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1209- Trans e pós-humanismo na beira do leito. Uma leitura com o apoio da Bioética (Parte 10)

É digno de nota a multiplicidade de situações da beira do leito para serem aceitas, rejeitadas ou ajustadas pelo profissional da saúde. Ele “imuniza-se” e tolera/não tolera pari-passu com maior ou menor “inflamação” comportamental. O profissional da saúde aprende com o mestre Dia-a-Dia variações admissíveis do modo de pensar ao longo do tempo. Elas podem acontecer num tempo curto de algumas horas para consulta a colegas ou à literatura especializada, ou após meses, quando, então, representam experiência. A disponibilidade do apoio transdisciplinar facilita os ajustamentos por compartilhamentos plurais de saber e de sabedoria. Como dito por George Santayana (1863-1952): O mais sábio tem sempre algo mais a aprender. 

É valor da Bioética inspirar o profissional da saúde a renovar mergulhos em heterogeneidades de conhecimentos, desde os técnicos até os filosóficos, a deixar-se estimular pela curiosidade e pela criatividade que aperfeiçoam as bases éticas/morais/legais dos processos de tomadas de decisão. A Bioética pode acompanhá-lo no espaço onde incidem as exigências a inevitáveis desafios, dilemas e conflitos de todos os dias da beira do leito com o conselho: profissional da saúde, não mergulhe nos atendimentos na beira do leito, sem usar o EPI (Equipamento de Proteção Individual) chamado Bioética.

O que se verifica no cotidiano da beira do leito contemporânea é que Bioética é, ao mesmo tempo, pouco conscientizada como tal pelo profissional da saúde, mas altamente utilizada na prática com seus fundamentos aplicados sob outra linguagem. Afigura-se uma relação metonímica: beneficência substituída por indicação, não maleficência por contraindicação, autonomia por consentimento. É razão para que o profissional da saúde não se aperceba que usufrui da Bioética.

A função de ponte da Bioética como intuída por Van Renssalaer Potter (1911-2001) com duas vias de sentido de direção entre ciência e humanidade abrange tanto o decoro coletivo -fundamental para a vida civilizada, compreendendo empatia, polidez, bondade, honestidade, sinceridade, lealdade, confiança, gratidão e tolerância, um conjunto que requer sabedoria para atribuir prioridades circunstanciais entre os mesmos -, quanto processos ativos de excelência moral individual atrelados à força de caráter. A metáfora da ponte carrega a intuição da preservação de ligações humanas pela propensão do ser humano a se “desumanizar” por sua inteligência.

A Bioética instiga a uma constante “ginástica de neurônios cerebrais” que privilegia a atenção a fatos e a dados relativos a tudo que possa interessar a uma visão de qualidade da vida humana, e, assim, faz um empréstimo do lema SEMPRE ALERTA do escotismo de Robert Baden-Powell (1857-1941). É representação que admite um espírito de panoptismo, uma forte vigilância, até passível de ser vista de modo negativo, que ao mesmo tempo induz a uma sensação de segurança, dualidade que se adapta bem na conexão médico-paciente contemporânea “condenada” a renovar incertezas a cada incerteza resolvida por inovações.

Um usuário do SEMPRE ALERTA é o truísmo que só temos uma vida para viver – assim também entendido para as gerações vindouras. Associa-se à consideração universal que todos os dias esperamos viver dias seguintes (Até amanhã! é dito com o otimismo da sobrevivência) e ao reconhecimento que somos o que fazemos. Por isso, a relevância da autonomia, da inteligência, da criatividade, do autorrespeito, da autodisciplina e da motivação prazerosa a serviço da boa ação de preservação da saúde e do bem-estar.

Pela nutrição na transdisciplinaridade, a Bioética evita isolamentos epistemológicos e estimula a ampla integração dos mananciais de saber e sabedoria acumulados pela humanidade, sem juízos apriorísticos de hierarquia de valor. A simbiose facilita desenvolver um perfil tão crítico quanto conciliatório e organizar espaços de compartilhamento entre convicções de coerência e harmonia advindas de distintas apreciações  morais, amparadas quer pela razão da consciência autonômica, quer pela religião obediente. Da influência da sabedoria sobre o saber decorrem reduções de tendências ao cienticismo na análise de oportunidades e possibilidades e, muito importante, valoriza-se a inserção da espiritualidade como fonte de significâncias, um aspecto da transdisciplinaridade.

A Bioética reforça o respeito à individualidades dado pelo recado da natureza: que cerca de oito bilhões de pessoas portam únicos DNAs e específicas impressões digitais. O Barão de Itararé (Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly, 1895-1971, autor das frases icônicas Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades e Quem inventou o trabalho não tinha o que fazer, adaptaria a individualização ao Brasil: cada brasileiro, mais que um nome próprio (que pode ter homônimo) é um número próprio (de CPF).   

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