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1731- Medo, culpa e apoio da Bioética (Parte 5)

Assim, o Residente de medicina atual aprende, por exemplo, que deve em nome da beneficência integrar-se à “manada” representada pelas diretrizes clínicas que reúnem as evidências tecnocientíficas atualizadas por sociedades de especialidades confiáveis. É segurança de competência no conhecimento atrelada à medicina baseada em evidências que de certa maneira compartilha argumentos favoráveis e contrários a quaisquer eventuais contraposições sobre indicações e não indicações de métodos diagnósticos, terapêuticos e preventivos. Com o passar do tempo, o acúmulo da experiência anticulpa de fato vivenciada anima a ajustes individualizados sem, contudo, maiores afastamentos dos cânones.

Trata-se da condução recomendável (Conduta Recomendável no jargão da Bioética da Beira do leito), universal, validada, permanentemente sob os olhares corretores das estatísticas de resultados e da indispensável pesquisa clínica inovadora. Ela não basta, contudo, e deve ser seguida pela condução aplicável (Conduta Aplicável no jargão da Bioética da Beira do leito), onde o médico(a) necessita avaliar o risco de maleficências individualizadas, cotejá-lo com o potencial de beneficência, enfim, decidir quanto a possibilidades de contraindicação ao recomendável.

É atividade que traz certo afastamento da “manada” da medicina baseada em evidências, especialmente porque cada vez mais lida com os acasos da beira de leito  representados pela reunião de morbidades, por exemplo, pelo controle de doenças crônicas e maior expectativa de vida. Descolar-se da “manada” embora sem a perder de vista implica em mais chance de sentir medo sobre o acerto de opções e decorrente culpa por acontecer certos resultados não pretendidos, apesar de não necessariamente causados por incompetência profissional, mas pelos percalços da biologia humana. Interpretações contam!

Ainda não basta. Cresce a individuação – e com ela o medo e a culpa – quando a conduta aplicável precisa transformar-se em autorização pelo paciente (Conduta Consentida no jargão da Bioética da Beira do leito). Os posicionamentos profissionais sujeitam-se a reações concordantes e discordantes do paciente/familiar, atuações, palavras, linguagens corporais suscitam infinitas respostas, por vezes enigmáticas e paradoxais, e a síntese num Doutor, não consinto traz frustrações, niilismos, imposições de ajustes mais ou menos impactantes na beneficência e na maleficência e decorrentes riscos de interpretações aleatórias de imprudência, negligência, descaso, indiferença, matérias-primas para a explosão de medos e culpas pelo médico(a), principalmente entre aqueles que ainda não desenvolveram as calosidades da maturidade profissional.

Tormentos desta natureza são etiopatogenia para expressões de burnout até porque, não infrequente, o ritual ético impede o médico de comportar-se “naturalmente” pois ele deve ajustar-se à liturgia do profissionalismo na saúde quando gostaria de expressar-se com mais espontaneidade e quando, eventualmente, se deixa levar e ultrapassa limites, sujeita-se a um efeito bumerangue.

A angústia e sua interdependência com a culpa representa-se como perigo à continuidade profissional, o mal-estar do medo de ter diante de si processos dolorosos e, inclusive, predispõe à evitação “preventiva” de conduzir tipos de pacientes e modalidades de casos. Por isso, a validade da recomendação pela Bioética do treinamento em atitudes na beira do leito, apreender bases para enxergar conflitos, dilemas e desafios na conexão médico-paciente sob o maior número possível de ângulos de visão ética, moral e legal. Ademais, a Bioética proporciona pontos de referência organizados que colaboram para o desenvolvimento da ruminação deliberada que traz melhor convivência com o passado de medos e culpas.

Treinar para respeitar o medo e conter a culpa não é uma questão de desespero porque o médico(a) não se sente ter alcançado o pleno de beneficência como deseja, mas a maneira de lidar com a sina da maleficência inevitável da medicina, das adversidades que atormentam pela constatação habitual que restam faltas, que se estabelecem dívidas de algumas naturezas, que não consegue ser o que não é, não importa se outros pretendam ou não que seja. Conviver, superar, amadurecer. Alô Bioética!

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