventiva. Tudo articulado com contextos hospitalares e influências do sistema de saúde. Vale recordar Henry David Thoreau (1817-1862): A opinião pública é uma tirana débil, se comparada à opinião que possamos ter de nós mesmos. 

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