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981- Saúde (Parte 3)

Um passeio pela História da Doença visita sucessivas ideias sobre origens com destaque para demônios, feitiçaria, misticismo religioso, pecado, sentimento de culpa, desequilíbrio com o ambiente, movimentação de pessoas e animais, aglomerações sem infraestrutura, além de conceitos mais modernos alinhados à história natural, à epidemiologia e a bases celulares e moleculares.

A Bioética da Beira do leito interessa-se pelo conhecimento de seus significados temporais, seus determinantes humanos e seus efeitos no desenvolvimento social, pois entende valiosa contribuição para a melhor compreensão das calidoscópicas necessidades e expectativas da sociedade na área da saúde.

A história da humanidade registra modos de descobertas de doenças reais, construções de doenças imaginárias e suposições de doença em comportamentos atribuídas a mentes famosas como a de Jean-Martin Charcot (1825-1893) – a histeria- e a mentes desprezíveis como a de Samuel Adolphus Cartwright (1793-1863)- a drapetomania (drapetes, escravo em grego).

Uma reunião de singularidades inclui-se em contextos de cuidado com a saúde. Cada fato admite vários desdobramentos interpretativos e operacionais. O método científico é prioritário para fundamentar explicações na expressão de saúde-doença, mas a boa prática não pode ignorar a necessidade de lidar com pensamentos nômades do leigo com seus pedaços atávicos. A Bioética da Beira do leito registra com bons olhos o crescimento da integração espiritualidade/ciência na área da saúde representativa da disposição profissional pelo máximo respeito à pessoa do paciente, uma forma de modular o cientificismo.

O ser humano nasce, cresce e morre. As ciências da saúde cuidam desta evolução, incluindo antes do nascimento e após a morte. Variantes de normalidades e expressões de patologias etiquetam manifestações do corpo e da mente. Metáforas são utilizadas para lidar com indeterminações. Expressões como louco de raiva, sem noção, alergia a determinada pessoa ilustram associações inconscientes entre comportamentos e doenças.

Bioamigo, a menstruação é, em si, um fato normal da saúde da mulher em seu período fértil da vida essencial para a perpetuação da espécie, mas quando inserida num contexto integrado, pessoal ou interpessoal, pode expandir-se de modo suficiente para se tornar referência para uma representação subjetiva ou objetiva de doença. Por exemplo, síndrome de tensão pré-menstrual tem um CID (CID 10 – N94.3).

A pluralidade que se faz admissível numa ideia de saúde humana impede um conceito único e, assim, cabe uma variedade conceitual. A multiplicidade não deixa de compartilhar semelhanças, é verdade, mas, cada uma adéqua-se a um propósito para o trânsito pelas fronteiras fluidas entre saúde e doença. Ademais, é sempre plausível manter atenção a uma participação de fatores sociais, culturais, econômicos e políticos junto aos biológicos e psicológicos.

É raro alguém metaforizado como possuidor de saúde de ferro não ter alguma ferrugenzinha, o tempo oxida e corrói: uma miopia, um medo, um intestino preso, uma alergia, uma fraqueza da parede abdominal, um nível de LDL-colesterol acima do ideal. Um adulto considerado hígido tem algum CID, é só dispor-se a procurar que algum médico acha pelo exame direto e/ou exames complementares.

Ademais, o controle de doenças crônicas na atualidade do século XXI significa que o indivíduo livra-se temporariamente da morte relacionada à história natural e pode, entretanto, apresentar repercussões cotidianas que não necessariamente comprometem a sensação de bem-estar.

Por isso, a Bioética da Beira do leito indica que o exercício de diagnósticos e de estratégias terapêuticas e preventivas na beira do leito não pode deixar de considerar o paciente como um todo e possuidor de um modo de vida. Este apanhado holista é forte razão para a voz ativa do paciente, um direito que lhe permite expor pontos de vista, assim conjugando subjetividades – bem-estar, felicidade- de um ser humano e objetividades da tecnociência- foco fisiopatológico.

Por outro lado, qualquer visão de harmonia individualizada ou coletiva requer que haja de fato acesso ao sistema de saúde. É inclusão essencial e que significa que temas da saúde importam no respeito à cidadania. Lembrando, o modelo SUS congrega a universalidade, a equidade e integralidade.

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